RSS Amplifier

o que cantam as cigarras · Aug 16, 2026

Não é preciso ter certezas para escrever

0
Sign in to vote or save

lis welch · o que cantam as cigarras

Agradeço, de antemão, a todos os apoiadores pagos de o que cantam as cigarras. São vocês que permitem que textos como este — e muitos outros — permaneçam no ar. Caso minha escrita te toque, considere ser parte dessa cantoria conosco.

Existe um estado de inércia que se apossa de mim quando há uma grande necessidade de cumprir uma determinada tarefa. Por um bom tempo, pela tendência à procrastinação, assumia o contrário: funcionava bem sob pressão, pois é nela que meus diamantes tendem a surgir. Essa era uma realidade confortável até o final da faculdade, movida pela necessidade de agradar quem mais torcia por mim. Agora, na vida adulta, sinto o inverso. Quanto menos tempo para lapidar, mais provável que eu não consiga realizar a maldita tarefa a tempo. Ao abordar tal tópico com a minha psicóloga em nossa última sessão, descobri, sem muito decoro, que se trata de um sentimento típico entre criaturas premiadas com altas habilidades e superdotação.

Ser uma pessoa neurodivergente — no meu peculiar caso, com autismo, altas habilidades, superdotação e um histórico de ansiedade, depressão e tendências dissociativas — é um caos constante. Embora os traços que componham tais diagnósticos sejam parte de mim, eles também apontam para uma forma atípica de se funcionar, tanto na química cerebral quanto na percepção consciente. Uma forma à qual eu mesma não estou habituada — pois meu imaginário se consolidou, também, ao redor de pessoas neurotípicas.

Não é incomum que eu esqueça compromissos com frequência, mesmo mantendo uma agenda atualizada; nem que a criação se torne minha musa por longos três dias, para então, após horas ignorando necessidades básicas do meu corpo, eu cair num fluxo de improdutividade por uma semana, por um bloqueio mental que ainda não consigo descrever com total especificidade. Situações sociais, como o simples trocar de mensagens com um amigo, podem me desgastar completamente, ao ponto de eu precisar me entocar na minha caverninha por dias para evitar uma possível crise sensorial — hoje conhecido como “meltdown”.

O perfeccionismo é o meu mote inconsciente até no andar da minha própria terapia: se percebo um traço problemático, sinto que preciso combatê-lo veemente, com rapidez e eficácia — ponto que, por si, é problemático e precisa também de cuidado, mas que pode ser feito lentamente, como tudo na vida, sem a necessidade de ser perfeita do dia para a noite. (Afinal, a perfeição é impossível, embora eu tenha sido criada para ser perfeita — tópico para outro momento.)

Tais características, entre outras, compõem desafios diários para que eu funcione dentro de uma expectativa neurotípica e, óbvio, capitalista. Desafios invisíveis, que ninguém enxerga até que eu os pronuncie. Desafios que só eu sou capaz de me preparar para lidar com, já que a empatia anda em baixa e cada um que lide com os próprios problemas. Penso isso pois já fiz o exercício de pedir aos outros certo cuidado e o resultado não foi muito bem proliferado — na verdade, a percepção que se assume é de que somos preguiçosos, lerdos, burros, estúpidos, insensíveis, loucos, retardados.

Para as boas moças, deixo, contudo, um aviso: não tente me convidar para um compromisso de última hora, pois eu não conseguirei atendê-lo. Quer me ver? Marque com no mínimo 48 horas de antecedência. Preciso preparar meu cérebro cansado para o chefão social que se apresentará por dois milésimos de segundo em tal situação e depois decantará sem qualquer esmero. Obrigada pela atenção.

Sinceridades: não espero que ninguém cumpra tal pedido. Só espero que entendam que, talvez, eu cancele um evento social pois, é, meu cérebro fritou na última hora e, agora, eu preciso chorar um pouquinho no escuro, quietinha, sem que ninguém me incomode.

Produzir, funcionar, entregar, cumprir, alcançar, consumir. Estamos tão ferrados que normalizamos o uso de um linguajar atrelado às máquinas para descrever nossa própria existência neste mundinho globalizado. Ser humano não serve mais. Somos todos um pouquinho ciborgues que existem à dependência das máquinas, o que nos torna, em certa instância, uma máquina — nada que Donna Haraway não tenha explorado lá em 1985 com o Manifesto Ciborgue. Se a diva já imaginava isso em 1985 sem a presença de smartphones e computadores ocupando o lugar de diário da nossa vida, em conectividade com o restante do mundo inteiro, imagina hoje? Queiramos ou não, a realidade já é cyberpunk (só falta a parte interessante em que eu possa desplugar meu genital e plugar outro no lugar quando bem quiser).

Falei um pouquinho sobre isso no meu artigo que foi publicado em julho na Mothership, um portal feminista de jornalismo de jogos. Lá, tentava apontar meu incômodo com o fato de Cyberpunk 2077, após tanta transfobia destilada na divulgação e a ausência de representação trans bem-feita no material, ter se tornado uma obra queridinha para pessoas trans em determinados círculos que habito — e, no processo, explicar tamanha incongruência.

Este texto foi um desafio de ser escrito: além de um limite de palavras — fator com o qual eu não lido nada bem — e a necessidade de me comunicar com uma audiência trans norte-americana — que tem percepções culturais bem diferenciadas do que é “ser trans” das daqui do Brasil —, um dos meus amores felinos veio a falecer na semana em que estava escrevendo-o. Foi um drama, mas comuniquei isso às editoras e elas foram super compreensivas, aumentando o meu prazo de entrega. Uma compreensão que recebi poucas vezes em outros momentos da minha carreira e me foi uma surpresa agradável.

Porém, mais uma vez no Vale da Sinceridade, preciso admitir que não gostei do resultado final. O texto foi muito bem pesquisado e editado, mas não sinto que abarcou todos os tópicos que eu gostaria (tanto por uma limitação de espaço quanto pela minha dificuldade em ser concisa). As editoras amaram o trabalho, o público teve reações mistas (não pela qualidade do texto, mas pelo fato de eu apontar transfobias em um jogo que julgo transfóbico), e outras pessoas do meio jornalístico e editorial vieram elogiar minha escrita.

Mas, para mim, não estava bom.

Se tivesse mais tempo, mais cabeça, mais cuidado… eu teria arrebentado a boca do balão. Mas não, ser mediana não era suficiente. Veja: ninguém disse que o texto era mediano, eu apenas assumi essa percepção como um fato — ah, o bom e velho perfeccionismo!

Até que… algo aconteceu.

No servidor do Discord da Mothership, outras escritoras, também lá publicadas, discutiram o material de forma muito respeitosa. O comentário de uma delas, entretanto, me pegou: “uma resolução simples, embora sincera”. É mais do que evidente que eu, com o meu ego gigantesco, me incomodei com o uso do adjetivo “simples”. Simples? Are you joking with me? Eu, simples? Como pode você confirmar minha mediocridade? Me poupe, né!

Mas, fato é: foi simples mesmo. O exercício de aceitar tal incômodo em mim levou umas boas duas semanas. Ainda sou muito apegada ao que escrevo e, vez ou outra, preciso me esforçar para aceitar críticas. Quando elas vêm bem intencionadas, contudo, é mais fácil. E esse era o caso aqui. Em seguida, ela explicou o porquê Cyberpunk 2077 era relevante para ela enquanto pessoa trans, apontando uma parcela da obra com a qual eu nunca me identificaria. Essa divergência, na verdade, revelou uma riqueza do texto para mim. Curiosamente, era este o meu ponto de resolução: boa ou má representação, representação é representação e sempre ressoará com alguém. E o texto, ao expor o tópico, permitiu que discussões se desenrolassem sem barreiras.

Tal desfecho estampou um sorriso em meu rosto. Entendi na prática, mais uma vez, o que Roland Barthes queria dizer com A Morte do Autor: uma vez no mundo, o texto já não pertence mais a mim. Deixemos que ele floresça sozinho.

Minha noiva — sim, eu noivei! (Jesus, como sou péssima para dar notícias) — vive dizendo para mim o quão divertido é me assistir escrevendo. É um exercício não linear, fragmentado, quase como se eu montasse peça a peça um quebra-cabeça. Por exemplo, este trecho que você lê agora foi escrito antes do tópico 2 ter sido finalizado, assim como o início do tópico 2 foi escrito antes do tópico 1 ser finalizado, como também é bem provável que o final do texto seja escrito antes mesmo do texto, em si, estar finalizado. A escrita nunca vem para mim com início, meio e fim e um excesso de certezas a serem ditas. Na verdade, me descrevo como uma tecelã: são-me dados trapos, linhas, pedaços de moldes, todos desconexos, e é meu trabalho costurá-los — filha de costureira, boa costureira é.

Lendo um texto recente do Abrahm Buehner, escritor e editor estadunidense que trabalha comigo lá na Lost in Cult, me peguei pensando exatamente sobre isso: como o papel do escritor, muitas vezes, é visto com superioridade moral, acompanhando uma necessidade indissociável de expelir fatos. Na verdade, é essa exata postura que sempre foi vendida a mim como a da boa escrita: aquela que tem algo a dizer com pura convicção, de forma persuasiva o suficiente para que, ao fim, todos concordem com o que foi dito.

Cometendo mais um sincericídio: nada me cansa mais.

Após ler o texto do Abrahm, percebi que a minha inércia na escrita nasce daí. Da minha percepção sobre o que é a “boa escrita” e de como ela “deve” ser criada, veiculada, divulgada, discutida, recebida. De precisar dizer verdades do início ao fim, com o uso aprimorado da palavra e uma grande reviravolta ao final. Talvez daí tenha nascido o meu incômodo com o texto do Cyberpunk: de sentir-se compelida a dizer verdades mesmo sabendo que a verdade é uma mera perspectiva particular sobre a realidade — e de que, na prática, não dá para colapsar todas as perspectivas existentes sob só uma narrativa.

Por isso, na falta de verdades a serem ditas, eu desapareci por mais um longo período desta newsletter. Embora estivesse escrevendo horrores, enviando pitches para portais e trabalhando no World of Horror, não encontrava tópico relevante o suficiente para trazer para cá. Queria bater o impacto do meu texto mais bem sucedido nesta rede, embora já não tenha mais os meios de divulgação que cultivava — queimei o Twitter, o Bluesky e o meu servidor no Discord. (É provável que queime mais até o fim do ano. Estou numa fase incendiária.)

Até que, nesta manhã de domingo, após passar um tempo deitada dissociando dentro do meu próprio museu mental, sofrendo aqui e ali com as dores da fibromialgia, percebi que o colapso emocional que sofri nas últimas semanas emergiu pela falta de crueza. A falta de um texto como este: nada a ver com nada, jogando palavras ao vento, sem muita questão de criar coerência; mas que, sem dúvidas, vão bater nas copas certas, carregar pequenas sementes e permitir que as mais belas flores brotem nos jardins de quem quiser ser afetado.

Para mim, a escrita, diferente de outras funções, não é só um mero meio de produção. É uma necessidade de ser. Eu escrevo porque não consigo me expressar tão intensamente ao mundo de outra forma — bem como só sou capaz de ouvi-lo claramente assim. Às vezes, tudo o que eu preciso é voltar para onde mais amo estar: com quem pode me ouvir e responder de volta, para também ser ouvido. Uma segurança que tenho pois confio na minha audiência, pois confio em vocês e sei que, mesmo sem as redes para ser divulgada ou a estrutura textual mais clara do mundo, serei compreendida.

Pura e crua conexão.

Essa cantiga é tecida por apenas duas mãos.
Quaisquer erros compõem sua melodia acidentada.

Por aqui, sempre com transgressões e travessuras,

Read the original on liswelch.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.