Uma nova diarista, a V., começou a trabalhar aqui em casa. No segundo dia, me trouxe dois pés de alface da chácara onde ela mora com marido. Quando soube que gostamos de chá de capim limão, trouxe uma muda de capim limão para plantar no nosso quintal. Quando fez bolo de banana na casa dela, me trouxe um pedaço. V. lava louça cantando, me conta orgulhosa quando conseguiu tirar uma mancha da toalha de mesa que eu nem tinha visto. O eletricista veio consertar uma coisa, ela puxou conversa, começou a contar vários casos da vida dela.
Dia desses, eu estava fazendo café, ela lavando a louça, e papo vem, papo vai, ela comenta que trabalhou por sete anos no setor de vendas de uma fábrica de embutidos aqui da região.
Eu: sete anos, bastante coisa, né?
V: pois é, menina, no começo eu adorava, depois cansei, pedi demissão.
Eu: e dá pra ganhar igual com faxina?
V: ganho mais, mas sem carteira, no final acho que sai igual.
Eu: e você gosta de faxinar? Ou foi o que apareceu?
V: ah, eu gosto bastante. Trabalhar em casa de família é outro clima, tenho mais sossego, posso ouvir música, usar o celular, sair mais cedo quando termino. Em firma tem muita regra, muito horário, eu acabava trabalhando muito mais horas... E outra, sempre gostei de serviço de casa. Mas posso te falar a verdade?
Eu: Fala.
V: Qualquer trabalho que eu tenho, dou um jeito de gostar. Faço o meu dia ficar gostoso! Ouvindo minhas músicas, perdida no meus pensamentos. Penso cada coisa… E me faz bem caprichar. Quando entro e a cozinha tá bagunçada, e saio e olho praquela cozinha brilhando de limpa, isso me dá muito gosto.
Pensei: tem gente que tem um talento para a alegria, uma boa vontade com a existência, um apreço pelas coisas do jeito que as coisas são. Uma lucidez, uma capacidade de amar a vida.
Essa característica costuma me chamar atenção nas pessoas. Me parece que essa alegria fácil é um traço que pode ser encontrado em mulheres e homens de diferentes níveis socioeconômicos, algo que parte da personalidade ou, quem sabe, foi um aprendizado colhido pela experiência.
Lembrei de quando estava na maternidade. O Vi já tinha nascido e eu estava me recuperando, e o quarto estava naquele entra e sai de enfermeiras. Era nítido ver as que estavam ali inteiras, presentes, e as que estavam ali fazendo as coisas, mas contrariadas. Trabalhar numa função que tenha a ver com a vocação é o que torna possível alguma alegria no trabalho? “Qualquer trabalho que eu tenho, dou um jeito de gostar. Faço o meu dia ficar gostoso!”, lembro de V. falando. Depois, lembro do meu amigo B.
B. se identifica como alguém que detesta trabalhar, fala que se ganhasse na Megasena não trabalharia mais nenhum dia na vida, está sempre lembrando os outros que trabalho vem do latim Tripalium, um instrumento de tortura. É formado em publicidade e está sempre reclamando dos patrões exploradores, do sistema precário, dos bilionários malditos, de não receber quando tira férias. Como eu, ele trabalha como autônomo, no esquema home office e com horários flexíveis, trabalhando no total entre 5 e 7 horas por dia, mas está sempre reclamando: o certo seria trabalhar só duas vezes por semana, o mundo funciona de um jeito totalmente errado, os trabalhadores só se ferram, na verdade tinha que existir renda básica universal, porque o certo mesmo seria só trabalhar quem quer etc.
Não curto muito a parte de ficar retomando a origem etimológica da palavra “trabalho”, porque claro que o trabalho pode ser tortura, mas também pode ser muito gratificante, depende de tanta coisa... De qualquer forma, obviamente concordo que o sistema é bizarramente desigual, muitas vezes desumano.
Dito isso... A alegria que a V. sente, mais do que sente: a alegria que V. faz questão de ativamente doar aos dias de trabalho dela é uma alegria alienada? Ou é uma alegria só conhecida pelas pessoas que vivem de um jeito mais leve, que estão mais conciliadas com a existência, ainda que com todas as suas imperfeições? Podemos ser mais conciliados com a existência? Devemos?
A revolta de B., ainda que sensata e até admirável, na prática impede B. de amar o mundo como ele é, e o impede de amar a própria vida, pois nada está bom. A alegria de V. é bonita de ver, eu diria até contagiante, e me parece de alguma maneira sábia, mas o que tem de revolucionário nessa alegria? Na verdade, é uma alegria que, em certo sentido, é antirrevolucionária, pois a pessoa que está alegre está ajeitada no modo de ser das coisas. Ou essa alegria é um modo de resistência?
Depende de como se vê, claro. Como tudo na vida. Como Bluma Wainer escreveu numa carta a Clarice: “Tudo na vida é mais ou menos assim: depende da maneira de ver as coisas, não é? Só há uma coisa que não adianta olhar de cima, de baixo ou do lado, é a miséria. Essa é miséria, miséria, não adiantam interpretações”.
Como meu amigo B., me considero alguém que tem consciência social, criança eu já era assim, nasci com esse incômodo de ver tanta coisa errada. Porém, estou sempre em luta contra o meu pessimismo: sou uma pessimista mal-resolvida, e, como tal, fico perplexa com as injustiças, e às vezes desesperançada, mas preparo minha mesa de trabalho com serenidade para mais um dia e, se eu dissesse que me sinto explorada quando acontece de eu trabalhar para empresas pertencentes a pessoas ricas, estaria mentindo: eu que entro no meu escritório e já vou botando no difusor óleo essencial de lavanda. Como V,. procuro trazer a alegria para os meus dias.
V. foi para uma área que tem baixíssimo status social e, mesmo assim, ela se conecta com o que a atividade de diarista significa para ela. Vejo sua pré-disposição para o contentamento como uma força, que, aliás, me inspira.
O que acho forte em B. é que, mesmo ganhando mais e trabalhando menos que V., ele adoraria mudar o mundo. Não consegue e se ressente, e talvez isso seja uma fraqueza... Mas é uma fraqueza bonita essa, ressentir-se por não conseguir mudar o mundo.

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