Toda semana, eu publico uma análise da conjuntura focada no cenário eleitoral: a contagem regressiva para 4 de outubro de 2026.
A capa da Folha de S. Paulo de sexta-feira é bem significativa do cenário em que a campanha eleitoral se desenrola. A manchete focava em “Lulinha”, a alcunha que a imprensa corporativa inventou para Fábio Luís, filho do presidente. Um vazamento da Polícia Federal afirmava que ele tinha “comunhão de interesses econômicos” com a lobista Roberta Luchsinger. Fora a retórica, não existe nenhuma novidade no caso, nada que justifique uma manchete com este teor.
Logo abaixo, uma chamada de capa pequena dava conta que Flávio Bolsonaro considerava que a questão do dinheiro que recebeu do banqueiro Daniel Vorcaro já é “página virada”. Ele tem alguma razão ao falar isso: de fato, embora nada tenha sido esclarecido, o interesse da imprensa pelo caso minguou até quase desaparecer.
Há diferenças significativas entre os dois casos. Só um deles envolve um candidato presidencial, não seu filho, a amiga de seu filho ou um ex-assessor. Só um deles se refere a repasses de dinheiro que comprovadamente ocorreram, não a tratativas para conseguir contratos governamentais que acabaram não ocorrendo. Só um deles mereceu, do denunciado, sucessivas respostas que depois se comprovaram falsas e levaram a retificações.
Não resta dúvida de que as posições entre o caso Dark horse e o caso envolvendo Fábio Luís, na escala de prioridades da grande imprensa, estão invertidas. A noção tradicional de “valores-notícia” prioriza aquilo que envolve personagens mais importantes (um candidato à presidência), quantias mais elevadas (ao menos R$ 61 milhões para o suposto filme sobre Jair Bolsonaro), fatos efetivamente ocorridos, em vez de possibilidades que não se realizaram (como o lobby em favor da cannabis, que não deu certo).
Em suma: a cobertura não se explica por critérios jornalísticos, apenas por vazamentos de informações e levantamentos de sigilos que servem a determinados interesses, além do jogo político da própria imprensa.
Sim, num mundo ideal, o filho de um presidente da República, sobretudo um presidente de um partido que se diz dos trabalhadores, atuaria como o biólogo de formação que é, em vez de assumir a identidade nebulosa de “empresário” sem ramo definido. Ele também evitaria ser amigo de lobistas. Mas o fato é que, até agora, o que se tem de concreto contra Fábio Luís é muito pouco. Ao que parece, ele andou no fio da navalha no que diz respeito à moralidade, mas não infringiu a lei.
E é relevante que Lula, até o momento, tenha agido de forma a não perturbar as investigações, por mais que seu timing e seu andamento denunciem sua motivação eleitoral.
Têm razão aqueles que dizem que estamos vendo um processo semelhante ao da conspiração Lava Jato, de infausta memória. A “notícia” divulgada por Malu Gaspar, do jornal O Globo, também na sexta-feira, é bem ilustrativa. Fala no aluguel de uma casa em Brasília “usada por Lulinha”, que teria sido registrada em nome de um dentista “que foi testemunha no caso do sítio de Atibaia”. O fato, que os próprios denunciantes reconhecem, é que Fábio Luís visitava eventualmente a casa, algo como duas vezes por mês. Não dá para não sentir um aroma de “triplex do Guarujá” no caso.
A triangulação entre o comportamento do Poder Judiciário, agora na figura do ministro indicado por Bolsonaro, André Mendonça, os vazamentos seletivos da Polícia Federal e a cobertura da imprensa repete exatamente o padrão da Lava Jato.
A situação de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, é mais complicada, já que as transferências de dinheiro da lobista para ele são mais difíceis de explicar. Como falei outro dia, é maravilhoso esse mundo em que as elites política e econômica se encontram: nele, a generosidade impera e empréstimos de centenas de milhares, quando não de milhões de reais, são realizados sem qualquer documento, sem qualquer garantia, sem prazo para devolução, sem cobrança de juros.
Mas a imprensa força a mão. A relação entre Marcola e Roberta Luchsinger é sempre descrita como envolvendo “a amiga de Lulinha”. Então inventam um apelido para o filho do presidente, um apelido que só existe na imprensa, e depois aplicam esse apelido para identificar uma terceira pessoa, para garantir o maior desgaste na cobertura do caso.

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