Toda semana, eu publico uma análise da conjuntura focada no cenário eleitoral: a contagem regressiva para 4 de outubro de 2026.
Com as convenções partidárias em andamento, a campanha entra em sua reta final. Flávio foi o primeiro, com um evento que exibiu os problemas de sua candidatura.
Tarcísio esteve presente na convenção, mas seu partido não. No começo do ano, era considerado praticamente certo que as legendas do Centrão iriam apoiar a candidatura de Flávio. Com os rolos do filho primogênito, com o cenário se inclinando para uma possível reeleição de Lula, elas decidiram optar por uma conveniente neutralidade, que lhes garante ganhos eleitorais pelo Brasil afora, cada um dos seus apoiando quem lhe parecer conveniente, e um espaço no novo governo, qualquer que seja. É improvável que o quadro seja revertido. Para Flávio Bolsonaro, há perda de tempo de TV e, sobretudo, a indicação de que estes operadores políticos, sempre tão antenados, confiam pouco no sucesso de sua empreitada.
A madrasta também não ajudou. O vídeo de Michelle “perdoando” o enteado deu a esperança que ela aceitaria entrar na campanha, ainda que cobrando um preço alto, em termos de imagem pública e sabe-se lá mais o quê. Para a convenção do PL, porém, ela fez uma presença virtual em que se limitou a desejar “boa sorte” a Flávio. A interpretação mais razoável de “boa sorte” é “se vire”. O discurso não dá a menor indicação de que ela vai às ruas tentar ganhar votos para ele. Mesmo com cartinha de Jair e tudo, o front familiar ainda não está pacificado.
A presença de Milei pode ter animado a base mais militante, que se identifica com a verborragia extremista do presidente argentino, mas só reforça a impressão de que o clã Bolsonaro não liga para soberania nacional – um dos calcanhares de Aquiles de sua campanha.
Junto com o repeteco da conversa paterna com os embaixadores, desacreditando o processo eleitoral, a presença de Milei parece indicar que Flávio, neste momento, escolheu seu caminho, diante do eterno dilema que assola o seu grupo. A fim de reduzir as inquietações da Faria Lima (na verdade, um eufemismo, trata-se simplesmente de diminuir os custos de consciência do apoio deles), ele tenta projetar uma imagem mais moderada. Mas, se tem sucesso nisso, corre o risco de sofrer a desconfiança de sua base.
No momento, ele escolheu reforçar o discurso extremista.
O problema é espinhoso, para Flávio, porque ele sofre permanentemente com a pecha de frouxo. O primogênito de Jair protagonizou cenas constrangedoras, como o famoso desmaio no debate da TV, e, mais grave ainda, tem um histórico de lampejos de manifestações não digo de humanidade, mas de respeito às regras de civilidade. Lembram que ele teve que apagar uma mensagem de pêsames à família de Marielle Franco? Pois é.
Ele se esforça, mas fica claramente pouco à vontade no registro verbal que é esperado dos integrantes do seu clã. Parece que, para Flávio, ser um Bolsonaro é uma benção, evidentemente, pois sem o sobrenome não teria chegado sequer a síndico de seu prédio, muito menos a senador da República, mas também é uma cruz. Ele queria ser Ciro Nogueira, talvez nem isso, um parlamentar baixo clero do Centrão, que pudesse operar rachadinhas e fantásticas lojas de chocolates no seu canto, por baixo do radar da opinião pública. Com contatinhos na milícia, claro, porque um homem precisa proteger o seu butim. Mas nada mais do que isso.
A última pesquisa do Datafolha mostra que, mesmo com tudo que está acontecendo, o jogo eleitoral continua parado. Já estou cansado de apresentar minhas ressalvas às sondagens de intenção de voto, com seus problemas epistemológicos de fundo (além dos metodológicos, mais comezinhos). A meu ver, elas não acrescentam muita informação: podem apenas confirmar aquilo que nossa observação do cenário político já indicava. Quando não confirmam, em geral é melhor acreditar mais numa observação bem informada do que nos números delas.
Mas o cenário parado, que os números do Datafolha mostram, é condizente com a análise da conjuntura. É o caso impressionante de que, mesmo Flávio sendo Flávio, mesmo com sua desastrada intervenção no caso das tarifas dos Estados Unidos, mesmo com seus aliados pelo Brasil afora sendo expostos por operações da Polícia Federal, mesmo com seu envolvimento em tantos escândalos, mesmo com o conflito com Michelle, mesmo com tudo isso seus eleitores não arredam pé. Donald Trump falou celebremente que mesmo se ele fosse filmado matando uma pessoa na Quinta Avenida, seus eleitores não o abandonariam. Flávio está mostrando que isto vale para ele também.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.