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INÉDITA · Aug 20, 2026

A Austrália que ninguém me explicou

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Leticia Mello · INÉDITA

A Austrália é um país bastante caricato para o resto do mundo: animais perigosos, cangurus lutando, praias paradisíacas, pés descalços, surf e um restaurante americano temático que faz as pessoas acreditarem que cebola empanada é um clássico gastronômico daqui.

Isso me faz lembrar de uma época, pré-redes sociais e Copa do Mundo, em que o Brasil também era visto como um lugar exótico conhecido somente por estereótipos. A primeira vez que viajei para o exterior foi em 2006, quando trabalhei como salva-vidas em um parque aquático indoor em Wisconsin Dells, no interior dos Estados Unidos. A percepção das pessoas era limitada à Amazônia, Carnaval, futebol, prostituição e pobreza. Eu lembro de como nós, brasileiros, compartilhávamos uma frustração e até indignação com isso. É curioso pensar que hoje esse mesmo país está na moda e cada vez mais encontro gringos que sabem que nosso idioma é o Português, que temos grandes cidades e que somos uma nação de múltiplas etnias.

Hoje, nós fazemos a vez dos gringos quando olhamos para a Austrália sob uma perspectiva limitada. O isolamento geográfico e cultural é tamanho que, mesmo as viagens tendo se tornado mais acessíveis, seguimos ilhados com nossos cangurus e koalas de estimação. É difícil chegar aqui, no melhor dos cenários são 20 horas de viagem e um fuso oposto, mas também é desafiador se locomover internamente — tanto pela falta de opções e pelos preços altos quanto pelo tempo que precisa ser dedicado para cruzar essa vastidão territorial.

São poucas as pessoas que viajam para cá exclusivamente a passeio. O mais comum é conhecer alguém que veio para a Austrália como estudante ou com o visto de Working Holiday. Geralmente essa é a porta de entrada para uma possível imigração permanente. É grande o número de brasileiros que vêm para cá, ficam ou dão um jeito de retornar como residentes. A Austrália é fantástica e muito próspera, principalmente quando comparada com a realidade atual de outros países. Inflação, falta de moradia e restrições na imigração se tornaram desafios globais que também são uma questão por aqui. Ainda assim, segue sendo um lugar seguro, bonito, preservado, organizado e estável, como poucos lugares no mundo.

Quando trago minha opinião sobre a Austrália, existe uma intenção deliberada de analisar o meu entorno para além da minha experiência pessoal e de me inserir na sociedade em que estou vivendo. Tanto meu marido quanto eu partilhamos da ideia de que, se estamos nos beneficiando das vantagens de residir naquela nação, nós também temos a responsabilidade de contribuir para a sociedade da qual passamos a fazer parte. Também existe o desejo de compreender as dinâmicas sociais e de integrar elementos daquele novo universo. Não à toa, todos os lugares onde morei bastante tempo me transformaram profundamente, uma parte de mim é Nova Yorkina, outra das montanhas do Colorado e agora do deserto australiano.

Eu também tenho a tendência a observar as regras sociais que tomamos como automáticas, sem nos darmos conta da influência delas sobre nós. É claro que não existe uma verdade absoluta capaz de definir a experiência de todos como um todo. Essas dinâmicas também variam entre os estados, mas aqui estou olhando para a Austrália em sua dimensão nacional e para a percepção cultural que emerge desse conjunto.

Confesso que não trabalhar na Austrália dificulta essa leitura, então encontro formas de compensar essa falta de exposição. Uma delas é por meio do meu marido. Todos os dias, quando ele chega do trabalho, depois de ver cerca de 15 clientes, eu pergunto sobre eles. Muitos são quase como personagens que eu acompanho. Quero saber a opinião do policial que atende ocorrências inimagináveis na cidade mais perigosa do país e a da assistente social que trabalha em uma ONG. O que eu presencio é só uma parcela da realidade que forma meu ponto de vista, por isso tendo a olhar para as coisas por mais de uma perspectiva.

Outra forma de fazer isso é viajando. Sou muito grata por ter construído um estilo de vida que me possibilita explorar esse continente remoto, passando tempo em diferentes cidades e regiões, além de cruzar 3.000km como se nada fosse. Os housesittings me ajudam a entender a dinâmica das famílias, da comunicação e das percepções mais sutis. Mas a minha curiosidade é tamanha que todo ano eu acabo indo morar com uma pessoa desconhecida em algum lugar novo — geralmente australianos ou estrangeiros que já vivem aqui há muito tempo. Foi assim que acabei morando com uma jovem australiana em Hobart, com um casal em Darwin e com um solteirão dono de um bar em Byron Bay.

O meu trabalho também me coloca em contato direto com a realidade dos imigrantes brasileiros. Já fiz encontros e eventos em todas as capitais e, através deles, acompanho histórias e processos muito diferentes dos meus. Minha trajetória australiana foge um pouco da regra e, por isso, essas experiências me ajudam a ampliar a leitura para além daquilo que vivi.

De todos os lugares onde já morei, viajei e explorei com olhar atento, a Austrália tem sido o mais difícil de compreender. Existe um país à primeira vista e existe outro que acontece entre regras não ditas quando construímos uma vida adulta aqui. Uma coisa é chegar no Japão e entender logo de cara que a minha leitura cultural não funciona ali. A diferença é nítida em detalhes do cotidiano que observo a cada esquina. Como comem, se comunicam, celebram e se relacionam. Em contraponto, quando chegamos na Austrália, ela não só é extremamente agradável como também é tudo o que muitos de nós sonhamos um dia, o que traz uma sensação quase que imediata de familiaridade. Quem vai ter dificuldade de se adaptar a viver perto do mar, onde a qualidade de vida é valorizada e as pessoas são simpáticas?

Os brasileiros que imigram para cá geralmente estão em busca justamente daquilo que lhes falta no Brasil e encontram na Austrália. No entanto, o caminho até essa conquista raramente é fácil. Para muitos, serão necessários 5 a 10 anos de renúncias e trabalho árduo para conseguir se estabelecer e garantir uma residência permanente. Os custos com visto são altos, mas é o custo vital disso tudo que me chama a atenção.

Eu vi pessoas demais perderem seu brilho nessa jornada.

Frequentemente, a energia alta, o brilho no olho e a vontade de fazer acontecer vão sendo substituídos por uma apatia. O que não faz sentido nenhum do ponto de vista racional, afinal, se estou morando em um país que me dá tudo aquilo que me faltava — por que não estou feliz? Ou pior, por que sinto como se não houvesse mais vida pulsando em mim? Uma espécie de indiferença que se mistura com saudade de casa e crise existencial, que é melhor ignorar porque o aluguel precisa estar em dia no final de mais uma semana.

Eu faço um esforço constante para proteger a minha vitalidade e criatividade morando aqui. É quase como se houvesse uma força física real me puxando para baixo. Quem me acompanha há mais tempo sabe que fui embora de Sydney dizendo que a cidade me pedia para ser menos do que eu era. Eu usei exatamente essas palavras em um texto no Instagram para tentar explicar como me sentia, antes mesmo de ouvir falar da “Tall Poppy Syndrome”.

Imagine um campo de flores em que todas crescem na mesma altura. Se uma delas cresce mais do que as outras, ela é cortada para que o campo continue uniforme. Essa é a metáfora por trás da “Tall Poppy Syndrome”, um fenômeno cultural especialmente associado à Austrália e Nova Zelândia, no qual pessoas que se destacam são criticadas, silenciadas ou colocadas, de forma sutil, em seu lugar pelas pessoas ao seu redor. Um fenômeno similar acontece também em lugares como os países nórdicos e no Japão, recebendo nomes diferentes.

É bastante comum ouvir relatos de imigrantes que escolheram ser menos produtivos no trabalho para serem melhor aceitos por superiores e outros colegas. Para algumas pessoas isso chega em boa hora, como um respiro em meio a cobranças e alta performance. Para outras, no longo prazo, isso impacta a percepção que tem de si mesmas, à medida que deixam de se sentir úteis, desafiadas e reconhecidas — quase como se sua presença profissional fosse apagada.

No Brasil, se alguém te diminui ou reage mal ao seu sucesso, há várias linguagens disponíveis para interpretar isso. Chamamos de inveja, competição, recalque ou até arrogância. Sabemos dar nome ao que nos é conhecido culturalmente. Entretanto, quando isso acontece dentro de um contexto tão oposto ao nosso, sentimos como se existisse uma regra, mas não sabemos qual é. Percebemos que a quebramos, mas ninguém explica como. Sentimos uma reação do meio, mas ela chega em forma de silêncio. Inclusive, é como se o silêncio em torno desse pacto social fosse justamente o que a mantém funcionando. O igualitarismo australiano não está apenas nas relações profissionais, ele também aparece na maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras no dia a dia.

Nós, brasileiros, crescemos em um país desigual, com poucas oportunidades e muita competição, em uma realidade em que a nossa sobrevivência depende justamente de nos destacarmos dos demais. Crescemos aprendendo que, para conquistar espaço, é preciso mostrar serviço, fazer acontecer e encontrar uma maneira de se diferenciar.

Também crescemos sonhando com um país mais igual e justo, tendo países como a Austrália como referência para o que poderíamos ser. Certamente podemos ser melhores do que somos, mas acreditar que poderíamos ser uma Austrália é utopia — morreríamos de tédio, não há Brasil se não houver ginga. Como bem colocou Clarice nessa frase: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Um país igualitário como a Austrália não é perfeito, só tem problemas que nos parecem fáceis demais quando comparados aos problemas que deixamos para trás. É como ver um primo rico sofrer pela ausência de carinho dos pais e pensar que, se você tivesse o dinheiro dele, não sofreria por aquilo. Ou achar que se você tivesse a fama do seu artista favorito, seus problemas acabariam. Na prática, ser quem somos é uma dádiva e um castigo.

Se nos mudamos para a Austrália para nos beneficiar de um país estável, igualitário e seguro, isso significa que também precisamos lidar com as contrapartidas disso. Pessoas que são mais regradas, que buscam previsibilidade e conforto tendem a encontrar maior compatibilidade com o país. Por outro lado, pessoas criativas, artísticas e/ou empreendedoras podem encontrar mais dificuldade para se encaixar.

A Austrália segue sendo um mistério para mim em muitos sentidos. E talvez seja exatamente isso o que me motiva a estar aqui. Algumas das suas características me fazem muito bem. Outras entram em conflito com a minha essência. Se alguém me perguntar por que eu moro aqui, a resposta é simples: nesse momento da minha vida eu quero a segurança e as oportunidades que esse país tem a me oferecer, não porque desejo parar, mas porque quero garantir que eu possa seguir voando. A regra, seja ela dita ou não dita, vai sempre existir. Cabe a nós aprender a jogar o jogo sem esquecer por que decidimos entrar nele.

Read the original on leticiamello.substack.com

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