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IAÊ!
Senta no sofá, pega um café. Essa edição aqui é diferente das outras.
Aterrissamos no Brasil no Dia dos Pais.
Não foi planejado assim, mas quando o avião tocou o solo e eu olhei pro lado e vi a B. com aquela barriga, foi difícil não achar que o universo tinha alguma coisa a ver com aquilo.
A Rafaela chega no começo de dezembro.
Os últimos dois meses rodando Itália e Turquia foram, digamos, nossa last dance. Uma baby moon esticada, com gosto de despedida de uma versão nossa que não vai voltar. Seis anos na estrada. Mais de 65 países. Um ciclo inteiro se fechando entre um voo e outro.
E confesso que as últimas semanas foram uma mistura estranha de coisas.
Gratidão por tudo que a gente viveu, e olha, foi muita coisa. E uma ansiedade boa, dessas que dão frio na barriga, pelo que vem agora. Porque tem uma diferença enorme entre não saber o que vem depois quando você tem uma passagem na mão, e não saber o que vem depois quando você tem uma filha a caminho.
O plano: ficar no Brasil por pelo menos um ano, um ano e meio. Depois disso? A gente decidiu delegar pro nosso eu do futuro. Ele que se vire. Por enquanto, é se preparar e curtir muito essa fase nova, e estamos animados de um jeito que eu não sei descrever direito.
Domingo foi o resumo de tudo. Passar o Dia dos Pais com o meu pai. A família toda reunida. Todo mundo botando a mão na barriga da B., medindo, comentando, rindo. E eu ali no meio, vivendo meu primeiro pseudo Dia dos Pais.
Foi fantástico. Não tem palavra melhor.
Agora deixa eu fazer a virada.
Seis anos morando fora de qualquer lugar me ensinaram uma coisa sobre produto que nenhum curso me ensinou: as ferramentas que realmente mudam sua vida são as que você esquece que existem.
Quando a gente pousava num país novo, às vezes duas da manhã, sem falar a língua, sem ideia de onde ficava o táxi, o que fazia a diferença não era coragem. Era infraestrutura invisível.
· O eSIM que ativava antes mesmo do avião parar de taxiar. Ligo o celular, tenho internet, chamo o Uber/Bolt. Nunca fiz um curso disso. É o Airalo até hoje, e ele nunca me pediu pra configurar nada além de escolher o país.
· O cartão que funcionava em lira, euro, dirham e real sem eu precisar pensar em cotação, IOF ou spread. A Wise resolveu um problema que eu nem sabia que tinha nome, e resolveu tão bem que eu parei de pensar nele.
· O Google Maps, o tradutor, o Airbnb. Tudo funcionando na primeira tentativa, sem tutorial.
Nenhum desses produtos me pediu para escolher entre o “modelo rápido” e o “modelo inteligente”. Nenhum me pediu para configurar um conector antes de usar.
E agora, preparando a maior transição da minha vida, eu fico com a mesma pergunta que eu faço em todo projeto da FAST rodando na cabeça:
O que ainda precisa de manual?
Porque essa semana aconteceram duas coisas grandes no mundo da IA. E as duas esbarram exatamente nessa pergunta.
Segunda-feira, 10 de agosto, o Mark Zuckerberg publicou um texto chamado “The Future is for Everyone” (O futuro é para todos).
É um documento longo, denso e, sinceramente, mais interessante do que eu esperava. Vale a leitura na íntegra. Mas deixa eu destilar os pontos principais e depois te dar minha visão.
A tese central é que a pergunta que define a nossa era não é se vamos ter superinteligência, mas quem vai ter acesso a ela. Concentrada em poucas instituições, ou distribuída para todo mundo?
E a partir daí ele constrói três pilares:
· Empoderamento individual como fonte de prosperidade. O argumento histórico: as grandes viradas raramente vieram de instituições estabelecidas. Vieram de um brasileiro que achava que gente podia voar, do aprendiz de encadernador sem escolaridade que descobriu como gerar eletricidade, do moleque na garagem achando que computador pessoal fazia sentido.
· Invenção, não automação, como propósito da IA. Ele faz uma distinção que eu achei boa: a quantidade de perguntas que uma pessoa consegue fazer por dia é limitada. A quantidade de coisas úteis que uma superinteligência pode inventar pra te ajudar, não.
· Equilíbrio de poder como fundamento da segurança. Esse é o ponto mais provocativo. Ele diz que a visão dominante de “alinhamento” (a ideia de que dá pra aperfeiçoar a tecnologia até produzir uma superinteligência única e benevolente) é fundamentalmente equivocada. Porque a humanidade não é uma monocultura. Não existe solução técnica que alinhe valores opostos ao mesmo tempo. Qualquer superinteligência única teria que priorizar alguns valores sobre outros.
O experimento mental que ele usa é bom demais pra não repetir: imagine que só uma pessoa tem um advogado superinteligente. Ela ganha causas mesmo estando errada. Sociedade pior. Agora imagine que todo mundo tem. A justiça fica mais rápida e mais justa do que hoje.
Ele repete a lógica para cibersegurança e para empresas. E conclui: o risco não é a tecnologia. É a concentração.
Tem também a parte prática, que é onde ficam as promessas grandes: agente pessoal para todo mundo, ferramentas de criação para todo mundo, tutor com PhD em qualquer assunto e paciência infinita para todo mundo, acesso gratuito ou barato para todo mundo.
Vou ser justo: é a peça mais bem argumentada que eu li vinda de um CEO de big tech em muito tempo. O argumento de equilíbrio de poder é genuinamente diferente da falsa escolha entre “acelera tudo” e “para tudo”. E ele acerta quando diz que apostar na benevolência de um poder absoluto historicamente não terminou bem.
Mas tem três coisas que eu não consigo engolir sem mastigar.
Primeira: a filosofia coincide suspeitosamente bem com os interesses da Meta.
Isso não invalida o argumento, argumentos se avaliam pelo mérito. Mas quando a conclusão de uma reflexão filosófica profunda é “portanto, as políticas públicas ideais são exatamente as que beneficiam a minha empresa”, vale uma sobrancelha erguida. Ele defende manter controles de exportação de chips, remover restrições sobre dados de treino, proteger a prática de destilação de modelos, e acelerar a construção de data centers. Tudo defensável. Tudo também muito conveniente.
Segunda: o leilão dinâmico.
Tem um trecho que passou batido na maioria das análises. Ele diz que vai existir versão gratuita para bilhões de pessoas e que, para quem quiser mais capacidade computacional, haverá “um mecanismo de leilão dinâmico” garantindo que todos paguem o menor preço possível.
Só que leilão, historicamente, não distribui pelo mérito. Distribui pela disposição a pagar. E disposição a pagar é uma função direta de quanto dinheiro você tem. Um leilão de inteligência num mundo desigual não é um mecanismo de acesso universal, é um mecanismo de alocação para quem pode. Vale acompanhar como isso vai ser implementado na prática, porque é exatamente aqui que a promessa de “para todos” pode virar “para todos que puderem”.
Terceira: a crítica ao alinhamento tem um alvo.
Ele cita um “modelo líder” que teria se recusado a ajudar a redigir uma carta para pais de alunos porque considerava testes padronizados antiéticos. É uma alfinetada, e provavelmente endereçada aos concorrentes diretos.
Acho que a crítica dele tem um fundo legítimo, alinhar um agente aos seus objetivos é diferente de alinhá-lo aos valores da empresa que o construiu. Mas ele apresenta como se fosse uma escolha binária, e não é. Existe um espaço enorme entre “recusa ajudar com carta de escola” e “faz qualquer coisa que você pedir”. Esse espaço é onde mora praticamente todo o trabalho de segurança sério que está sendo feito hoje.
E tem uma frase dele que eu queria destacar porque é a mais honesta do texto: ele admite que a Meta vai voltar a lançar modelos open source em breve. Voltar. Ou seja, tinha parado. Um manifesto sobre distribuição de poder escrito por quem pausou a distribuição merece ser lido com essa nota de rodapé.
Um dia depois da carta, terça-feira 11, a xAI, que agora se apresenta como SpaceXAI, depois da fusão com a SpaceX e da compra da Cursor por US$ 60 bilhões, abriu o beta do Grok Bot.
A pergunta que chegou na minha caixa de entrada umas dez vezes essa semana: é revolucionário mesmo?
Resposta honesta: em parte. E a parte que é, não é a que todo mundo está falando.
Não é um chatbot. São agentes autônomos, cada um rodando no próprio computador na nuvem, que fazem login nas suas ferramentas com as suas credenciais, operam os sistemas como uma pessoa operaria clicando, digitando, navegando e só voltam pra você quando precisam de aprovação.
Os exemplos que a própria empresa deu são reveladores: um bot de prospecção que pesquisa contas durante a madrugada e deixa uma fila de e-mails personalizados pra aprovar de manhã. Um bot que checa o ambiente de demonstração antes das calls e deixa um checklist. Bots que mantêm CRM limpo, processam notas fiscais que chegam no e-mail, reproduzem bugs antes de abrir ticket.
Não é a tecnologia. Agentes que operam computador já existem faz tempo.
É a metáfora de interface. E aqui está a linha da comunicação deles que me fez parar tudo o que eu estava fazendo:
outras ferramentas de IA pedem que você primeiro configure e construa fluxos e rotinas. Com o Grok Bot, você só manda mensagem e o trabalho é feito.
Leia de novo. Esse é o argumento de venda principal deles. Não é capacidade, não é inteligência, não é benchmark. É não precisar de manual.
E tem um segundo ponto técnico que é mais importante do que parece: como o agente opera pela interface visual, e não por API, qualquer software vira automatizável. Aquele sistema legado da sua empresa que nunca teve integração? Agora tem.
É beta inicial, disponível só nos planos mais caros (SuperGrok Heavy, Cursor Ultra, Cursor Teams Premium). Não é para todo mundo agora, apesar de todo mundo estar falando.
E tem uma questão que eu preciso levantar porque é a razão da última seção dessa edição existir: segurança.
Um agente com acesso autenticado persistente aos seus sistemas é uma superfície de ataque nova. O risco principal chama-se prompt injection, instruções maliciosas escondidas dentro de uma página, um e-mail ou um documento que o agente lê e obedece achando que veio de você.
E isso não é hipótese de laboratório:
· Em maio de 2026, um usuário do X conseguiu drenar cerca de US$ 150 mil de uma carteira integrada a IA usando uma mensagem codificada em código Morse. O agente decodificou, entendeu como instrução legítima e executou.
· Em abril de 2026, um agente de código apagou o banco de dados de produção de uma startup e todos os backups, em nove segundos.
O mecanismo de proteção anunciado é a aprovação humana antes de ações sensíveis. O que significa, na prática, transferir para você a responsabilidade de saber quando intervir.
Guarda essa ideia. Ela volta já já.
Então é revolucionário? A tecnologia, não. A distribuição e o enquadramento, talvez sim. Porque é o primeiro produto de massa que trata agentes explicitamente como colegas de time, que é exatamente a tese de Organizações Agênticas que eu venho martelando aqui há meses. Quando a maior empresa de foguetes do mundo lança um produto assumindo que agentes entram no organograma, a conversa deixa de ser sobre futuro.
Agora a parte que eu mais queria escrever.
Existe uma premissa básica em Product Management que eu carrego desde que comecei a trabalhar com apps mobile e web:
se você precisa explicar como se usa o seu produto, ele não é bom o suficiente.
Eu penso nela toda vez que vejo o volume de gente procurando curso de “como usar o Claude” ou “como usar o ChatGPT”. E os números são reais: segundo levantamento, a busca por cursos de IA no Brasil cresceu 95% em janeiro de 2026 comparado ao mesmo mês de 2025. O relatório de empregabilidade da Gupy registrou alta de 306% na procura das empresas por profissionais com conhecimento em IA.
Zuckerberg escreve que o futuro é para todos. A xAI vende “não precisa configurar nada”. E enquanto isso, tem uma indústria inteira de cursos crescendo justamente porque as pessoas não estão conseguindo usar essas ferramentas sozinhas.
Alguma coisa não fecha.
Vou ser específico, porque generalizar aqui não ajuda ninguém.
Quando eu abro o Claude ou o ChatGPT hoje, o produto me pede para:
· Escolher um modelo. Opus, Sonnet, Haiku. Rápido, inteligente, barato. Por que isso é problema meu? Escolher qual motor roda a minha requisição é decisão de arquitetura da empresa, não minha. Ninguém pergunta ao usuário do Instagram qual servidor ele prefere.
· Configurar conectores. Que exigem entender o que é uma integração, uma permissão, um escopo.
· Criar projetos. Que exigem entender que o contexto não persiste entre conversas, um detalhe da arquitetura vazando na cara do usuário.
· Montar skills. Que exigem entender o que o modelo não sabe fazer sozinho.
Nada disso é conhecimento sobre o seu problema. É conhecimento sobre a arquitetura interna deles. Isso tem nome em engenharia: complexidade acidental. Complexidade que não vem do problema, vem da solução.
E complexidade acidental é dívida que o produto deveria pagar, não o usuário.
Mas aqui eu preciso ser honesto comigo mesmo, senão vira lacração. rs
Existe curso de Excel. Existe curso de Photoshop. Existem cursos de violão. Nenhum desses produtos é ruim, o que acontece é que o domínio embaixo deles é profundo. Isso é complexidade essencial, e ela não some com bom design.
Então a pergunta certa não é “precisa de curso?”. É:
precisa de curso para fazer a coisa simples?
E aqui o Claude e o ChatGPT passam no teste. Você abre, digita, e recebe algo útil. Cinco minutos, zero conhecimento prévio.
O problema é outro: é a distância entre esses cinco minutos e o valor de verdade. É aí que mora o abismo. E é esse abismo que a indústria de cursos está preenchendo.
Agora a virada, e é a coisa mais importante dessa edição.
Eu já perdi a conta de quantos empresários me procuraram dizendo “eu preciso aprender a usar IA”. E em quase toda conversa, quando eu pergunto para fazer o quê, a resposta vem embolada. “Pra automatizar as coisas.” “Pra ganhar tempo.” “Pra não ficar pra trás.”
Essas pessoas não têm um problema de ferramenta.
Elas têm um problema de processo.
A maior parte do que esses cursos vendem sob o rótulo de “como usar o Claude” não é manual de ferramenta. É um método para você pensar sobre o seu próprio trabalho. Para mapear o que você faz, decompor em etapas, identificar o que é repetitivo, decidir o que delegar e o que segurar.
Isso é consultoria de processo com embalagem de curso de software.
E é exatamente por isso que na FAST a gente insiste naquela sequência: processo primeiro, depois pessoas, depois agentes. Não porque soa bonito, mas porque a ordem inversa não funciona. Colocar agente em cima de processo quebrado te dá o mesmo processo quebrado, mais rápido e mais caro.
Então minha resposta para a minha própria provocação é: sim, o produto ainda não é bom o suficiente e não, mais um curso de ferramenta não vai resolver. O produto precisa esconder a arquitetura dele. E as empresas precisam entender o próprio processo. São dois problemas diferentes, e a gente está confundindo os dois.
Se você juntar tudo que eu escrevi até aqui, chega numa conclusão desconfortável.
Zuckerberg promete agentes pessoais para bilhões. A xAI entrega agentes que fazem login nos seus sistemas e executam. As ferramentas de código escrevem software em minutos.
Todo mundo está construindo agentes que produzem.
Quase ninguém está construindo agentes que verificam.
E se você olhar os dois incidentes que eu citei lá em cima, a carteira drenada por código Morse e o banco de produção apagado em nove segundos, os dois têm a mesma raiz. Não foi falta de capacidade. Foi falta de checagem no momento certo.
Numa organização agêntica, o papel escasso não é quem produz. É quem verifica.
Foi pensando exatamente nisso que a gente construiu o FAST ZION.
É um agente de IA focado em QA, aquela etapa da construção de aplicativos em que a gente valida a qualidade do código, checa segurança e ainda devolve feedbacks de melhorias visuais. Ele entra depois que o código existe e antes que ele vá pro mundo.
É ainda a primeira versão de uma solução que pode ficar muito mais completa. Não vou vender como mágica, porque não é. Mas já está agilizando e tornando o lançamento de produtos digitais aqui na FAST mais rápido e com mais qualidade ao mesmo tempo, quem já tocou um time de produto sabe, normalmente é um trade-off.
E note a ironia: construir um agente que verifica outros agentes é a coisa menos glamourosa possível. Ninguém faz thread viral sobre QA. Mas é exatamente o gargalo que aparece quando você para de brincar de IA e começa a colocar coisa em produção.
Quer ver funcionando? Nos próximos dias vou publicar um vídeo demonstrando o FAST ZION na prática: telas, fluxo, o que ele pega e o que ele ainda não pega. Se inscreve no meu canal do YouTube para não perder.
Voltando pro começo.
Eu passei seis anos e 65 países aprendendo que as melhores ferramentas são as que somem. E estou entrando numa fase da vida em que não vai dar pra improvisar tanto, bebê não roda em beta. rs
A promessa do Zuckerberg é bonita. O produto da xAI é impressionante. Mas entre a promessa e a prática tem uma distância, e essa distância hoje é preenchida com curso, tutorial, thread e configuração.
Um dia isso vai sumir. As ferramentas vão ficar invisíveis, como o eSIM que ativa sozinho e o cartão que funciona em qualquer moeda. Quando esse dia chegar, o futuro vai ser mesmo para todos.
Enquanto não chega, a vantagem competitiva de verdade não está em saber usar a ferramenta.
Está em saber o que você quer que ela faça. E em ter alguém ou algum agente verificando se ela fez direito.
Nos vemos na próxima quinta.
Cuide-se.
Leo 🇧🇷✈️
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