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Escritos do Leitor · Aug 6, 2026

como parar de performar a própria vida

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O leitor · Escritos do Leitor

Larguei as redes sociais faz um tempo e contei isso pra todo mundo. Já era pra eu ter percebido o problema ali, no contar pra todo mundo, mas demorou.

A ideia que eu vendia pra mim era limpa. Tinha saído do Instagram, tinha saído do circo, agora vivia de verdade sem ninguém olhando. Boa história. Tão boa que eu repeti ela bastante, pra conhecido, pra quem perguntava por que eu tinha sumido, e aqui mesmo, escrevendo, bem mais de uma vez. Pra quem mesmo eu estava contando que tinha parado de ligar pro que os outros achavam?

Tem um tipo de performance que sobrevive ao fim das redes. Ela troca de roupa. Você sai de uma plateia de seguidores e monta outra dentro da própria cabeça, e essa é pior, porque ela não dorme e não tem horário pra parar. Fica ali te assistindo fazer as coisas mais banais como se fossem cena de um filme sobre quem você decidiu ser.

Eu reparo isso em mim de um jeito que me dá vergonha. Quando preparo o café de manhã, com calma, no método lento, tem um pedaço de mim que está se vendo fazer aquilo. Fazer café é uma coisa. Se ver fazendo, achando bonito que você é o tipo de pessoa que faz café com calma, é outra. A distância entre as duas é fina e eu escorrego de uma pra outra o tempo todo sem perceber quando atravessei.

Quando sento pra ler um livro de papel numa tarde sem celular por perto, parte da cabeça fica narrando. Olha eu aqui, lendo, longe da tela, o homem que escapou. Aí a leitura vira prova de alguma coisa, e leitura que virou prova já não é bem leitura, é encenação de leitura, mesmo sem ninguém na sala.

Ninguém te conta isso quando manda você largar as redes. Falam como se o problema fosse o aplicativo e bastasse arrancar o aplicativo. Mas o aplicativo só deu palco maior pra uma coisa que já morava em você. A vontade de ser visto de um jeito certo, de mexer na imagem que os outros fazem de você antes que eles façam sozinhos. Tira o Instagram e ela não morre. Fica órfã de plateia um tempo e vai atrás de outra. Costuma achar você mesmo.

A câmera interna não é defeito de quem usa muito o celular. Ela estava lá antes do Instagram existir. O que muda quando você larga as redes é só o tamanho da plateia, não o fato de ter uma.

O Manual da Mente foi escrito pra entender esse tipo de coisa. Por que você faz o que faz mesmo quando ninguém está olhando, e o que isso diz sobre os mecanismos que te movem sem pedir licença.

Vou mais fundo numa parte que custa escrever.

Boa parte do que eu montei depois de sair da cidade tem uma história grudada por baixo, e eu não sei bem onde a vida acaba e a história começa. O cara que largou o ritmo doente da cidade grande, foi pro interior, vive simples, lê seus livros, cria suas galinhas. É bonita, essa história. Acredito nela na maioria dos dias. Mas tem dia que me pego desconfiando que estou vivendo a história em vez da vida, ajeitando a vida pra ela caber na história, escolhendo o que faço meio pelo que aquilo vai dizer de mim depois.

E tem uma camada que incomoda mais, que eu ponho aqui porque esconder seria meio sujo. Eu escrevo sobre essa vida simples. Tem gente que paga pra ler o que eu escrevo sobre ela. Então a simplicidade virou, também, parte do que põe comida na mesa, e isso embaralha tudo, porque agora encenar bem essa vida tem um lado confortável que eu não consigo fingir que não está lá. Não é mentira. A vida é real, as galinhas estão no quintal, eu durmo bem à noite. Só que existe um interesse em contar essa história direito, e interesse suja, mesmo de quem é honesto. Talvez suje mais quem se acha honesto.

Você pode perguntar, com razão, se tem saída disso. Se dá pra fazer alguma coisa sem essa câmera ligada por dentro. Não tenho resposta limpa, e quem tem resposta limpa pra isso eu desconfio.

O mais longe que cheguei foi reparar que tem hora que a câmera some, e essas horas se parecem entre si. Nunca são as horas bonitas. Ela liga no café fotogênico e some quando eu estou enfiado num buraco atrás de cano furado embaixo do mato, xingando, com lama até o cotovelo. Liga na leitura da tarde mansa e some no meio de um pensamento mesquinho meu sobre alguém. O que não rende imagem ela deixa passar. Pode ser que seja só nesses pedaços que não dariam foto que eu esteja de fato inteiro ali.

Isso me leva a uma suspeita que ainda estou mastigando. A vida sem encenação é a vida feia, a que você não mostraria nem se pudesse. É o cano, a lama, o pensamento ruim, a tarde em que nada acontece e não rende frase nenhuma. Aprender a morar nessa parte, sem precisar transformar ela em história depois, deve ser das coisas mais difíceis que existem. Mais difícil que apagar um aplicativo, com certeza.

Não vou fingir que cheguei lá. Estou escrevendo isto pra um monte de gente ler, o que já é uma forma de subir no palco. A câmera está ligada agora. Eu sei que está. No máximo aprendi a notar a luz vermelha quando ela acende, e notar está longe de desligar. Mas é mais do que eu tinha.

Acho que é mais ou menos só isso que dá pra fazer. Continuar performando, porque talvez não dê pra parar quando te criaram dentro disso, e ao mesmo tempo ir perdendo a fé de que o sujeito que aparece filmado é o verdadeiro. O do café bonito e o da lama no cotovelo são o mesmo cara. E esse segundo, que ninguém ia querer ver, é provavelmente o que mais se parece comigo.

— O Leitor ♟️

Read the original on leitorps.substack.com

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