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Escritos do Leitor · Jul 12, 2026

a arte perdida de ficar entediado

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O leitor · Escritos do Leitor

Comecei esse texto em março. Escrevi um terço, travei, deixei numa pasta, voltei semanas depois, cortei quase tudo e recomecei. Ficou pronto agora, e ficou longo, o mais longo que publiquei por aqui em muito tempo. É denso, do tipo que não funciona lido por cima. Se você estiver com pressa, salva e volta depois. Foi escrito devagar, ao longo de meses, e se der, leia devagar também.

Existia um tipo de tédio na minha infância que eu consigo lembrar com o corpo. Tarde de domingo na casa da minha avó, os adultos dormindo depois do almoço, nenhuma criança da minha idade por perto, uma televisão com dois canais que não pegavam direito. Eu ficava deitado no chão frio da sala olhando pro teto, ouvindo o ventilador, e o tempo não passava. Não passava de um jeito que doía. Eu tinha a tarde inteira pela frente e nada pra fazer com ela.

E aí, em algum ponto daquela tarde, alguma coisa virava. A cabeça, sem ter o que consumir, começava a produzir. Eu inventava um jogo com as coisas da sala. Ficava imaginando histórias compridas que continuavam de um domingo pro outro. Pensava em assuntos que uma criança não tem com quem conversar. O tédio doía primeiro e rendia depois, sempre nessa ordem, e eu não sabia na época que essa ordem era a parte importante. Esse tédio não existe mais. Faz anos que eu não vejo uma pessoa entediada.

Repara: ninguém mais espera nada olhando pro nada. A fila anda com todo mundo de cabeça baixa. A sala de espera do médico é uma fileira de gente rolando tela. O semáforo fecha e os pescoços descem. Cada intervalo do dia, por menor que seja, foi preenchido trinta segundos de elevador incluídos. O tédio foi extinto do cotidiano como se extingue uma praga, e ninguém fez velório porque ninguém gostava dele.

Só que isso não aconteceu por acaso, e essa parte importa. O tédio não morreu de morte natural. Ele foi caçado. Cada segundo de atenção vazia é um segundo que vale dinheiro pra alguém, e existe uma indústria inteira, das maiores que já existiram, trabalhando pra que nenhum desses segundos escape. O vazio virou desperdício comercial. Sua espera na fila do banco é estoque não vendido.

A extinção foi tão completa que a palavra mudou de sentido sem a gente notar. Hoje quando alguém diz que está entediado, quase sempre quer dizer que o estímulo disponível não está bom o suficiente, que a série está fraca, que o feed está repetitivo. Ninguém mais quer dizer o que a palavra queria dizer no chão da sala da minha avó, que era a ausência completa de estímulo, o tempo nu, sem nada entre você e ele.

Eu trabalho numa biblioteca, e a biblioteca é um posto de observação que pouca gente tem.

De vez em quando entra uma mãe com um filho pequeno. Ela vai resolver alguma coisa no balcão, procurar um livro, e a criança fica ali, no espaço mais silencioso da cidade, cercada de estante. Eu cronometro por curiosidade, sem maldade. A criança aguenta em média uns três ou quatro minutos. Depois disso começa a inquietação, o puxão na roupa da mãe, e a frase que eu já ouvi tantas vezes que poderia gravar: tô entediado. E a mãe, no reflexo de quem só quer resolver o que veio resolver, entrega o celular. A criança senta no canto e some de lá. O corpo fica, o resto vai embora.

Não estou julgando a mãe. Ela está cansada, precisa de dez minutos, e o aparelho compra esses dez minutos com uma eficiência que nenhuma outra ferramenta na história da criação de filhos jamais teve. Julgar é fácil e inútil. O que me interessa é outra coisa, é fazer a conta do que essa criança não vai ter.

Ela não vai ter as tardes de domingo. Nenhuma. A geração dela é a primeira da história humana que pode atravessar a infância inteira sem experimentar dez minutos seguidos de tédio verdadeiro, porque a saída de emergência está sempre no bolso de algum adulto por perto. E se o tédio era um treino, e eu acho que era, essa é a primeira geração que vai chegar na vida adulta sem ter feito o treino uma única vez. A gente ainda não sabe o que isso produz. Essas crianças são o experimento, e o resultado sai em vinte anos.

Eu pelo menos tive o chão da sala. Perdi a capacidade depois, mas tive, e o que se teve uma vez se recupera com menos esforço do que se constrói do zero. É a diferença entre reaprender a nadar e nunca ter entrado na água.

Num texto que publiquei aqui um tempo atrás, sobre sair da vida extremamente online, eu citei de memória uma frase que eu não sabia de quem era. Escrevi algo como: não há uma frase sobre isso, sobre como todos os problemas do homem vêm de sua incapacidade de sentar quieto num quarto sozinho? Publiquei assim mesmo, com a pergunta no lugar da fonte.

Depois fui atrás. A frase é de Pascal, um matemático francês do século dezessete que largou a ciência pra escrever sobre a condição humana e morreu antes de terminar, deixando o livro em fragmentos. Os Pensamentos. E o que eu encontrei quando fui ler foi bem mais do que a frase.

Pascal tinha uma teoria pra explicar por que a gente não consegue parar. Ele chamava de divertimento, mas no sentido de desvio, de virar o rosto. A ideia dele é que o ser humano busca distração o tempo inteiro não porque a distração seja boa, mas sim porque parar é insuportável. Parado, em silêncio, sem nada, o homem encara as perguntas que passa a vida inteira evitando. Que ele vai morrer. Que é pequeno. Que boa parte do que faz não tem o sentido que ele finge que tem. O barulho existe pra abafar isso.

Ele dá um exemplo que eu nunca mais esqueci. O homem que passa o dia caçando uma lebre não compraria aquela lebre no mercado. A lebre não vale nada. O que ele quer é a caça, a ocupação, porque enquanto persegue a lebre ele não pensa na própria morte. A presa é a desculpa e a fuga é o produto.

E ele vai mais longe. Diz que até o rei, o homem que tem tudo, precisa ser cercado de gente cujo trabalho é distraí-lo, porque um rei sozinho num quarto, sem divertimento, desaba no mesmo lugar que qualquer súdito. O poder não protege do vazio. Nada protege. Pascal olhava pro jogador de cartas e dizia: dá a esse homem, toda manhã, o dinheiro que ele poderia ganhar jogando durante o dia, com a condição de que ele não jogue, e você o deixa infeliz. Ele não quer o dinheiro. Quer o jogo. Quer a agitação que impede o pensamento de chegar onde o pensamento sempre tenta chegar.

Pascal escreveu isso há quase quatrocentos anos, quando a distração disponível era caça, jogo e conversa. Ele achava que já era demais. Não viu o que estava por vir. A gente pegou o divertimento dele e industrializou, miniaturizou, colocou no bolso de cada pessoa viva um dispositivo que oferece fuga infinita e disponível em qualquer intervalo de três segundos. Se ele tinha razão sobre o homem do século dezessete, que precisava organizar uma caçada inteira pra fugir de si mesmo, imagina sobre nós, que fugimos com um gesto de polegar.

Um filósofo mais recente, o Byung-Chul Han, escreveu que essa hiperatividade toda tem cara de vitalidade mas é uma forma de exaustão, e que junto com a tolerância ao tédio a gente foi perdendo a capacidade de atenção funda, aquela de ficar muito tempo dentro de uma coisa só. Eu leio isso e penso nas tardes no chão da sala. O que parecia tempo perdido era um treino que ninguém sabia que era treino.

Aqui preciso separar uma coisa, porque descobri na prática que existe tédio e existe tédio, e confundir os dois foi o que me fez quase desistir. Existe o tédio raso. É o da fila, do semáforo ou da sala de espera. Ele é superficial, incômodo do jeito que uma coceira é incômoda, e passa rápido se você aguentar. É esse que a gente mata no celular cem vezes por dia. Matar ele parece inofensivo porque ele parece não valer nada.

E existe um outro, mais embaixo, que só aparece se você atravessar o raso sem fugir. Esse é mais raro e mais estranho. Ele chega depois de um tempo maior de vazio, meia hora, uma hora, uma tarde, e tem outra qualidade, um silêncio que desce mais fundo, meio desconfortável de um jeito que se torna peso. É nesse segundo tédio que as coisas acontecem. É dele que Pascal tinha medo e é nele que o pensamento de verdade mora. O problema é que ninguém chega nele, porque o raso funciona como porteiro, e a gente mata o porteiro na entrada, cem vezes por dia, sem saber que tinha um prédio atrás dele.

Toda vez que você pega o celular na fila, você não está perdendo aqueles trinta segundos. Está impedindo que os trinta segundos um dia virem a meia hora. O músculo que aguenta o tédio fundo é o mesmo que se treina no raso, e você desiste do treino sempre na primeira série.

Aqui está o centro do texto, a parte que me fez demorar meses.

O tédio era o intervalo onde a cabeça digeria o que tinha vivido. Pensamento de verdade quase nunca acontece durante o estímulo. Acontece depois, no vazio entre uma coisa e outra, quando não tem nada novo entrando e a mente finalmente processa o que já entrou. É por isso que as melhores ideias aparecem no banho. Não tem mistério nenhum no banho, ele é só um dos últimos lugares da vida moderna onde você fica sozinho com a cabeça por dez minutos sem tela por perto. A ideia não nasce ali. Ela nasceu antes, em algum momento, e estava esperando um vazio pra conseguir subir.

Quando você elimina todos os vazios, as coisas continuam entrando e nada mais assenta. Você lê, assiste, escuta, consome o dia inteiro, e tem a sensação estranha de não reter quase nada, de que passou tudo por você sem virar seu. Passou mesmo. Reter exige pausa, e pausa foi o que você cortou.

E não é só ideia que precisa do vazio. Sentimento também. Existe uma digestão emocional que só acontece no tempo parado, aquela hora em que você fica à toa e um assunto mal resolvido sobe sozinho, uma conversa de semanas atrás, uma tristeza que você não tinha sentido direito porque não deu tempo. Isso subir é desagradável, e é exatamente por ser desagradável que a fuga funciona tão bem. Cada vez que a coisa começa a subir, a mão vai pro bolso, e ela desce de volta. Não desaparece. Desce e espera. Quem nunca fica entediado não resolve menos coisa por dentro, só acumula, e o estoque do não-sentido vai crescendo em silêncio, cobrando juros que aparecem depois com outros nomes.

Tem uma consequência dessa extinção que eu vejo do balcão da biblioteca melhor do que de qualquer outro lugar, e que quase ninguém liga uma coisa na outra.

As pessoas pararam de conseguir ler romance longo. Não pararam de querer. Elas pegam o livro, levam, e devolvem semanas depois com o marcador na página sessenta. Eu vejo os marcadores. Sei exatamente onde cada livro grande costuma ser abandonado, e o padrão se repete com uma precisão que chega a ser triste.

E eu entendo o mecanismo por dentro, porque passei por ele. Um romance grande, um Dostoiévski, um Tolstói, não é bom o tempo inteiro. Ele tem capítulos lentos, tem cinquenta páginas de descrição que parecem não levar a lugar nenhum, tem personagens que demoram cem páginas pra importar. Ler um livro desses exige atravessar trechos genuinamente entediantes confiando que o livro sabe o que está fazendo. As pessoas de antes atravessavam porque tinham o músculo, treinado nas tardes vazias. A gente perdeu o músculo e agora sente o trecho lento como defeito do livro, e abandona, e vai pro conteúdo que promete não ter trecho lento nenhum, e que por isso mesmo não constrói nada, porque as duzentas páginas lentas eram a fundação do capítulo que te desmonta na página quatrocentos.

O tédio dentro do livro é o mesmo tédio de fora dele. Quem não aguenta um, não aguenta o outro. E aí a pessoa diz que perdeu o hábito da leitura, quando o que perdeu foi outra coisa, mais embaixo, da qual a leitura era só um dos sintomas.

Comecei a tentar recuperar isso há uns dois anos, sem método, só decidindo que ia ficar parado sem nada em alguns momentos do dia, as primeiras tentativas foram quase cômicas de tão ruins. Sentava na varanda sem celular e em noventa segundos o corpo inteiro reclamava, uma agitação física mesmo, perna balançando, a mão indo pro bolso sozinha, procurando um aparelho que eu tinha deixado dentro de casa de propósito. Eu achava que ia encontrar paz e encontrei abstinência.

E quando a agitação finalmente baixava, o que subia não era paz também. Era a fila. Todo o estoque de coisa adiada que eu vinha empurrando pra baixo com estímulo, anos daquilo, começou a aparecer na ordem que quis. Assunto que eu tinha decidido não pensar. Gente que eu devia ter procurado. O tédio não me entregou as ideias criativas primeiro. Me entregou primeiro a papelada atrasada, e eu entendi que tinha que passar por ela pra chegar no resto. Demorou. Teve fase em que eu quase desisti porque parecia que ficar parado só piorava as coisas. Não piorava. Só mostrava o tamanho do acúmulo.

Morar no interior ajudou de um jeito que eu não tinha previsto. Aqui o ambiente conspira menos contra o vazio. Tem menos estímulo disponível no ar, menos coisa acontecendo pra onde olhar. O tédio fica mais ao alcance da mão, quase oferecido. Na cidade você precisa construir o vazio contra tudo. Aqui você só precisa não fugir dele, o que já é difícil o bastante.

Do outro lado disso, e eu levei meses pra atravessar, o tédio voltou a render como rendia nas tardes de domingo. Hoje é de onde sai boa parte do que eu escrevo. Esse texto inteiro nasceu numa espera de quarenta minutos numa oficina, sem celular, olhando um calendário de parede de dois anos atrás.

Não vou te vender um programa (um livro, talvez). Tédio não precisa de aplicativo, de técnica, de meta, e transformar ele em mais um projeto de autodesenvolvimento é matar a coisa pela segunda vez. O que eu posso dizer é o que funcionou comigo, e é pouco, e é lento:

  • Começa com doses pequenas. Uma fila sem pegar o celular. Um semáforo. A sala de espera. Três minutos parado é o suficiente no início, e vai parecer muito mais.

  • Espera a primeira onda passar. Os primeiros minutos são os piores, a agitação sobe, o corpo reclama, e quase todo mundo desiste aí achando que “não funciona”. A onda sobe e assenta. Saber disso de antemão muda tudo.

  • Uma tarefa manual por dia em silêncio. Lavar a louça sem nenhum estímulo. Varrer sem música. A mão ocupada segura o corpo no lugar enquanto a cabeça vagueia, e é das formas mais fáceis de vazio que existem.

  • Chega cedo de propósito em algum compromisso e não preenche a espera. Parece perda de tempo. É o contrário exato disso.

  • Quando o desconforto subir, dá nome pra ele antes de fugir. Só notar: isso é a coceira, isso é o porteiro. Na maioria das vezes nomear já segura a mão que ia pro bolso.

  • E não mede. Sem contar dias, sem registrar progresso, sem transformar em desempenho. No dia em que o tédio virar meta, ele virou outra coisa.

Uma última honestidade: eu ainda pego o celular em fila às vezes. Ainda fujo. A diferença é que agora existe uma escolha onde antes existia só um reflexo, e num dia bom eu escolho ficar, e a tarde rende de um jeito que lembra o chão da sala da minha avó, guardadas as proporções de um adulto que já não tem tardes infinitas.

O tédio era a antessala de tudo que eu tenho de melhor. Passei vinte anos fechando a porta dela sem saber o que estava fechando.

Esse reflexo de fugir do desconforto no automático, a mão indo pro bolso antes de você decidir, é um dos padrões que eu destrincho em O Manual da Mente. Tem outros que operam do mesmo jeito. A culpa que fica presa no peito por dias sem que ninguém precise te acusar. O "eu sou assim" que serve pra fechar o assunto com você mesmo quando alguém aponta algo que você já sabia.

São 152 páginas com exercícios pra reconhecer esses mecanismos por dentro e ir desmontando devagar, sem promessa milagrosa. Se esse texto mexeu com alguma coisa, é por lá que eu continuaria.

O Manual da mente

— O Leitor ♟️

Read the original on leitorps.substack.com

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