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Newsletter Lasciva · Mar 22, 2026

A sorte de amar uma mulher

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Lua Menezes · Newsletter Lasciva

Já faz tempo que quero escrever sobre Marjorie. E já faz tempo que resisto. Não porque não queira gritar nosso amor pro mundo (é político amar uma mulher em voz alta), e sim porque, depois do meu último término, fiquei mais ressabiada de expor assuntos do coração na terra sem lei que é a internet. Ao mesmo tempo, é da minha anatomia compartilhar - como diria Drummond, meu coração não é maior do que o mundo, preciso de todos.

Na última newsletter, esbocei um inventário da minha busca por amor -romântico, pra ser mais específica. Dediquei boa parte da minha vida a ela. E podemos problematizar o fenômeno, muito bem analisado por diversas feministas, de como mulheres são incentivadas a fazer dessa busca seu projeto de vida (Valeska Zanello corre aqui). Eu, alecrim dourado, certamente não escapei disso.

Mas isso não é tudo. O meu interesse pelo amor não vem ~apenas~ do projeto patriarcal que empurra mulheres à procura desesperada de validação num mundo que nos diz que não temos valor. Minha busca por amor é, como pressupõe bell hooks, também uma busca espiritual. Isso não se revela apenas nas minhas relações íntimas, como também no meu trabalho: uso palavras pra fazer amor e amo ferozmente as mulheres. Faço desse amor uma causa.

É tanto que, quando meu coração está especialmente expansivo, tenho um sentimento transbordante de que sou capaz de amar todas as mulheres do mundo (se eu pensar em uma ou outra estrupícia de internet que ensina mulheres a serem submissas, esse sentimento rapidamente se desfaz).

Isso tudo pra dizer que acredito no amor acima de todas as coisas. Mas estou divagando. Volto pra Marjorie e pra surpresa que foi encontrar o que procurava justamente quando não estava procurando.

Não bastasse esse assombro, houve outro: o de, encontrando-a, encontrar a mim. A primeira lição que tive com ela foi de autonomia: pra me dar pra ela, eu tinha que ser minha. Naquele momento, muito bem instalada num relacionamento heterossexual com um homem que até então julgava perfeito, isso significou expressar exatamente o que queria e mais: sustentar o desejo, ainda que desagradasse, ainda que machucasse, ainda que desobedecesse o roteiro convencional.

A verdade é que, pra amar uma mulher, é preciso desobedecer. E isso também vale pra os homens. Pra que um homem ame verdadeiramente uma mulher, é preciso que ele desobedeça as lições do machismo e da misoginia que anestesiam e sufocam seu órgão de amar.

A primeira vez que uma das minhas melhores amigas me viu com Marjorie, ela disse, abismada: nunca te vi assim. Assim como?, perguntei. Extática, ela falou. Ela me conhece há sete anos. Minha mãe, que me conhece a vida toda, me vendo com Marjorie, cutucou meu irmão e sussurrou: nunca vi tua irmã desse jeito. Que jeito?, ele perguntou. Boba, ela respondeu.

Quando expliquei pra minha mãe que não tinha me dado conta de quanto fui perdendo partes de mim no meu antigo relacionamento, que foi lento, gradual, e nada violento, mas que com Marjorie me sentia me reaproximando de quem sempre fui, ela disse: você está recolhendo os ossos.

No clássico Mulheres que correm com os lobos, a psicóloga Clarissa Pinkola Estés conta a lenda de La Loba: a mulher que vaga pelo deserto recolhendo ossos perdidos. Quando finalmente reconstitui um esqueleto inteiro, ela canta e dança na frente de uma fogueira e assim o esqueleto ganha vida. Ele se transforma num lobo que se transforma numa mulher que corre finalmente viva - e livre.

Não acho irônico que, me apaixonando por uma mulher, eu tenha chegado mais perto de mim mesma. Nem todo mundo tem essa sorte, a de ser apaixonar por uma mulher que seja outra. Mas toda mulher pode aprender a recuperar as partes negadas, rejeitadas, perdidas. As partes que acreditamos não ser boas ou dignas o suficiente. Esse é um trabalho árduo, que nos confronta com muita coisa, mas é através deles que aprendemos a amar a nós mesmas.

Não de um jeito neoliberal-narcisista-individualista-egocentrado, não essa besteira de se amar em primeiro lugar ou acima de todos. Eu gostaria de me amar como amo outras pessoas: meu coração é mais generoso com elas. Ainda sou carrasca comigo, ainda rejeito a criança assustada que me habita, ainda me falo num tom que não falo com mais ninguém.

É aqui que entra essa coisa bonita que é a possibilidade da gente se curar amando. Marjorie celebrou partes potentes de mim que não estavam sendo celebradas e acolheu outras, vulneráveis e pequenas, que eu mesma ainda não sabia (não sei) bem acolher. Não é sua obrigação, mas é um presente que ela me dá. Ela me ensina pelo exemplo como é me amar.

Pra muitas mulheres, amor próprio é um mistério. E aí vem o discurso neoliberal e diz que se amar é comprar isso ou aquilo, cortar uma pessoa ou outra, e outras medidas mais ou menos superficiais. Acho que o buraco é mais embaixo. E que, por mais que seja um trabalho individual, é algo que aprendemos no coletivo. Isso de se amar primeiro, acima ou sozinha - que conselho besta.

A gente aprende a amar amando.

Ps.: como a internet é terra fértil de idealizações, quero dizer que não estou falando de que temos um relacionamento perfeito, que nunca tivemos atritos, que nunca nos machucamos. Estou falando que estamos aprendendo a amar. E sim, minhas amigas, meus irmãos, minha mãe, meus cachorros, também me ensinam, mas são nas relações românticas que nossas feridas de apego primevas aparecem. Pra quem tiver interesse no assunto, sugiro dar uma lida sobre Teoria do Apego.

- Raiva e amor, dois lados de uma mesma moeda?

Quem acompanha essa Newsletter sabe da minha peleja com redes sociais. Fiz uma longa pausa por motivos de exaustão e agora finalmente voltei. Olhando os vídeos que gravei até agora, reparei que todos foram movidos pela raiva. Não me surpreende, tenho motivos. Refletindo sobre o lugar da raiva no meu corpo e na vida das mulheres, entendi que ela é o outro lado da moeda do amor. Amo ferozmente mulheres e tenho raiva quando somos machucadas. E você?

- Sugestão lasciva

Se você se interessa por amor, você precisa ler bell hooks. E olha, não sou fã de imperativos, evito a todo custo. Mas certos imperativos são amorosos. Esse é um deles. Comunhão é a sugestão de hoje.

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