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Newsletter Lasciva · Jul 7, 2026

A arte de desagradar

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Lua Menezes · Newsletter Lasciva

Na semana passada, postei um vídeo que levantou uma polêmica antiga (que jamais imaginei que viraria polêmica) - o término do meu antigo relacionamento. Na época, eu fui bombardeada de perguntas, mensagens e comentários, alguns respeitosos, sabendo equilibrar curiosidade e gentileza, mas outros tantos bastante invasivos, hostis e acusatórios.

Algumas pessoas assumiram que eu era a vilã, criaram histórias inteiras a partir de fragmentos, e muitas bradaram que eu devia explicação - ver uma mulher vivendo sem pedir permissão ou dar satisfação é incômodo, eu sei.

Entendo a curiosidade, é claro, e não me senti invadida por quem soube como perguntar, mas muitas não perguntaram, e sim demandaram, vexaram, ameaçaram (ainda que a ameaça fosse pequena, isto é, “vou deixar de seguir”, é uma ameaça que insinua abandono, ostracismo, isolamento).

Comentários agressivos, nada novo sob o sol, sempre recebi - sou uma mulher falando de sexo e feminismo na internet. Mas esse nível de invasão pessoal foi inédito. Eu já vinha com conflitos bem entranhados com o Instagram, a cobrança de produzir no ritmo do algoritmo, a frustração de produzir e não entregar, a ansiedade de tudo isso. Me sentir invadida foi a gota d’água.

Aos poucos, fui falando menos, aparecendo menos, acabei ficando 6 meses sem postar nada. Nesse meio tempo, vivi muito, escrevi meu segundo livro e fui feliz com as minhas escolhas. Quando voltei pra o online, voltei medindo as palavras e sem falar muito de mim. Quando certos comentários ressurgiram no vídeo recente, percebi o movimento que fiz e mais: percebi que, na tentativa de me proteger, fiquei com medo de me mostrar.

Sim, há sabedoria em proteger nossa privacidade e há uma discussão interessante sobre como lidamos com a exposição nas redes. Mas entendi que caí na armadilha: desobedeci o roteiro tradicional, fui julgada por isso, me resguardei. Não parei de desobedecer, mas ao me resguardar, resguardei também a minha desobediência, e isso serve para a manutenção do sistema.

Afinal, a desobediência feminina é contagiosa.

Há muitas discussões dentro dessa: o dilema entre exposição e privacidade, desagrado e punição, desejo e consentimento. Elaboro:

  1. Sempre soube que a exposição tem sua beleza, ela cria conexão - é quando revelamos nossa humanidade que encontramos a humanidade do outro. Mas a humanidade nem sempre é doce - a exposição tem riscos. Me sinto agora numa corda bamba, sem saber quanto quero me expor, quanto preciso me proteger.

  2. Somos ensinadas que desobedecer, desagradar, sair da linha é perigoso - no céu e na terra, os castigos são severos. E não só tememos a punição, como aprendemos a punir (a nós mesmas e as outras). Há um gozo perverso nisso - se sou eu punindo, não sou eu sendo punida. Para mulheres, desagradar é uma arte - algo que exige prática e disciplina. Sustentar o desconforto de desagradar é libertador.

  3. Ser uma pessoa “pública”, como muitas fizeram questão de me dizer que eu era, não significa que meu corpo é público ou que minha vida é. Se escolhi e consenti em falar de aspectos íntimos antes, não significa que aceitei e consenti em falar sempre ou no tempo de quem quer ouvir. O desejo (de saber, de ter, de possuir) pode até ser compreensível, mas o consentimento é sempre revogável e o “não” deve ser respeitado.

Refletindo sobre tudo isso, penso que quero, sim, aperfeiçoar a arte de desagradar. Quero voltar a falar mais na primeira pessoa, me dar a conhecer de novo - afinal sou outra e sou mais eu.

Esse texto é isso: uma forma de recuperar a primeira pessoa, de dizer que não quero deixar de me conectar e de agradecer a todas que perceberam o absurdo de certas cobranças e me deram a graça de ir vivendo, mudando, gozando das minhas escolhas - inclusive as que desagradam.

Perceba: dar a graça não é o mesmo que dar permissão. Nem eu nem você precisamos da permissão de ninguém pra escolher como viver a nossa própria vida.

Mas é bom não estar sozinha. Por isso, obrigada. Amo vocês.

Não vejo a hora de encontrar vocês em carne e osso.

Em Natal, vou dar a palestra A revolução do prazer feminino no dia 17 de julho e você já pode garantir seu ingresso aqui.

Logo depois sigo pra São Paulo e Rio de Janeiro, onde nosso bate-papo acontece com a presença ilustre da sexóloga Pam Ribeiro e da educadora sexual Clariana Leal. Não precisa adquirir ingresso, mas é bom chegar cedo pra garantir lugar.

Eu tinha dito que não ia fazer esse ano, porém… sigo lendo livros incríveis de mulheres inteligentíssimas e aí não tem jeito, preciso dividir.

Mas dessa vez vai ser diferente. No começo do ano, fiz um encontro on-line e vocês me disseram que queriam mais espaços como aquele - pra pertencer elaborar experiências, não se sentir só. Por isso, dessa vez não vai ser mais que um clube de leitura.

Em breve solto mais informações.

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Read the original on lascivalua.substack.com

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