Quando eu era criança, queria ser muitas coisas. Astronauta, numa época em que adorava olhar as estrelas no quintal. Professora, quando peguei mania de ensinar meus bichinhos de pelúcia. Atriz, quando me enveredei pelas aulas de teatro da escola. Mas, antes de tudo, e acima de tudo, escritora.
Me lembro de entregar meus cadernos repletos de histórias, com uma capa pintada a lápis na primeira página, e dizer pra minha mãe, “escrevi um livro”. Ela lia e comemorava e, sempre que alguém perguntava, dizia que eu seria escritora. Foi sonho dela tanto quanto o meu por muitos anos, um segredo nada secreto partilhado entre as duas pessoas que amavam o faz de conta mais do que a vida real. Era motivo de orgulho, de inspiração, de aplausos.
Pelo menos enquanto eu era criança.
Isso aí não vai dar em nada. Você precisa fazer alguma coisa da vida.
Quando eu tinha 17 anos, decidi que ia elevar o meu sonho a outro nível. Eu queria ser a autora mais jovem a atingir uma lista de best-sellers, veja só. Em 2009, juntei todas as minhas mesadas acumuladas em anos de avareza e nenhuma vida social para investir na publicação independente do meu primeiro livro e começar a de fato correr atrás da construção da minha tão sonhada carreira.
Foi mais ou menos aí que escritora passou de profissão a termo derrogatório. Não exatamente um desgosto, mas não mais algo a ser incentivado. Eu estava ficando adulta. Precisava ser alguém na vida e esse alguém não podia ser artista. Arte não é trabalho. Eu precisava de um trabalho.
Entre a pressão interna e a cobrança dos meus pais, internalizei nos anos seguintes que eu precisava de mais do que um sustento. Eu precisava ser alguém. E, pra ser alguém, eu precisava de trabalho, trabalho de verdade, enquanto a escrita, um hobby glamurizado, não se transformava nessa ocupação em tempo integral que finalmente pagaria as minhas contas e ganharia o respeito da minha família. Eu precisava fazer mais.
Então eu estudei. Aceitei empregos que pagavam mal e outros que me custaram a saúde mental para sanar a saúde financeira. Peguei freelas e bicos, ocupei todas as horas livres do dia, e o que sobrava eu dedicava a esse hobby que tinha cada vez menos cara de hobby. Afinal, como eu poderia chamar de passatempo as horas em pé tentando vender livros em eventos, as noites acordada escrevendo ou revisando textos, a incessante criatividade para transformar ideias em conteúdo e conteúdo em divulgação, os cursos para aperfeiçoamento, as lágrimas? Não tinha nada de hobby nisso, mas ainda não era trabalho. Trabalho é o que paga as contas, e, no máximo, a escrita me dava era mais contas para pagar.
E nesse tempo todo eu esperava e torcia e tentava e rezava para que um dia a escrita fosse mesmo o meu trabalho. Que eu pudesse dizer que sou escritora, e não escritora mas, nem escritora e coisa alguma. Escritora e ponto, de boletos pagos, de peito aberto, sem vergonha nenhuma de assumir o posto.
Mas, assim como a aprovação dos meus pais, esse dia também nunca veio e, na demora, comecei a me ressentir dessa carreira que eu não me orgulhava em chamar de carreira porque não tinha essa cara de algo real, algo que me dava sustento de verdade, como se trabalho só pudesse ser chamado assim se fosse algo único e isolado que preenchesse e resolvesse todos os problemas da nossa vida.
Ando tentando ressignificar esse ofício que é tanto da minha vida e foi também considerado tão pouco dela. Tenho tentado me reencontrar na paz de classificar como trabalho para dar a importância que merece, mas também lembrando de trazer leveza para que eu não me perca em um mar de obrigações. Amanhã é dia do trabalhador e, em meio a todas as profissões que exerço, todos os pequenos trabalhos que me sustentam das mais diversas formas, às vezes sinto que não faço o suficiente, que nada nunca basta. Talvez porque, como meus pais sempre insistiram, eu não sinta que faço algo da vida, embora faça muitas coisas. Sinto que não sou ninguém, não ainda, não nunca.
Mas eu não sou o meu trabalho e meu trabalho não deveria ser a minha vida inteira. Mesmo quando esse trabalho é escrever.
Com amor,
Larissa
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