Eu esqueci que faz tempo que não escrevo nada. Faz mais de um mês desde que dei notícias. Às vezes, esqueço que sei escrever; me engano pensando que as palavras são minhas inimigas, ou que não tenho mais nada a dizer. Mas sei da verdade.
A verdade é que tem um monstro atrás da porta e eu não sei se estou pronta pra enfrenta-lo.
Esse monstro tem garras e dentes afiados. Ele me atrai com suas promessas fáceis de alívio, mas toda vez que me aproximo, sinto dele o odor fétido dos meus piores anseios. Esse monstro, que não me visitava há cinco anos, há um mês não me deixa ir embora. Não atravesso a porta para desafia-lo, mas tampouco passo a chave para deixa-lo lá dentro. É que ele não está lá, não de fato.
Ele está em mim. Nas noites em claro, nos pensamentos intrusivos, nas lágrimas que me ocorrem no meio do dia quando me pergunto quanto tempo ainda tenho. Ele me rasga no meio de dentro para fora, me silenciando todos os dias porque ele sabe, ele sabe o quanto vai me custar lutar contra ele.
Há onze anos, quando nos encontramos pela primeira vez, fiz de suas tripas o meu coração; sai daquele cemitério com a alma em frangalhos, mas as palavras na ponta da língua, decidida a colocar para fora suas peles antes que elas me sufocassem por dentro.
Há cinco anos, ele derrubou a porta de novo e levou consigo tudo que eu tinha de bom para oferecer. Reencontrei aquelas frases, que já pareciam perder o sentido, e quis dar a elas um novo abrigo, uma nova voz, dizer a elas que eu entendia agora, de um jeito como jamais achei que conseguiria entender.
E agora… agora o monstro apenas me encara. Ele sabe que eu sei. Sabe que eu sei que ele me consumirá se eu permitir, mas me devorará se eu fingir que não o vejo. Ele sabe que não precisa vir até mim: eu irei até ele de bom grado, como fui duas vezes antes, no momento em que, no escuro dos meus próprios pensamentos, eu me permitir baixar a guarda para sentir.
Eu não quero mais sentir.
Então fecho o arquivo e ignoro o anseio. Finjo que não ouço os rosnados e as vozes que se acumulam na minha garganta. Amasso o papel, jogo fora a vontade. Fecho os olhos e danço na beira do abismo, temendo o momento inevitável em que vou precisar sentar ali e encarar o monstro, a morte e o luto outra vez.
Fico calada, porque esse é o problema de escrever com o coração: eu só falo quando dói.
Com amor,
Larissa
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