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Larissa’s Substack · May 20, 2026

Anos de cachorro || News da Lari #78

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Larissa Siriani · Larissa’s Substack

Ontem minha mãe me ligou no meio da tarde, coisa que quase nunca faz. Eu sabia que não seriam notícias boas só de olhar pra ela. Cristal, nossa cachorrinha mais velha, havia falecido naquela manhã.

Chorei, e ainda agora choro, como se tivesse perdido um membro da família — o que, à sua própria maneira, é verdade. Cristal esteve comigo durante toda a minha vida adulta. Viu meus amores e meus dissabores, me fez companhia em horas de trabalho e me consolou em momentos difíceis. Em muitos aspectos, fez mais por mim do que muitas pessoas da família. Sua partida não é só a perda de um bichinho; é a perda de um pedaço da minha vida que dediquei a amá-la.

Enquanto recupero memórias e passeio pelas fotos que marcam a vida da minha companheira de quatro patas, me pego às vezes pensando no quão curta e longa é a vida ao mesmo tempo. Estamos todos aqui por um tempo emprestado, uma contagem finita de dias que pode ser maior ou menor a depender da sorte de cada um, mas que é sempre pouco. Pouco demais para ver tudo que queremos ver, saber tudo que queremos aprender, amar tudo que podemos amar. Ainda que a gente viva intensamente todo dia, o tempo nunca é suficiente. É tudo rápido demais.

Ao mesmo tempo, nenhuma vida acaba realmente quando chega ao fim. A gente não existe só nesse plano físico do aqui e agora, mas também no metafísico que se manifesta no amor e nas memórias. Lembro daqueles que já perdi não como partes distantes do passado, mas como presentes diários dos meus hábitos, dos meus gostos, daquilo que me forma como pessoa. Quem se vai leva um pedaço meu, mas também deixa comigo partes de si. Sou um caleidoscópio de fragmentos emprestados daqueles que amei e que me amaram de volta, sentindo-os comigo ainda que não estejam mais aqui.

Dia desses li que a beleza só existe porque é finita. A vida só é bela porque acaba, o verão só é bom porque logo chega o inverno. Não entendi na hora, mas agora me vejo obrigada a concordar. O existir é mais bonito quando o aproveitamos na certeza de que ele também se findará. Admiro as flores porque são raras e a vida porque é curta. Vivo o agora porque o amanhã não é garantido. Amo em tempo presente porque no futuro posso amar só uma lembrança. Estamos todos contando o tempo em anos de cachorro, sempre mais curtos do que desejamos, mas eternos enquanto duram.

Com amor,

Larissa

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