Eu acho muito interessante o contraste evidente entre estes dois Arcanos. Ambos representam o número 3; porém, as especificidades de seus naipes muda tudo.
O Arcano de número 3 representando pelo naipe de Espadas significa que deu ruim, gente. Chore, limpe as feridas e repense suas metas. Já o número 3 do naipe de Copas representa a celebração de uma alegria alcançada: deu bom (deu muito bom!), bora comemorar!
Como é que pode uma disparidade dessas?
Penso que a chave para a interpretação das diferenças é voltarmos a atenção novamente para o número das cartas: o Três é terreno de expansão — mas este crescimento depende dos outros. O número Três está além da iniciativa individual dos Ases, e transcende a dualidade dos pares das cartas de número Dois.
O número Três acontece de forma coletiva: seja trabalhando em conjunto (Três de Ouros), inspirando pessoas (Três de Paus) ou celebrando com as pessoas que amamos (Três de Copas).
Por sua vez, o naipe de Espadas não se adequa muito a essa vibe de comunidade bem integrada. As lâminas de Espadas cortam, segregam, separam as partes em pedaços. Comunhão, colaboração, reunião de interesses? Já viu alguém carregando uma arma letal disposto a resolver diferenças dando espaço para todas as partes se manifestarem?
Quem carrega Espada ORDENA — de cima para baixo. Talvez, por isso, o naipe de Espadas não alcance o mesmo significado benéfico no número Três que os demais elementos atingem. De todos os naipes, Espadas é o mais intransigente, e apresenta rigidez em manter suas próprias ideias, custe o que custar. Por isso, quando chega num número colaborativo, encontra sua queda.
Dito isto, vamos esmiuçar as especificidades dos naipes de Espadas e Copas manifestadas nas cartas de número Três:
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Querendo voar, fabriquei minhas próprias asas. Confiei na minha capacidade e usei o que pude: depenei pássaros, colhi cera de abelhas, montei a estrutura em arame. Não tendo asas reais, forjei-as. Deus não dá asas a humanos — foi o que me alertaram. Como não acredito em instâncias divinas, isso de nada me importava; confiava que o intelecto e a astúcia me bastariam para realizar a vontade de alcançar o céu. Eu queria o impossível. Vestido de minha geringonça alada, me lancei ao ar.
Sequer me importei com as condições do tempo para executar minha empreitada. Na ocasião, chovia e ventava muito. Não havia uma fresta de luz em todo o horizonte. Apesar da péssima paisagem, insisti no plano de voar. A minha habilidade em manter o vôo logo provou-se frágil; foi duro, duríssimo perceber-me nem tão poderoso assim. O ar, essa fronteira invisível que me atravessa, frio e impassível, me lançou para o abismo. Caí.
Senti-me traído (apesar de todos os sinais de alerta?). Um corpo que cai é um corpo desamparado. Decepção, tristeza, dor. Impossibilidade de avanço — apenas queda. Coração partido em pedaços. Ferida no ego. E pássaros amargos que voam em torno de mim como que grasnando “EU AVISEI”.
Triste fim sem retorno, resultado do meu erro: meu corpo inerte estendido no chão.
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Eu tenho um certo fascínio com o mito da queda de Ícaro. Já é a segunda vez que uso essa referência numa carta de baralho (a primeira vez foi no Baralho ORÁCULO) e cheguei a questionar a repetição do tema neste Tarot. Enfim, relevei. Essa história é maravilhosa!
O mito de Ícaro, pra mim, resume lindamente o fracasso de alguém que peca pelo exagero de confiança em suas próprias habilidades: a pessoa é tomada pela arrogância, crendo-se superior ao que de fato é. Ícaro usa asas fabricadas para fugir do labirinto de Creta com a ajuda de seu pai, Dédalo. Ao voar, se encanta com a habilidade sobre-humana (porém, temporária e com sérias limitações). Ignora os alertas do pai e crê que pode alcançar vôos mais altos, quiçá alcançar o SOL (expectativas humildes as do rapaz…). Sua ambição desmedida é o caminho de sua ruína: a cera que unia as penas derrete com o calor do Sol, as asas se desfazem, e Ícaro cai em direção a sua morte.
Incluí na minha carta a presença de três corvos, sugerindo que as espadas são lançadas por eles. Os pássaros, aqui, são os mensageiros do infortúnio — e observam o personagem caindo em sofrimento, sem demonstrar nenhuma compaixão. Afinal, estamos falando do Naipe de Espadas: quem você pensa que é para querer voar como nós, humano?
Decidi incluir o coração partido (literalmente, em pedaços) na minha arte, pois é uma referência ao coração ferido do Três de Espadas desenhado pela Pamela Colman Smith, uma interpretação gráfica do Arcano que se tornou uma das mais populares e repetidas entre os baralhos de Tarot — e que, por sua vez, se inspirou no desenho de um deck ainda mais antigo, o Sola Busca Tarot:
O significado da carta é triste e bem duro de viver na vida real; contudo, enquanto ilustradora, foi uma das cartas que mais gostei de recriar neste projeto até agora :)
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Alegria que transborda de taça em taça. Felicidade compartilhada e multiplicada entre os nossos mais amados; vamos celebrar! É dia de festa, de música e dança. Pode chamar seus amigos: nessa farra sempre cabe mais um.
O Três de Copas realiza o sonho há muito desejado — e que delícia é desfrutá-lo! É a cura de qualquer transtorno, a resolução de um problema, o fim de um tormento. É o emprego novo tão almejado, o amor conquistado, o filho desejado. As três taças despejam fé na vida e otimismo naqueles que compartilham de sua festa.
O Arcano é propício a farturas de todos os tipos: sensações à flor da pele, sorte grande nos projetos, alianças benéficas, afetos abundantes e grande fertilidade. A vontade é de aproveitar as benesses em comunhão com os outros. A partilha vira carnaval.
Por estar cercado de prazeres, o Três de Copas não se preocupa com moderação. A vida é curta e o que nos interessa é que estamos felizes AGORA. Dia lindo, bebida no copo, purpurina no corpo e confete no ar. A ressaca? Deixa pra amanhã!
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Aqui no Brasil temos uma referência que resume perfeitamente o espírito do Três de Copas: o Carnaval!
Imagine uma festa que, de tão abundante, dure vários dias. É uma verdadeira farra envolvendo muitas pessoas, muitas cores e muita bebida (e outras substâncias…). Purpurina, faz-de-conta, adereços e sedução: pessoas fantasiadas, mas também muita pele à mostra. E peles bonitas! O naipe de copas seduz; lembrem-se disso. Muitos flertes, beijos e pegação — envolvendo duas ou várias pessoas ;-)
Sim, gente: o Três de Copas pode simbolizar um belo trisal. Ou até um surubão. Tudo depende do contexto, da pergunta e da posição da carta no jogo.
O Três de Copas é uma carta muito feliz… para quem está vivendo o Arcano. Por outro lado, para quem pergunta Fulano está com saudades de mim? e sai um Três de Copas, olha… Fulano está curtindo a vida, felicíssimo, dançando, gingando e se roçando… a carta é feliz para Fulano, e talvez não tanto para o consulente que fez esta pergunta. Contexto é fundamental.
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Quando comecei a ilustrar o meu Tarot, em Abril de 2024, eu já sabia que seria um projeto longo e demorado.
Uma forma de viabilizar financeiramente a criação deste baralho de Tarot é vender as prints que produzo das cartas ilustradas que venho divulgando por aqui.
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Obrigada por me ler até aqui!
bjo bjo,
lari.
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