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marolinhas · Jul 23, 2025

Quatro de Ouros e Quatro de Paus

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Lari Arantes · marolinhas

Na última newsletter, adentramos o terreno do número IV, representado pelo arcano do Imperador. O quatro instaura uma profunda estabilidade que, de tão sólida, pode virar estagnação. A solidez, assim como o cubo que a representa, tem várias faces; e cada elemento do tarot a manifesta de uma forma muito própria.

O elemento Terra, representado pelo Naipe de Ouros, já é, por si só, o mais fixo e estável de todo o baralho. Terra não se movimenta sozinha; imagine sob a influência do parado número quatro? Já o elemento Fogo, representado pelo Naipe de Paus, é extremamente volátil — podendo se manifestar na violência de uma explosão ou ser extinto repentinamente por um sopro de vela. Por isso, pode ser muito benéfico para o Fogo alcançar tamanha estabilidade.

Tendo em vista as diferenças substanciais entre os dois elementos, podemos prever que a estabilidade da Terra e a estabilidade do Fogo terão interpretações muito distintas.

Vamos ver como isso se desenrola?

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Quatro de Ouros: retenção de recursos para si mesmo.

Desconfiada de tudo e de todos, não baixo a guarda, não dou bobeira: minha segurança vem em primeiro lugar. MEU espaço, MINHAS regras, MEUS recursos, MEUS tesouros. Tudo isso é enterrado como quatro moedas de ouro embaixo da terra.

Braços cruzados, boca cerrada: ensimesmada, te analiso de canto de olho. Calculo as probabilidades de forma pessimista e decido que não vale a pena arriscar.

No Quatro de Ouros seguramos o que temos com mãos avaras: não partilhamos nosso tempo, nossa energia, nossos recursos materiais nem emocionais com os outros. Retemos tudo para nós mesmos, nos fechando para a generosidade e, consequentemente, para as oportunidades de expansão.

Neste Arcano, acreditamos que temos pouco quando, na verdade, temos o suficiente. Somos possessivos, ciumentos, mesquinhos. Esta carta é uma das manifestações do egoísmo: Não ajudo, não cedo, não abro espaços; não invisto, não me movimento, não partilho.

Se não aposto, não corro o risco de perder. Também não ganho nada; fico polindo teimosamente meus metais antigos. As mesmas moedas de sempre correm o risco de enferrujar, de tão paradas. No Quatro de Ouros, o medo de perder é tanto que o sovina perde de vista os ganhos da liberdade: um coelho enjaulado não foge, é verdade — mas também não se encontra com outros pares, não procria, não se multiplica. Fica parado do jeito que está.

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Quatro de Paus: a estabilidade alcançada nos laços.

Na estabilidade do Fogo, celebramos a sorte de um amor tranquilo. Cheiro de pão caseiro, recém saído do forno. Um café com leite para acompanhar? Aceito: cafuné, prosa com minha companhia e um cachorro carinhoso enrodilhado no meu pé. Estamos bem nutridos, no quentinho do nosso lar. Da porta para fora, não temos controle de nada — intempéries, crise econômica, competitividade hostil. Da porta para dentro, temos a chave: nos escolhemos, nos protegemos, nos amamos. Em nossa casa, podemos descansar tranquilos.

Aqui, família é aquela que escolhemos e que nos faz bem. Os acordos são estabelecidos e cumpridos entre as partes, garantindo a harmonia do grupo. Partilhamos esforços e benefícios. Todos saem ganhando.

As dificuldades da rotina são facilmente contornadas com trabalho, boa vontade e ajuda mútua. O Quatro de Paus não é sobre perfeição; é sobre estarmos genuinamente dispostos a construir juntos.

A intimidade do lar é como um ninho, mas não se fecha em si mesmo: somos abertos, calorosos e hospitaleiros. No sofá tem espaço pra mais um; botamos água no feijão se precisar.

Celebramos nosso vínculo, festejamos com os nossos. Há certidões e papéis assinados, sem perder de vista o principal: afeto e respeito mútuo, com solidez a longo prazo.

Quatro bastões se unem numa única chama estável, confiante, duradoura. A mesma chama que acalenta o lar é a que cozinha o alimento. O fogo protegido por Héstia é o que garante o conforto em nosso espaço mais íntimo. Sob a guarda da deusa, nossa vida doméstica pode florescer em paz.

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Ficar parado no mesmo lugar é necessariamente ruim? Rotina é sempre chato? Dá pra construir algo a longo prazo sem alguma repetição?

O conceito de estabilidade tem muitas nuances. Por um lado, representa segurança, continuidade dos planos e previsibilidade; por outro, pode escalonar para rigidez, conservadorismo, estagnação. Um sujeito excessivamente tomado pela necessidade de estabilidade é um cara chato pra caramba. Não se reinventa, não arrisca, mantém tudo como está. Contudo, é inviável ser um adulto minimamente funcional sem assumir qualquer engajamento com a ordem estabelecida coletivamente.

Estabilidade requer algum compromisso — com uma meta, com uma parceria, com um trabalho. E é na sustentação da repetição que o compromisso é realizado, um dia após o outro. Não tem jeito, meus amores: a rotina é parte importante deste cálculo.

Em tempos de incerteza e ansiedade, desejamos alcançar a tão sonhada estabilidade; essa busca não é isenta de algumas armadilhas. Quando nos apegamos tanto à nossa zona de conforto ao ponto de nos enclausurarmos dentro dela, o que era lar vira gaiola de ouro.

No Naipe de Ouros, cuja característica mais marcante é sua solidez, sua tendência natural é levada a extremos pelo número Quatro. Eis a rigidez da rigidez: o que já era parado se endurece ainda mais. Não há frestas, não há alternativas, não há concessões. Não saímos da toca, evitando enfrentar o inimigo — esta grande entidade que abarca tudo aquilo que desconhecemos. Como uma matéria impermeável, nos trancamos para as influências do outro.

Solidez não precisa ser sinônimo de engessamento completo. A criação de hábitos é uma forma de interiorizar constância sem necessariamente enrijecer a vida. Um pouco de droga, um pouco de salada. Isto o Naipe de Paus, tão criativo e amante de uma ousadia, saberá ensinar quando manifestado no número da estabilidade. Equilibrar pratos no cotidiano é saber manter a continuidade dos planos e acordos sem perder o gingado, o carinho e a flexibilidade para lidar com os imprevistos naturais da vida.

No Naipe de Ouros, a estabilidade é ânsia individual: a relação estável é alvo de ciúmes, o planejamento financeiro justifica comportamentos mesquinhos, a rotina vira obsessão. Por sua vez, no Naipe de Paus, a estabilidade é desejo compartilhado. A relação estável é construída em comum acordo, o planejamento financeiro se fortalece através da colaboração e a rotina é nutrida pelos pequenos gestos de carinho.

A verdadeira estabilidade, talvez, seja menos sobre se esforçar em manter tudo igual e mais sobre ter firmeza o suficiente para acolher o movimento. Manter a chama acesa requer jeitinho.

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Obrigada por me ler até aqui!
bjo bjo,
lari.

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