Oi, pessoal! Como estão?
Nesta newsletter trago duas cartas não muito agradáveis para pessoas que, como eu, gostam de uma ação, um acontecimento, qualquer coisa se mexendo. Nem só de atitudes se forma um baralho de Tarot; é preciso ter cartas “paradonas” pra dar conta de todo espectro possível de vivências. Às vezes, nada acontece.
Se o assunto é sobre frustração dos desejos ou se trata de uma parada obrigatória para recuperação de forças, o Elemento da carta é quem irá dizer. Esse marasmo se manifesta de formas diferentes (e por motivos também bastante distintos) no Naipe de Copas e no Naipe de Espadas.
Pegue seu banquinho e tenha paciência com esses dois Arcanos.
✤ ✤ ✤
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou; e agora, José? Fazer o quê com essas quatro taças? Não suporto mais beber nem me apetece mais seu gosto. A ressaca vem vindo, aquela dor de cabeça incômoda já dá sinais de vida; azia, má digestão e o mau-humor que vem junto do cansaço. A conta dos excessos da noite anterior chegou.
Aquele que você beijou, na luz do dia seguinte, não lhe parece mais tão bonito assim. Dá até um nojinho só de lembrar. As fantasias da festa estão gastas, a maquiagem borrada, um gosto azedo se acumula no canto da boca. A casa está suja — preguiça imensa de limpar. Louça acumulada na pia, água parada num aquário sem filtro. O limo surge pegajoso pelas frestas do tédio do dia que se arrastará. Longa e maçante espera — à espera de quê exatamente, não se sabe.
Não ter o que se deseja, nem saber ao certo o que é, afinal, aquilo que se quer. Uma olhadinha nas redes sociais vira uma tarde inteira perdida em scrolling sem sentido. Eterna insatisfação. Mas a preguiça que dá é terrível! Me afundo em águas de procrastinação. Desânimo, sem saco para nada. Não vi, não gostei, não me interessa. Estou num dia daqueles, perdido, insosso. Nada me motiva; o jeito é deixar o marasmo passar.
✤
Se tem algum poema mais Quatro de Copas do que José, de Carlos Drummond de Andrade, eu desconheço:
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...Mas você não morre,
você é duro, José!Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Mentira, tem sim. Ou, pelo menos, tanto quanto. Veja este insatisfeito e queixoso Quatro de Copas no poema-música composto pelo Antônio Cícero e cantado pela sua irmã, Marina lima:
Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento
(…)
Era fácil
Nem dá pra esquecer
Aí e eu nem sabia
Como era feliz de ter você
(…)
Um longe um do outro
Morrendo de tédio e de ciúmes.
Experimente ouvir essa música numa noite de sábado depois que o crush te deu um perdido, nenhum amigo está disponível, o serviço de streaming caiu e você ficou sem nada pra fazer em casa. Te garanto que você vai compreender um Quatro de Copas perfeitamente.
✤ ✤ ✤
Pousar as lâminas, descansar os músculos, parar as máquinas. Exausta, entro num período de reclusão por tempo indeterminado. Desligo o telefone, abandono batalhas, fecho as cortinas, tranco a porta da casa, luzes apagadas. Repouso total.
Me retiro do mundo até a poeira baixar, até meu corpo se recuperar. Há descansos forçados pela saúde que vacila. A internação compulsória, a pane no sistema, o burnout depois dos excessos. Período de convalescência. Clínica de detox. Cama de hospital.
A mente inquieta não aguenta mais pensar. É preciso meditar — pousar o olhar num ponto fixo e esvaziar os conceitos, as memórias, os julgamentos. Faxina mental pesada à base de cloro ativo derramado nas dobras do cérebro. Água sanitária para retirar as cores. Apagar os verbos. Deletar arquivos. Sobretudo, silenciar. O branco é a soma ou a ausência de tudo?
Existe uma paz na morte, a tranquilidade da não-ação. Nada irá sair do lugar. Imobilidade profunda, sem surpresas, sem sustos, sem novidades. O que é morto já está definido pelo que foi. Escrito em pedra, tão imóvel quanto esta rocha elementar.
✤
Se o Dois de Espadas falava de uma trégua temporária sustentada em desconforto, o Quatro de Espadas é a retirada total do conflito. Nesta carta, quem antes lutava (ou agia, argumentava, raciocinava) abandona as armas MESMO. É o descanso da guerreira — seja ele planejado ou forçado por motivos maiores.
O Quatro de Espadas nega ações, evoluções, diálogos, avanços. É a imobilização total, a greve geral, a via interditada, a perna engessada.
No melhor dos casos, é passar a tarde em casa estourando plástico bolha.
✤ ✤ ✤
Pessoal, queria finalizar esta newsletter agradecendo os leitores que contribuíram com um item da lista de enxoval do meu bebê ♡ recebemos várias coisas que serão muito, muito úteis! A lista anterior deu um pau tremendo no meio do caminho, mas eu e meu marido conseguimos recolocá-la de volta ao ar.
O link novo, para quem quiser e puder contribuir com algo, é este aqui:
(e se der pau novamente neste link, alguém me avisa? kkkry)
Nesta lista tem desde algodãozinho pra limpar bumbum de bebê até o clássico pacote de fraldas. Qualquer ajuda é uma ajuda.
A experiência de estar grávida tem sido uma viagem e tanto. Não tenho escrito muito sobre ela, nem sei se interessa a quem me acompanha. Antes de ser mãe, sou artista e falo sobre símbolos e oráculos — e são estes assuntos que despertaram o interesse de quem me lê em me acompanhar por aqui. Mas é inevitável dizer que me tornar mãe é um atravessamento e tanto. Por isso, aproveito pra perguntar: alguém teria interesse em receber textos especificamente sobre isso? Porque assunto é o que não falta.
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Sigo compartilhando este conteúdo de forma totalmente gratuita. Contudo, existe um tempo e um esforço contínuo em formatar este material, ao pesquisar, ilustrar e escrever estas newsletters. Por isso, peço aqui: se gosta do meu trabalho e se ele faz algum sentido pra você, que tal contribuir com qualquer valor? Minha chave pix é o meu e-mail: ola@lariarantes.com.br
Ficarei imensamente grata com qualquer contribuição ♡
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um abraço!
lari.
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