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marolinhas · Oct 8, 2025

Cinco de Ouros e Cinco de Copas

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Lari Arantes · marolinhas

Sinto que, antes de começar esta newsletter, preciso preparar o terreno para quem me lê. Estamos entrando numa sequência de cartas difíceis, duras, dolorosas. As cartas de número CINCO, nos Arcanos Menores do Tarot, representam a CRISE em si. Não estamos falando de obstáculos corriqueiros. Nestas cartas, os problemas se manifestam em toda sua potência. Estes arcanos nos trazem perdas, fracassos, dores e dificuldades importantes. É tudo aquilo que nos fere, nos atrapalha, nos impede ou nos desafia de forma inapelável; não há como desviar o olhar.

Respira e vai.

✤ ✤ ✤

Cinco de Ouros: escassez de recursos que nos coloca em extrema vulnerabilidade.

A falta de recursos no seu estado mais sólido expõe chagas, esvazia estômagos, danifica a matéria. Estar desabrigado, desprotegido, desamparado. Cinco moedas são pouco, muito pouco; não há como quitar as dívidas, não é o suficiente para comprar sequer o almoço. Aqui, a conta não fecha — e quem paga é quem está na ponta mais fraca.

A decadência material se manifesta nas ruas sujas, em edifícios depredados, nas roupas encardidas, em equipamentos estragados. Não há manutenção, nem reparos; apenas descuido. Um abandono total das estruturas. Distopia que de desenrola na realidade concreta.

O corpo adoecido, ferido, cansado, desnutrido, afetado por dores e doenças: sofrimento físico e limitações de movimento. Prognósticos difíceis.

O Cinco de Ouros também aponta para a carência de amor, de cuidado, de proteção. É não ter acesso ao básico. Ser invisível, excluído, marginalizado. Terrível em sua densa materialidade, visto que não é só questão de perspectiva: é dado concreto, que afeta a existência em seu modo mais básico. É segurar sua vida por um fio frágil. A escassez em seu estado mais concreto.

Pra facilitar a compreensão de certas cartas, gosto de recapitular a associação entre o valor intrínseco do Naipe + o significado do número que o acompanha.

O Naipe de Ouros, em sua crise mais aguda (o número cinco), aborda a ausência de todas suas qualidades naturais: o que deveria ser abundante, sólido, resistente, nutridor (elemento Terra) se torna escasso, frágil, debilitado, faminto. O Cinco de Ouros é a miséria da Terra árida, sem rega e sem adubo, insuficiente para semeaduras.

Neste Arcano, a vida se encontra profundamente fragilizada. Portanto, é a carta da miséria, da falta de acesso às necessidades básicas, como alimentação, saúde, abrigo, higiene pessoal e respeito.

A marginalização representada pelo Cinco de Ouros me lembra um poema de Eduardo Galeano que li no Livro dos Abraços, um dos meus livros favoritos da vida:

de Eduardo Galeano

Sonham as pulgas em comprar um cão como sonham os Ninguéns em sair da pobreza: que em algum dia mágico a boa sorte chova de repente, que caia a diluviar a boa sorte; mas não chove boa sorte nem ontem e nem hoje, nem amanhã e nem nunca, nem chuviscando ela cai do céu, por mais que peçam os Ninguéns, até mesmo se lhes coça a mão esquerda, ou se levantam com o pé direito, ou começam o ano trocando de vassoura.

Os Ninguéns: filhos de ninguém, donos de nada.
Os Ninguéns: os nenhuns, os ningueneados, a correr atrás da lebre, a morrer a vida, fodidos e refodidos:
Que não são, mesmo sendo.
Que não falam idiomas, e sim dialetos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, e sim artesanato.
Que não praticam cultura, e sim folclore.
Que não são seres humanos, e sim recursos humanos.
Que não têm rosto, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não estão na história universal, mas na crônica avermelhada da imprensa local.
Os Ninguéns, que custam menos que a bala que os mata.

Lembrei também de um poema brasileiro, um clássico de Manuel Bandeira:

de Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

O Cinco de Ouros é uma carta muito dura quando aparece numa leitura de Tarot, pois a dificuldade que ele apresenta é por demais concreta. Aqui não temos uma dissonância cognitiva, nem uma espécie de pessimismo injustificado diante do mundo. Não se trata de enxergar as coisas piores do que elas são; afinal, estamos falando do Naipe de Ouros, o mais concreto dos elementos. Não há recursos, e isto é um fato.

✤ ✤ ✤

Cinco de Copas: tristeza profunda pela perda de algo muito querido.

No breu da noite sem lua, no espaço frio do fim irreparável, me dou conta de que há quebras sem remendo. Como lidar com a perda de algo tão desejado? O canto do cisne, tão bonito, anuncia a sua própria partida sem volta. Dizem que não adianta chorar pelo leite derramado; o que fazer, então, com todas essas lágrimas? Represá-las? Para onde se escoam as dores caladas? Cinco taças quebradas no chão — este é o cenário: desilusão, desgosto, tristeza. O que havia para beber escoou pelo ralo. O fundo do poço ainda não pode ser escalado, visto que o desamparo precisa ser, antes de tudo, assimilado. Então, mergulha na própria dor e se demora nela. Não se aceleram processos de luto.

Dor paralisante, que pode levar mais tempo do que o esperado: ensimesmar-se em sua tristeza. Remoer o passado, fixando-se no que já quebrou e não pode ser consertado. Consegue olhar para a frente? Não, ainda não; há dores teimosas que insistem em se manter presentes. Lembranças que te fazem parar no tempo. Lamentações que impedem qualquer avanço.

Sair de uma tristeza profunda de um Cinco de Copas exige o primeiro passo: deixar que os mortos enterrem seus mortos. Ainda há caminhos tortos (e cheios de vida) a serem percorridos pelos que restaram.

Seguindo o mesmo raciocínio que fizemos na carta anterior, como ficaria um Naipe de Copas mal parado no desafiador número Cinco?

O elemento Água, representado pelo Naipe de Copas, trata de nossas emoções, sonhos, desejos; nossas aspirações e amores mais intensos. Também fala da nossa FÉ. E o número Cinco faz essa água toda escoar.

Ou seja, estamos falando sobre perdas referentes aos valores intrínsecos do elemento Água: perder um sonho (se desiludir), perder um sentimento bom (se decepcionar), perder um amor (desde o término de um relacionamento até viver um processo de luto).

E a perda da fé? Qual a conseqüência de perder fé na vida?
Melancolia profunda. Depressão.

Eu avisei que as cartas de número Cinco eram difíceis.

Como o Cinco de Copas representa o escoamento de água, é também a carta do choro, das lágrimas, das carpideiras — e também das lamúrias, das queixas, dos pesares, dos dramas.

Diferentemente do Naipe de Ouros, o Naipe de Copas pode, sim, dar uma bela distorcida na realidade. Da mesma forma que algumas cartas de Copas tendem a interpretar o mundo através de um viés romantizado, o Cinco de Copas pode enxergar as dores (e se apegar a elas) de uma forma desproporcional à realidade dos fatos. Isto não é uma regra, mas uma possibilidade. Não estou diminuindo as dores do Arcano. Só é preciso ter cuidado.

Tomem uma música perfeita para representar o Cinco de Copas. De nada.

✤ ✤ ✤

Gente, que newsletter deprê. Bad vibes. Agourenta. Fazer o quê? Esta é a sequência insalubre dos Arcanos Menores do Tarot — e olha que ainda vamos falar sobre o Cinco de Espadas (Jah me defenda!). Confesso que até dei uma enrolada pra escrever esse texto. Entretanto, o baralho precisa de cartas que dêem conta dos aspectos mais difíceis, mais tristes, mais precários da experiência humana. E isso não pode ser maquiado. Há anos eu observo uma tendência de alguns cartomantes (e ilustradores de tarot) em dourarem a pílula as cartas difíceis, tentando torná-las mais suaves (ou até positivas!!!) do que realmente são e, consequentemente, distorcendo seus significados básicos. O resultado? Interpretações erradas. Simples assim.

Animação desanimada por mightyoakgrows.com

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Por aqui, já estou de licença-maternidade. Isso significa que minha loja virtual está fechada por tempo indeterminado, e que as ilustrações das cartas estão um pouco mais lentas do que o normal. Estou na reta final da gestação, pensando seriamente em fazer uma newsletter a respeito. Em breve dou notícias ;-)

um abraço!
e obrigada por me acompanharem,
lari.

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