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O Substack de Jéssica · Jul 6, 2026

O lado sombrio da família

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Jéssica Petit · O Substack de Jéssica

Desde muito jovem, observando a relação possessiva da minha mãe pelo meu irmão e o quanto ela censurava minha sexualidade, sempre me questionei o porquê pais e mães podem ser figuras tão obsessivas com a vida sexual de seus filhos. Isso não era só uma questão minha e do ciclo social onde cresci, reality show como Ilhados com a Sogra evidenciam essa problemática que pode ser entendida até como incestuosa.

A pergunta que irá orientar o texto de hoje é: Por que pais e mães podem ser tão possessivos e interferir na vida sexual de seus filhos?

A resposta para essa pergunta está na antropologia, psicanálise e psicologia complexa.
Vou dividir em três grandes momentos:

1- A contextualização socio-histórica do incesto como tabu universal.

2 – A dificuldade e a importância de romper com os complexos familiares

3 – O comportamento de pessoas inconscientes dos seus complexos parentais e a jornada de individuação como saída para a conquista da autonomia

O INCESTO É UM TABU UNIVERSAL E NÃO É POR IMPLICÂNCIA

Desde tempos muito antigos, as sociedades perceberam que a sexualidade nunca pertenceu apenas ao campo do desejo individual. Ela sempre foi uma questão política, moral e familiar. Talvez por isso tantas mães experimentem um incômodo desproporcional diante da vida sexual dos filhos. Em muitos casos, não se trata simplesmente de preocupação, zelo ou proteção, mas da dificuldade de elaborar uma transformação psíquica profunda: a passagem do filho da esfera íntima da família para o mundo dos vínculos autônomos. Quando um filho ou uma filha estabelece uma relação amorosa, a mãe deixa de ocupar, simbolicamente, o lugar de principal referência afetiva. Esse deslocamento pode despertar sentimentos inconscientes de perda, ciúme, rivalidade ou abandono que, quando não reconhecidos, tendem a aparecer sob a forma de críticas, controle excessivo ou desaprovação das escolhas afetivas dos filhos.

Foi justamente observando esses conflitos que a Psicanálise, no início do século XX, formulou o conceito de Complexo de Édipo. Inspirado na tragédia grega de Édipo Rei, o conceito descreve um momento do desenvolvimento infantil em que a criança direciona seus primeiros investimentos afetivos aos pais e, pouco a pouco, precisa renunciar ao desejo de exclusividade para reconhecer a existência de terceiros e aceitar os limites impostos pela realidade. Embora a formulação de Freud tenha recebido inúmeras revisões — inclusive pela Psicologia Analítica de Carl Jung e pela antropologia estrutural — ela permanece relevante por apontar que o amadurecimento psíquico depende da aceitação da separação e da diferenciação entre as gerações. O verdadeiro núcleo do complexo não é o desejo incestuoso em si, mas a necessidade de abandoná-lo para que a personalidade possa se desenvolver em direção à autonomia.

É justamente por essa razão que o incesto constitui um dos tabus mais universais da história humana. Muito além de uma proibição moral ou religiosa, ele representa uma condição estrutural para a existência da cultura. Ao impedir que os vínculos sexuais permaneçam restritos ao interior da família, a proibição do incesto obriga os indivíduos a estabelecer alianças fora do próprio grupo, ampliando redes de cooperação, parentesco e reciprocidade entre diferentes famílias e comunidades. Sob essa perspectiva, o tabu do incesto inaugura a própria vida social, pois transforma relações puramente biológicas em relações simbólicas, políticas e culturais.

Em termos psicológicos, ele também marca a passagem da dependência para a individuação: somente quando o indivíduo aceita sair do círculo narcísico da família é que pode construir uma identidade própria, amar verdadeiramente o outro e participar da continuidade da vida coletiva.

Se a infância é o tempo em que nossa personalidade é moldada pela família, a vida adulta deveria ser o tempo de nos libertarmos dela.

Esse é, em essência, o sentido da individuação descrita por Carl Jung: tornar-se aquilo que se é para além das expectativas, dos medos e dos complexos herdados. O problema é que poucas famílias desejam verdadeiramente indivíduos. Quase todas, em alguma medida, desejam continuidade. Querem filhos que perpetuem seus valores, realizem os sonhos que ficaram inacabados, sustentem identidades familiares ou preservem uma determinada ordem. É justamente aí que começam as formas mais sutis de violência. É o lado sombrio da família que sem sempre elas aparecem como abuso ou agressão. Muitas vezes se apresentam como amor, cuidado, proteção ou tradição. Mas todo amor que exige submissão deixa de ser amor para se tornar poder. E como disse o próprio Jung:

As relações familiares são atravessadas por disputas simbólicas quase invisíveis. Pais e mães raramente percebem o quanto projetam seus desejos inconscientes sobre os filhos. O filho deixa de ser uma pessoa para tornar-se um personagem encarregado de reparar frustrações, restaurar o orgulho da família, corresponder às expectativas ou manter o equilíbrio emocional dos próprios pais. Em vez de educarem para a liberdade, educam para a lealdade e servidão. Em vez de prepararem o filho para o mundo, preparam-no para permanecer psicologicamente preso ao lar. É por isso que tantas famílias reagem com hostilidade quando um filho muda de profissão, escolhe um parceiro que desaprovam, muda de cidade, abandona a religião da infância ou simplesmente passa a pensar diferente. A individuação é, inevitavelmente, percebida pelo sistema familiar como uma ameaça à ordem estabelecida.

Jung percebeu que o próprio psiquismo nos direciona para a autonomia e produz através de sonhos e fantasias uma hostilidade em relação aos pais. Em Ab-reação, Análise dos Sonhos e Transferência, ele relata o caso de um jovem que sonhava repetidamente que seu pai dirigia um automóvel completamente embriagado. O curioso é que, na vida cotidiana, esse pai era conhecido por sua conduta irrepreensível: disciplinado, respeitado e moralmente exemplar. O sonho não pretendia revelar um fato escondido, mas produzir um efeito psíquico. A imagem simbólica do pai alcoolizado funcionava como uma compensação da consciência, excessivamente idealizada. Enquanto o jovem permanecesse fascinado pela figura paterna, incapaz de enxergar suas limitações humanas, continuaria vivendo como um eterno “filhinho do papai”, dependente de sua aprovação para existir. O inconsciente, então, rompe o encantamento. Não porque o pai fosse indigno, mas porque nenhum ser humano deveria ocupar o lugar de perfeição dentro da psique de outro.

Esse talvez seja um dos aspectos mais dolorosos e que gera muita culpa durante a jornada individuação: perceber que aqueles que nos deram a vida também nos impuseram limites. Nossos pais não são apenas fontes de amor; são também portadores de seus próprios complexos, medos, frustrações e ambições não realizadas. Quando permanecemos presos à imagem idealizada deles, deixamos de viver a nossa própria existência para administrar a deles. O amadurecimento psicológico exige muito sacrifício: retirar pai e mãe do pedestal. Não para desprezá-los, culpá-los ou romper os vínculos, mas para devolvê-los à condição que sempre lhes pertenceu: a de seres humanos, profundamente falhos, contraditórios e limitados. Somente quando os pais deixam de ser deuses é que os filhos podem nascer, pela segunda vez, como indivíduos livres.

Na Psicologia complexa, é importante distinguir duas coisas que frequentemente são confundidas: os pais reais e os arquétipos paterno e materno.

O arquétipo é uma estrutura psíquica universal, um modelo primordial que organiza a experiência humana muito antes de qualquer vivência individual. Isso significa que ninguém se relaciona apenas com sua mãe ou com seu pai de carne e osso; relaciona-se também com a imagem simbólica que essas figuras despertam no inconsciente. Enquanto o arquétipo materno está ligado à proteção, ao acolhimento, à nutrição, à origem da vida e ao pertencimento, o arquétipo paterno representa a ordem, o limite, a lei, a direção, a separação e a introdução do indivíduo no mundo da cultura. Em sua forma saudável, ambos exercem funções indispensáveis para o desenvolvimento da personalidade: a mãe oferece raízes para que a criança possa existir; o pai oferece horizontes para que ela possa partir.

Os problemas surgem quando essas experiências são emocionalmente intensas e passam a constituir aquilo que Jung chamou de complexos. Um complexo é um núcleo afetivo autônomo formado por experiências carregadas de emoção que passam a organizar nossa percepção, nossas escolhas e nossas reações de maneira inconsciente. Assim, o complexo materno ou paterno não é simplesmente uma consequência do comportamento dos pais, mas o resultado da maneira como a personalidade da criança assimilou essas experiências. Depois de formados, esses complexos continuam atuando mesmo quando os pais já não estão presentes. O adulto pode morar sozinho, construir uma família, alcançar sucesso profissional e, ainda assim, continuar obedecendo internamente à voz da mãe ou do pai que vive dentro de sua própria psique.

O complexo materno negativo costuma aprisionar o indivíduo na dependência afetiva. São pessoas que têm enorme dificuldade para confiar em si mesmas, tomar decisões sem aprovação externa ou suportar a solidão. Sentem-se permanentemente culpadas quando priorizam seus próprios desejos e vivem buscando alguém que as proteja, cuide delas ou lhes diga o que fazer. Muitas desenvolvem uma necessidade compulsiva de agradar, medo de decepcionar, dificuldade em estabelecer limites e uma sensação constante de insuficiência. Em outros casos, o complexo manifesta-se pelo extremo oposto: uma rejeição intensa da figura materna e de tudo o que remeta ao cuidado, à vulnerabilidade ou ao afeto. No entanto, essa aparente independência continua sendo uma forma de dependência, pois toda a personalidade permanece organizada em função da mãe, ainda que seja para combatê-la.

Já o complexo paterno negativo costuma produzir uma relação problemática com a autoridade, a ação e o próprio valor pessoal. Alguns indivíduos tornam-se excessivamente submissos, incapazes de contrariar figuras de poder, atormentados pela necessidade de reconhecimento e pela sensação de nunca serem bons o suficiente. Outros desenvolvem uma rebeldia compulsiva: desafiam qualquer regra, rejeitam toda autoridade e transformam a oposição em identidade. Em ambos os casos, a autonomia permanece comprometida, porque suas ações continuam determinadas pela imagem interior do pai. São pessoas frequentemente dominadas por uma voz crítica implacável, um juiz interno que exige desempenho perfeito, condena qualquer fracasso e transforma a vida em uma sucessão de provas intermináveis. É o pai interiorizado que continua distribuindo recompensas e punições muito tempo depois que a infância terminou.

A jornada de individuação nos conduz à compreensão e permite que esses complexos deixam de dirigir nossa existência. Isso não significa abandonar os pais, culpá-los ou negar sua importância, mas reconhecer que grande parte das decisões que acreditamos serem livres é, na realidade, uma repetição inconsciente da história familiar. Enquanto permanecemos identificados com os complexos materno e paterno, não escolhemos: reagimos. Amamos como aprendemos, tememos como fomos ensinados, obedecemos às mesmas vozes e reproduzimos os mesmos conflitos entre gerações. Somente quando essas figuras interiores são trazidas à consciência é que o arquétipo pode se manifestar em sua forma madura. Nesse momento, deixamos de buscar uma mãe que nos salve e um pai que nos autorize a viver. Tornamo-nos, finalmente, capazes de exercer essas funções dentro de nós mesmos: acolher a própria fragilidade sem nos infantilizar e estabelecer direção para a própria vida sem depender da aprovação de ninguém.

Escrever sobre complexos familiares nunca foi, para mim, um exercício puramente intelectual. Foi, antes de tudo, um exercício de sobrevivência. Em Cartas à Mãe Interior, talvez o livro mais íntimo que já escrevi, exponho sem filtros a minha travessia pelo complexo materno negativo e a forma como a relação com a minha mãe atravessou a construção da minha identidade, dos meus afetos e da maneira como aprendi a existir no mundo. Escrevi esse livro porque compreendi que aquilo que não é simbolizado continua governando a nossa vida em silêncio. E essa não é apenas a minha história. Ninguém escapa dos complexos familiares. Todos nós chegamos à vida marcados por uma herança afetiva que influencia a forma como amamos, escolhemos, trabalhamos, adoecemos, nos relacionamos e interpretamos a realidade. Compreender essa herança talvez seja um dos atos mais importantes de liberdade que um ser humano pode realizar.

É justamente por acreditar na potência desse conhecimento que, nos próximos meses, os complexos familiares serão um dos grandes temas da Escola da Vida Afetiva. Vamos estudá-los em profundidade, unindo Psicologia Analítica, filosofia e prática terapêutica para compreender como essas estruturas invisíveis continuam organizando nossa existência. E já posso adiantar dois spoilers que muitas pessoas estavam esperando: a Jornada das Filhas Feridas está de volta para mergulharmos no complexo materno, enquanto a Jornada Do Tirano ao Sábio retorna aprofundando o complexo paterno e a formação da nossa autoridade interior. E, desta vez, há uma novidade muito especial: essas jornadas não serão exclusivas para quem já faz parte da Escola. Pela primeira vez, quem ainda não é aluno também poderá participar dessa experiência.

Toda transformação começa pelo conhecimento. Por isso, no dia 12 de julho, vou realizar uma Masterclass sobre Complexos Familiares, pensada como uma porta de entrada para esse trabalho. Será um encontro introdutório para entendermos como essas dinâmicas se formam, de que maneira continuam atuando na vida adulta e como podemos iniciar um verdadeiro processo de individuação. O investimento é absolutamente simbólico e foi pensado para que o maior número possível de pessoas tenha acesso a esse conhecimento, porque acredito sinceramente que compreender os próprios complexos pode transformar a maneira como enxergamos nossa história e, principalmente, a maneira como passamos a viver. As inscrições já estão no 2º lote, então, se você pretende participar, vale a pena garantir sua vaga antes da próxima virada de lote. E deixo mais um spoiler: quem estiver presente na Masterclass terá acesso à pré-venda exclusiva da Jornada das Filhas Feridas. Se eu fosse você, não perderia essa oportunidade. Nos vemos no dia 12.

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Read the original on jessicapetit.substack.com

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