Existe um momento, bem no final de Pessoas Normais - o livro e a série - no qual eu penso todo dia: quando Connel conta para Marianne que conseguiu uma bolsa para estudar escrita criativa em Nova York e ela diz que ele deve ir, mas ela vai ficar em Dublin, porque ela aprendeu a construir uma vida e isso “é uma grande coisa".
Desde a primeira aparição da Marianne, esquisita, tida com feia pelos colegas de ensino médio, sem amigos e com uma família que não sabe, e não tenta, amá-la, eu me identifiquei com ela. Mas foi nesse momento, em que ela não só reconhece, mas expressa que para alguns de nós construir uma vida é algo aprendido que eu me senti tocada em lugares arcaicos, moles e escondidos de mim.
Eu já falei isso muitas vezes e provavelmente vou repetir mais outras tantas, mas a experiência mais incomunicável que eu já tive foi ter pais ruins. Meu pai não estava lá e claro eu posso concordar que minha mãe me amava, daquele jeito vago e biológico, mas ela não amava a mim, a pessoa que eu era e toda vez que ela era lembrada que eu era um indivíduo e não uma imagem na cabeça dela havia demonstrações claras de que eu era, para ela, uma pessoa desagradável. Há algo disso na Marianne também, a mãe que não consegue entendê-la, que olha para ela como se estivesse criando um alienígena dentro de casa, um ser incompreensível, cujos desejos, sentimentos e reações são expressos em uma linguagem ininteligível. Minha mãe nunca me entendeu, nem por um dia na minha vida.
O que isso faz com você é te tirar a sensação de ter onde cair que pessoas com pais melhores têm. Se eu escolhesse o caminho errado, se o chão rachasse sob meus pés, se eu perdesse a cabeça (todas coisas que aconteceram em um momento ou outro), eu teria que tirar a mim mesma dessa situação. E, mais do que isso, eu não tenho a lembrança de um período seguro, o exemplo de como uma vida deveria ser, de como é a sensação de caminhar sobre chão firme, de ter em volta de mim paredes sólidas. As pessoas com pais legais podem perder o fio da vida, mas elas sabem o que estão buscando. Eu não.
É muito, muito solitário viver sabendo que você não pode nunca voltar para casa. E é também muito solitário aprender a construir a própria casa e é por isso que esse diálogo final entre a Marianne e o Connel me pega tanto.
É possível que seja mais fácil se o modelo pré-fabricado de vida te serve: se você quer casar e construir uma família com essa pessoa, se você quer ter filhos e ter sua própria unidade familiar só sua. Eu nunca quis isso. Eu tive sempre ambições profissionais que hoje eu noto que eram mais amorfas do que me pareciam, mais difíceis de pegar na mão do que eu esperava. Além disso, também só recentemente eu notei, é muito difícil construir uma vida quando você não sabe contar com o futuro das coisas ou o seu, quando a estrada está sempre sumindo em bruma dois ou três passos adiante. É impossível ser uma pessoa se você não tem um chão sólido para saltar nem para aterrissar. Então, como eu faço isso?
Ano passado, quando eu li Memórias de uma moça bem-comportada , o que eu achei mais interessante foi ver exatamente como a Simone de Beauvoir, talvez a pessoa mais talentosa nisso que já existiu, construiu a própria vida. Ali, você a vê tateando em volta de si, entendendo que a solidez da família é também prisão e descobrindo seu desejo ardente de uma vida intelectual e experimentando com isso. No fim, a gente sabe, ela não vai se tornar uma professora universitária, mas uma pensadora pública, uma escritora, alguém produzindo no turbilhão da vida, dos cafés, dos encontros, mas ela não sabia que isso era possível aos dezessete anos e ler sua auto-biografia é ver essa possibilidade se descortinando. É vê-la aprendendo a construir a vida que sonhou.
O que também é impressionante na Beauvoir (tudo é impressionante na Beauvoir, eu sei) é que ela não duvida nem por um minuto que a vida que ela deseja para si é possível de ser conquistada. Que ela possa viver essa existência vibrante, desafiadora, na qual ela sente seu cérebro desafiado o tempo todo e se vê construindo algo no mundo nunca lhe aparece como uma dúvida. Talvez de tudo, de absolutamente tudo, é isso que eu mais invejo.
Pode ser culpa dessa minha incapacidade de ver um futuro, mas tudo que eu sempre desejei me teve o ar de sonho impossível. Nenhum plano tem cara de plano, toda expectativa parece irreal, tudo em que eu coloco minha visão eu sinto que vai virar fumaça diante de mim. É difícil viver assim, quando você não consegue se orientar para um caminho porque acha de antemão que não vai chegar ao destino. Com o tempo, tudo começa a parecer um monte de ruas sem saída largadas pelo caminho. É, sinceramente, bem assim que eu tenho me sentido.
Porque muitas coisas aconteceram na minha vida esse ano e porque eu venho repensando metas que eu não sei de verdade se um dia quis, eu tenho pensado mais ainda nessa ideia, nesse construir uma vida com todas as suas partes. Eu sou, apesar de tudo que estou dizendo aqui, bastante boa em construir um cotidiano, em ter dias e semanas que se passam da forma que eu quero, o trabalho que não é desagradável, minhas amigas, minha rotina, tudo isso tem uma cara exemplar visto de fora. Exceto que o trabalho agradável vai apodrecendo quando ele não tem destino, eu notei.
Eu tenho também pensado bastante nisso porque, como já demonstrado por essa newsletter, eu uso meu explorar do Instagram como etnografia observadora da mulher contemporânea e eu tenho pensado na proliferação tanto de vídeos de rotina quanto de conselhos supostamente profundos a respeito da importância de manter amigos na sua vida. Eu rio cada vez que uma nova mulher de vinte e tantos, trinta anos descobre que ó, também é importante passar o tempo com suas amigas! Porque eu sempre me pergunto o que você estava fazendo senão isso? Eu fico meio chocada - e ao mesmo tempo eu não devia ficar nada chocada - que as pessoas não deem como óbvio que construir uma vida inclui torná-la divertida, inclui ter laços, significa diversidade e riqueza e várias coisas para além do trabalho, pilates, namorado. Eu olho para todos os vídeos e textos e opiniões sobre “namorar hoje em dia” e penso sem parar que é insuportável porque vocês não constroem uma vida e aí realmente fica difícil, quando duas pessoas que não sabem viver querem construir uma vida juntos. Que vida?
A vida que quase todo mundo acha que é algo que só acontece para você. Eu imagino alguém pensando que toda essa newsletter é uma loucura porque como assim construir uma vida, você está vivo, você faz as coisas, você segue o que tem que fazer, não? Essa é um pouco a vantagem de não ter para onde voltar: você é obrigado a pensar na própria existência em outros termos, nas coisas mais óbvias como algo a ser construído. É claro que é preciso construir uma vida, é claro que é preciso escolher qual vida construir, é claro que é dolorido fazer as duas coisas.
No final de Pessoas Normais, Marianne começou a nadar todas as manhãs, ela manteve perto a amiga que gosta dela de verdade, se livrou de outras, ela passa horas na biblioteca, constrói seu trabalho, segue dia após dia e também com um destino. Eu tenho tropeçado nisso, eu tenho criado dias agradáveis que não vão para lugar nenhum e eu tenho achado impossível me manter no processo do que quer que seja. Mas o construir uma vida é isso, não? O processo?
Eu sei que quase todo mundo constrói a própria vida apenas nos dias, que boa parte das pessoas não pensa em “chegar a algum lugar” ou que sua existência cotidiana mereça tanta consideração e elaboração e neurose. Viver é só o que as pessoas fazem, a vida é algo que existe. Entendo, mas eu não acho que todas essas pessoas estejam de fato mais felizes do que eu, talvez menos infelizes, mas me interessa pouco o só não estar infeliz, nunca me pareceu suficiente e ainda não parece. Claro, você pode só seguir em frente, mas eu quero mais que isso. Exceto que, de novo, eu não sei o que é esse mais.
Eu sei que algum dia eu vou olhar para trás e dizer que esse foi um dos anos mais difíceis da minha vida, não tem como não ser e, ainda assim, eu não senti até agora o impulso de dizer que foi um ano ruim. Eu sinto, de certa forma, como se tudo tivesse um pouco gosto de libertação, de eu tendo que cair de cara no chão e de fato construir minha vida porque não sobrou nada. De que eu faço trinta e oito anos em menos de um mês e eu estou aqui, de novo, pensando no final de um romance sobre pessoas de vinte e pouco e na autobiografia da Simone de Beauvoir aos dezessete e em tudo isso que eu deveria saber fazer, mas não sei.
É de fato toda uma coisa, construir uma vida.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.