Conheci, durante uma leitura, a expressão destrancar a cristaleira. Uma ilustração perfeita dos momentos que merecem ser celebrados com a loiça especial, com a mesa aprumada e pronta para ser servida com as delícias da vida.
Caio muito facilmente na armadilha quotidiana de deixar a minha cristaleira trancada mais vezes do que devia. Sinto muita dificuldade em concretizar ao certo quando é que a devia destrancar, mesmo em momentos em que a chave está na mão e a toalha estendida na mesa. Olho para trás e vejo, mais vezes do que gostaria, as oportunidades que mereciam o serviço especial. Regresso a esses momentos com uma certa melancolia, observando que os celebrei de forma comedida e, acima de tudo, despreparada.
Ainda encontro vestígios destas celebrações tão desvinculadas quando encontro o canudo do meu diploma de licenciatura empilhado num canto da secretária no meu quarto de infância. Quando penso que a minha passagem com distinção na Ordem foi testemunhada apenas pelos meus avós (a meu pedido), que nenhum dos meus cestos nos jogos foi aplaudido nas bancadas porque não tinha ninguém para me ver. Quando não estou presente nas cerimónias de entregas dos prémios às campanhas em que participei.
Falo sobre a minha mudança profissional como quem conta que trocou de ideias sobre a ementa, como se não estivessem envolvidos anos de dedicação, sofrimento e incompreensão. Mas sei que falo assim porque não sei falar de outra forma. Não tenho referências e fui excecionalmente balizada com a máxima de que ninguém é especial e, por consequência, eu também não sou.
Mas nós somos especiais. A cristaleira na sala é muito especial. E o que conquistamos, seja em que dimensão for, também é especial.
Não sei e ainda estranho a forma como quero celebrar as minhas vitórias, as coisas que correram muito bem, os sucessos. Sinto-me num processo de tentativa-erro com o que me faz sentir confortável enquanto dispo, aos poucos, a voz que me diz que celebração é pedantismo. Mas sei que tenho (e com muito alívio sei que tenho) a pessoa certa ao meu lado. Mesmo não sabendo ao certo como quero assinalar os momentos em que me sinto orgulhosa, sou muito agradecida por ter ao meu lado quem tenta ajudar-me a encontrar essa resposta. Que agarrou no meu diploma e o emoldurou. Que encomenda troféus personalizados para que eu tenha uma prova física e incontestável de que há coisas que correm muito bem. Que me lembra que há alturas em que podemos ter muito orgulho e que podemos sentir-nos, sim, muito especiais.
As minhas memórias mais vitoriosas sempre tiveram contornos muito abstratos, pouco nítidos ou palpáveis. Estou, lentamente, a habituar-me ao som de ouvir palmas quando acerto. A ter a quem correr para abraçar e saber que, naquele abraço, está alguém que testemunhou o processo inteiro.
Ao falar sobre as memórias que me orgulham, dou-lhes dimensão e um corpo que mereciam ter desde o seu princípio.
Quando hesito em destrancar a cristaleira, ele leva a chave e passa-me a loiça devagar. Estou a aprender a sentir alívio e alegria a pôr a mesa.
No menu desta segunda-feira, encontras abaixo…
❤︎⋆˙ Um mini-documentário sobre uma profissão inesperada
❤︎⋆˙ Gostamos disto ou cedemos pelo cansaço?
❤︎⋆˙ Conselhos que nós pedimos

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