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Bobby Pins · Jun 29, 2026

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Bobby Pins · Bobby Pins

Nunca me lembro dos meus desejos, embora os deseje muito. Sinto que vão para onde a chama vai quando a apago nas velas, que explodem com os fogos de artifício no céu a cada ano renovado. Penso, compenetrada, no que quero desejar quando vejo um 11:11 no microondas ou quando equilibro uma pestana no dedo. Depois sopro, depois penso, e o desejo vai.

Senti o mesmo quando descia as ruas por ocasião do São João e comecei a ver os primeiros balões a tomar novas altitudes, a chegarem onde nós não conseguimos só com a força da chama e de uma vontade. Olhei para os balões lá em cima e perguntei-me como é que eles nos veriam cá em baixo.

Nunca pergunto isto porque considero os desejos sagrados, mas não resisti: ‘Do you still remember what you wished for? You don’t have to tell me what it was, but did it come true?’. Senti que a sua resposta foi honesta de que sim, lembrava-se, e sim, concretizou-se. Nasceu, dentro de mim, um espanto que só consigo caracterizar como ingénuo, o espanto pelos desejos terem memória e que, com tempo, dedicação e sorte, podiam voltar. Podiam acontecer.

Embora não me lembre exatamente do que desejei, sei o que é que ainda desejo que aconteça. Talvez não me lembre como pedi ou o que é que o meu coração escolheu como prioridade para desejar, mas tenho, no meu horizonte, todos os desejos à vista. A distância torna-os, por vezes, pouco nítidos e sei que, em alguns, passos não vão bastar. Há distâncias e distâncias. Às vezes, precisamos da boleia de sorte e quem nega a sorte de uma boleia, não entende, desde já, o privilégio da viagem.

É importante para mim, por isso, lembrar do que desejei e já existe. Não tomo por garantido, mas sei que junto com o desejo, deixo que vá também a parte de mim que deseja. Quem deseja sofre e luta por desejar, e podem ser versões de nós demasiado intensas para as carregarmos todos os dias connosco. As minhas são tão delicadas que guardo numa caixa especial e abro em ambiente controlado.

Penso, acima de tudo, na sorte que é nem sequer me lembrar de ter de desejar certas coisas. Esses são, para mim, os maiores privilégios. Tenho essa confirmação em momentos fundamentais do meu dia a dia quando, mesmo sendo apenas a testemunha, não deixo para trás a reflexão prática do que estou a presenciar.

Na noite de São João, olho para o seu estrelado de balões e vejo desejos. Centenas, talvez milhares de desejos a brilhar no céu e à espera da oportunidade, da dedicação, da sorte ou dos três para regressarem. Todos os desejos são partidas; libertamo-los do nosso peito e deixamos que sigam o seu caminho enquanto nós criamos o nosso na esperança de que, no momento certo, nos voltemos a encontrar.

Imagino quais serão os desejos que flutuam pelo céu e torço para que eles encontrem o caminho de volta. Ele devolveu-me a pergunta e eu respondi ‘I think half of it came true’. Não acho que esteja a mentir, mesmo que não me lembre nitidamente o que desejei quando o meu balão, no ano passado, despediu-se dos meus dedos e seguiu pelo céu. Acho que estava a ser sincera, há sempre algo mais desejar, nem que seja pedir para que tudo fique igual quando está bom.

Mas lembro-me que foi um balão sustentado com amor e por várias mãos amigas. E quando os desejos começam assim, têm o mapa inteiro para voltar.

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