RSS Amplifier

Dose de Ataque News · Jun 16, 2026

Dose de Ataque #185 - A Ceftriaxona na Pneumonia, o H5N5 escapa do swab e um abismo no diagnóstico do HIV

0
Sign in to vote or save

Yara Aline Silveira · Dose de Ataque News

E aí, tudo bem?

Essa semana a edição vai do pronto-socorro à virologia profunda. Discutimos a dosagem da droga mais prescrita na enfermaria, o perigo de confiar cegamente em um teste de via aérea superior, a realidade do HIV em uma população hipervulnerável e uma nova forma de enxergar uma velha doença neurológica.

➡️ Ceftriaxona na pneumonia: 1g ou 2g por dia? A resposta surpreende e depende do ventilador.

➡️ Influenza A(H5N5): O primeiro caso humano grave que negativou no swab nasal repetidas vezes.

➡️ HIV em jovens trans no Brasil: 68% das infectadas não sabiam do seu diagnóstico.

➡️ EBV e Esclerose Múltipla: O vírus de Epstein-Barr seria o nosso “novo estreptococo”?

Bora.

Tipo de evidência: Estudo de coorte retrospectiva | Journal of Antimicrobial Chemotherapy

A Ceftriaxona é o arroz com feijão da pneumonia hospitalar. As diretrizes aceitam doses de 1 a 2g/dia, mas na vida real as prescrições flutuam por hábito, não por protocolo. Um megabanco de dados tentou resolver o debate.

Usando um banco de dados de internações do Japão (2010 a 2022), pesquisadores avaliaram 471.694 pacientes internados com pneumonia. A divisão foi clara: 63,3% receberam 2g/dia e 36,7% receberam 1g/dia de ceftriaxona logo na admissão. Fizeram um pareamento pesado por escore de propensão para equilibrar os grupos.

Na coorte geral, não houve diferença estatística na mortalidade intra-hospitalar em 30 dias (4,5% no grupo 2g vs. 4,6% no grupo 1g). Porém, os eventos adversos gerais foram discretamente maiores no grupo de 2g (1,9% vs. 1,8%), puxados pelo aumento de infecção por Clostridioides difficile. O pulo do gato esteve no subgrupo de pacientes em ventilação mecânica: aqui, usar 2g/dia reduziu significativamente a mortalidade (17,2% vs. 20,4% com 1g).

➡️ Para a enfermaria e casos de pneumonia leve a moderada: 1g/dia de ceftriaxona resolve e minimiza risco de C. difficile.

➡️ Para a UTI e pacientes em ventilação mecânica: a dose de 2g/dia deve ser considerada, possivelmente devido à maior depuração do fármaco e volume de distribuição nesse perfil.

➡️ Na dúvida em casos graves, dose maior; em casos estáveis, poupe o microbioma.

Referência: TANIGUCHI, J. et al. J Antimicrob Chemother, 2025.

Agora espera aí! Antes do próximo ponto , uma observação do Editor…

Existe um ponto muito importante que é o aumento de cepas de Streptococcus pneumoniae SAE “Suscetíveis, aumentando exposição”, ou seja, vemos cada vez mais cepas de Pneumococo que a dose deve ser máxima (2g 12/12h) para atingir nivel terapêutico. E é possivel provar isso. Os dados do Sireva 2025 trazem em quadros excluindo meningite e endocardite (entra aqui as pneumonias no meio do bolo), até 21% com esse perfil!

  • Em resumo: podemos estar caminhado para mudança perfil, com recomendação de doses maiores de Ceftriaxona em pneumonia e a verdadeira discussão daqui em diante seja: 4g versus 2g/dia.

Referência: INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Núcleo de Meningites, Pneumonias e Infecções Pneumocócicas. SIREVA 2025: Vigilância epidemiológica Streptococcus pneumoniae no Brasil.

Saindo da enfermaria de clínica médica e indo direto para o isolamento respiratório de alta suspeição.

Tipo de evidência: Relato de caso / Correspondência | New England Journal of Medicine

Se um paciente chega com pneumonia grave e contato com aves doentes, o swab nasal resolve a investigação? Este caso fatal diz que não.

Mulher de 75 anos, moradora de zona rural, com macroglobulinemia de Waldenström, alimentava patos sem uso de EPI. Dois patos haviam adoecido com sintomas neurológicos pouco antes dela apresentar febre e diarreia. A paciente realizou swab nasal para pesquisa de Influenza A (PCR) no dia 1 de sintomas, que veio negativo. Retornou no dia 9 com piora respiratória, evoluindo para intubação no dia 11 e SARA grave. Novos swabs nasais nos dias 10 e 13 continuaram negativos.

Foi apenas após transferência para um centro terciário que um lavado broncoalveolar testou positivo para Influenza A(H5N5), linhagem eurasiana clado 6. Este é o primeiro relato de infecção humana por esta variante. A paciente infelizmente faleceu no dia 28. A carga viral nas amostras do trato respiratório inferior (lavado broncoalveolar e aspirado traqueal) era brutalmente superior à do trato superior.

➡️ Swab nasal/orofaríngeo negativo NÃO descarta Influenza aviária (nem outros vírus pandêmicos) se a infecção estiver focada no trato respiratório inferior.

➡️ Se há nexo epidemiológico forte (contato direto com aves doentes) e pneumonia grave, a coleta de lavado broncoalveolar ou aspirado traqueal é obrigatória.

➡️ Vírus aviários continuam fazendo spillover zoonótico mesmo sem adaptação completa ao hospedeiro humano.

Referência: LITE, T. L. et al. NEJM, 2026.

No nosso novo episódio, reunimos dois dos maiores nomes da infectologia brasileira para discutir os avanços reais e os desafios científicos rumo à cura do HIV. Recebemos o Dr. Mauro Schechter, professor titular da UFRJ e referência internacional em pesquisas sobre HIV/AIDS, e o Dr. Ricardo Diaz, professor titular da UNIFESP e líder de estudos clínicos promissores voltados à cura e erradicação do vírus.

Nesta conversa, os dois médicos infectologistas desconstroem o mito de que a cura estaria sendo retardada por interesses comerciais, demonstrando que as principais barreiras atuais permanecem estritamente biológicas. Eles detalham o complexo desafio dos reservatórios virais latentes e dos santuários anatômicos, compartimentos onde o vírus permanece integrado às células e fora do alcance dos antirretrovirais convencionais.

O episódio explora por que a inflamação crônica persiste mesmo em pacientes indetectáveis, abordando mecanismos como a translocação microbiana intestinal e a atividade de provírus defectivos. Além disso, os especialistas analisam o que podemos aprender com os controladores de elite e o fenômeno dos “cemitérios genéticos”, onde o DNA viral fica restrito a regiões inativas do genoma.

Com a autoridade de quem molda as próximas gerações de pesquisa, Schechter e Diaz revelam como a ciência está redefinindo os rumos da investigação sobre a cura definitiva.

Agora voltamos para o Brasil. Prevenção falha na base, diagnóstico que chega tarde e uma epidemia que continua descontrolada em um grupo específico.

Tipo de evidência: Estudo Transversal (Baseline de Intervenção) | Brazilian Journal of Infectious Diseases

Temos PrEP gratuita, testagem rápida em qualquer posto e tratamento universal. Ainda assim, uma fração imensa das infecções em jovens trans no Brasil passa totalmente despercebida pelo sistema.

Avaliação de base do estudo BeT (Brilhar e Transcender), que recrutou 164 travestis e mulheres trans jovens (18 a 24 anos) no Rio de Janeiro. Foco total em quem não estava usando PrEP ou não estava em tratamento pro HIV.

A prevalência de HIV foi de 13% (22 participantes). O dado assustador: 68% delas (15 de 22) não sabiam que tinham o vírus e foram diagnosticadas na entrada do estudo. Mais grave ainda, 33% (4 de 12 testadas) tinham infecção recente. A prevalência de outras ISTs também chocou: 23,1% tinham sífilis ativa, 15% clamídia retal e 13% gonorreia retal. Os fatores associados aos novos diagnósticos de HIV foram a idade mais jovem (18-19 anos), baixa escolaridade e risco moderado/alto para uso de crack e cocaína.

➡️ O sistema de saúde (apesar do SUS) não está alcançando quem mais precisa: há barreiras estruturais severas de acesso.

➡️ Jovens trans com idades entre 18 e 19 anos concentram altíssima vulnerabilidade; a intervenção precisa chegar precocemente.

➡️ A intersecção entre falta de escolaridade, uso de substâncias e exclusão social é o verdadeiro motor dessa epidemia.

Referência: JALIL, E. M. et al. Braz J Infect Dis, 2026.

Fechamos a semana com patogênese pura. Aquele tipo de ideia que faz a gente olhar pros livros de neurologia de outro jeito.

Tipo de evidência: Ponto de Vista (Viewpoint) | The Journal of Infectious Diseases

Já é um consenso que o vírus Epstein-Barr (EBV) é o gatilho principal da Esclerose Múltipla (EM), embora seja necessário, mas não suficiente, para a doença (por isso quase todos têm EBV, mas poucos têm EM). Mas como ele faz isso?

Os autores fazem um paralelo perfeito com o Streptococcus pyogenes (SGA), o causador da febre reumática. O SGA causa autoimunidade via mimetismo molecular, onde o corpo ataca o patógeno e acaba cruzando o ataque para os tecidos do hospedeiro. A proposta é que o EBV faça o mesmo com o sistema nervoso central. A diferença crucial? O SGA causa infecções agudas repetidas , enquanto o EBV estabelece uma infecção latente. São as reativações assintomáticas do EBV (o ciclo latente-lítico) que conduzem a atividade da Esclerose Múltipla.

➡️ Mimetismo molecular é a principal aposta atual para explicar a patogênese da Esclerose Múltipla via EBV.

➡️ O primeiro ataque da EM costuma ser silencioso, logo após a infecção primária pelo EBV; por isso, quando o paciente manifesta sintomas, a ressonância já exibe lesões antigas.

➡️ Controlar a reativação cíclica do EBV no futuro pode ser o caminho para frear a Esclerose Múltipla.

Referência: GIOVANNONI, G. et al. J Infect Dis, 2026.

➡️ Ceftriaxona na pneumonia: ainda é possivel 1g na enfermaria; 2g no paciente ventilado mecanicamente. Talvez 4g para Pneumococo ( e ainda vamos discutir muito isso daqui em diante).

➡️ H5N5: Cuidado! Paciente com SARA e contato com aves exige lavado ou aspirado traqueal. Swab nasal pode enganar. Vírus aviários estão batendo a porta.

➡️ HIV em trans: 68% de infecções desconhecidas em jovens no RJ. Precisamos olhar pra vulnerabilidade e exclusão estrutural urgente.

➡️ EBV e EM: Assim como o Strepto ataca o coração na febre reumática, a reativação silenciosa do EBV ataca a bainha de mielina via mimetismo molecular.

Até a próxima Dose.

Dr. William Dunke
Diretor Científico | InfectoCast

Pra quem chegou até aqui, fica com esse convite: como vencer a barreira física das infecções em próteses? Baixe nosso guia exclusivo sobre Biofilme em Ortopedia e descubra por que o segredo do sucesso terapêutico está em entender a arquitetura bacteriana, não apenas o antibiograma.

Read the original on infectocast.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.