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Imagina Só · May 6, 2025

Nem toda arte tem moldura

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Nathália Pandeló · Imagina Só

Quando vou a São Paulo, logo fica claro pra mim que a grande paisagem daquele lugar não são os prédios (como os cariocas adoram provocar), mas sim os murais que, não por acaso, ocupam o mesmo concreto dos arranha-céus e vias urbanas. As cores, os temas, as frases - tudo é muito impactante. Não é à toa que o Beco do Batman é ponto turístico e, como tudo hoje em dia, instagramável.

Aqui no Rio, quem cruza a Avenida Brasil, encontra os viadutos, estações de BRT e passarelas com pinturas coloridas, cada uma representando os símbolos e as culturas dos bairros que anunciam, de ambos os lados da via.

Pouco tempo depois da pintura, a prefeitura precisou usar suas redes sociais para pedir: por favor, não grafitem por cima. Nem mesmo o código de honra do spray é respeitado mais.

A arte de rua e popular nunca esteve tão hypada, agora institucionalizada e estampando roupas e acessórios das marcas mais badaladas. Os artistas ocupam as galerias e museus, ganham mostras individuais e retrospectivas. Os grandes mestres são recuperados, alçados um reconhecimento sem precedentes.

Você piscou e Os Gêmeos estão em todos os lugares – ainda bem.

Mas nem sempre foi assim. Não preciso nem voltar muito tempo, logo tenho flashbacks do Dória mandando pintar de cinza o trabalho de muita gente.

Tudo isso tem ocupado muito meus pensamentos: o valor da arte e do artista. Trabalho cobrindo o setor da música, o que inevitavelmente me coloca em contato direto com números e relatórios de plataformas de streaming e associações de direito coletivo. É um eterno “uau, quanta música!” e “espera, quem tá pagando essa conta?”, todos os dias.

Por um lado, o Spotify informa que nunca repassou tanto dinheiro para os artistas. Por outro, diz que o nome na posição 100 mil entre os mais ouvidos tira em média US$ 6 mil por ano da plataforma. Esse dinheiro não paga o aluguel de ninguém por um ano. E são 12 milhões de pessoas com músicas lá dentro. Faça as contas (eu não, pois sou de humanas).

Estive recentemente na exposição de J. Borges no Museu do Pontal, uma retrospectiva da carreira de um dos maiores expoentes da xilogravura e literatura de cordel que esse país já viu. A gente sabe que não é fácil, mas quando você vê a matriz talhada, com gravuras e letras espelhadas, e logo ao seu lado o produto final, fica claro que o xilogravurista não é meramente um artista. É um viajante do tempo, que consegue ver o futuro e voltar na hora do entalhe certeiro.

Já nas exposições permanentes do Pontal, me emocionei com a dobradinha de Dona Isabel e sua neta, Andreia. Há muitas peças de beleza inegável e riqueza ainda maior, um panorama plural das artes populares brasileiras. Mas não é de se estranhar que justo as bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha falassem mais comigo. As cenas domésticas e familiares são estranhamente parte de quem sou, que trago no meu DNA mineiro por onde vou. Mas o seu tamanho também causa uma presença.

As tradicionais noivas de Dona Isabel, sempre arrumadíssimas e elegantes, têm facilmente um metro ou mais. Amo a ideia do artista que faz algo brotar do nada. O forno já existia, a tradição da região também, imagine então o barro! Mas precisou que Isabel visse ali, no marrom, a possibilidade do véu e grinalda brancos que logo muita gente passou a copiar.

As noivas se tornaram um rito de passagem para ceramistas, mas Andreia Andrade deu a volta completa. Aprendeu a moldar a argila com sua avó, a própria “Dama do Barro do Jequitinhonha”, como Isabel ficou conhecida. Na sequência das suas bonecas no museu, surge a homenagem de Andreia: a própria avó imortalizada fazendo o que mais amava. Casar argila com tinta, tradição com inventividade.

Não é preciso reinventar a roda, afinal. Essa não é a função do artista. É trazer à tona a beleza desconhecida no cotidiano, seja em forma de película, página, parede, partitura.

Isso ficou ainda mais claro pra mim na oficina do Filipe Grimaldi no Clube Seiva. O Filipe virou um “cartazista pop”, um artista visual especializado em letreiros. Ele viralizou ao longo dos últimos dois anos com sua série de vídeos “chora Fotoshópi”, em que faz o famigerado react ao trabalho de outros artistas, sejam eles muralistas, pintores ou cartazistas de supermercado.

Grimaldi tem uma abordagem decolonial no seu trabalho, de valorização das letras latinas e tudo que elas representam. Na aula rápida, apresentou brevemente alguns alfabetos e estilos brasileiros e de países vizinhos - do fileteado porteño, possivelmente presente no ímã de geladeira que você trouxe de Buenos Aires, aos artistas amazonenses que batizam os barcos do norte do Brasil.

Estes se chamam “abridores de letras”, e eu achei isso de uma potência linda! “Abrir”, aqui, significa criar, formar ou traçar letras à mão — seja com pincel, caneta, estilete ou outro instrumento. Em vez de “escrever” ou “pintar”, usa-se “abrir” as letras, reforçando o aspecto físico e cuidadoso desse tipo de trabalho, que não deixa de ser braçal.

Essa terminologia é especialmente comum entre os mestres pintores populares que fazem letreiros em barcos regionais, muito típicos nos rios amazônicos, onde cada embarcação carrega nomes desenhados com cores vibrantes, arabescos e traços estilizados. É uma tradição forte e identitária que até tenta ser copiada em outros lugares, mas que é única dali.

Mas essas artes são “regionais”, codinome para pequenas, menos importantes. Mesmo com todas as mostras e com o grafite indo parar nas bienais e museus, ainda há uma hierarquia cultural que persiste, inclusive entre quem ama as artes.

Basta olhar o desdém que eventos populares como as Bienais do Livro atraem em certos círculos, se comparadas com a antecipação pela programação de uma Flip da vida. Daí a confusão mental quando Felipe Neto foi anunciado na edição da Festa Literária de Paraty no ano passado, um tímido aceno às massas que vinha faltando há tempos em um dos mais importantes eventos culturais do país.

Mas nada disso explica o que se sucedeu com Joshua Bell, um dos mais renomados violinistas do mundo. O caso nem é novo, mas segue como um grande exemplo da forma equivocada como muitos de nós valorizam a arte meramente por seu caráter de status social e elitista.

Não sei onde você mora, mas por aqui a música clássica é bem valorizada e até disputada (já tentou comprar ingresso pro Teatro Muncipal do Rio?). Mas eis que em 2007, Bell participou de uma experiência organizada pelo jornal The Washington Post. Ele tocou anonimamente em uma estação de metrô movimentada da capital americana — a L’Enfant Plaza Station, durante o horário de pico matinal. O experimento foi idealizado pelo jornalista Gene Weingarten, que mais tarde ganharia o Prêmio Pulitzer por essa matéria.

Joshua Bell tocou por cerca de 45 minutos, com seu violino Stradivarius de 1713, avaliado em cerca de US$ 3,5 milhões, e executou peças complexas de compositores como Bach e Schubert. No entanto, apesar da qualidade da performance e do prestígio do músico, ele foi praticamente ignorado: mais de mil pessoas passaram por ele, e apenas sete pararam para escutá-lo por mais de um minuto. Ao final, Bell havia arrecadado apenas US$ 32,17 em gorjetas.

Não foi mero acaso escolher esse músico específico para um experimento tão direcionado. Joshua Bell estava em um momento de sua carreira em que suas apresentações atraíam grandes públicos e tinham ingressos esgotados. Por exemplo, poucos dias antes do experimento no metrô de Washington, Bell havia se apresentado no Symphony Hall de Boston com ingressos vendidos por cerca de US$ 100 cada.

Logo depois, em março de 2008, ele realizou um recital no Kennedy Center, novamente em Washington, que teve lotação esgotada, levando os organizadores a disponibilizarem assentos extras por US$ 95 cada, que também venderam mais rápido que sombrinha em dia de chuva.

A ideia de toda essa experiência era refletir sobre a percepção de beleza, o contexto da arte e as prioridades da vida cotidiana. É bem possível que, se Joshua Bell estivesse tocando em outro horário que não fosse o rush que todo mundo tem pra chegar ao trabalho, ou em outro lugar onde não fosse visto como um entrave para a circulação de pessoas, talvez tivesse juntado uma boa plateia.

Quero acreditar que as pessoas valorizam, sim, a arte, principalmente quando têm a oportunidade de prestar atenção e ser movidas por ela. Ao mesmo tempo, adoro a ideia revolucionária da arte que vai ao encontro das pessoas.

O piano na Estação da Luz; o grupo gospel embaixo dos arcos do Central Park; o trio à capella que se apresenta no metrô; a banda itinerante que abre a case do violão em frente ao museu parisiense. Elas surpreendem as pessoas que passam e as brindam com notas que têm o poder de desacelerar os passos e os batimentos cardíacos — nem que seja por um breve segundo.

Seja na lateral de um barco amazônico, na fachada de um mercado ou no metrô de Washington, a arte que brota no cotidiano talvez seja a paisagem mais bonita de todas.

Read the original on imaginaso.substack.com

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