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Prescrita · Nov 6, 2025

Pondo a mão na consciência

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Hupokhondría · Prescrita

Gustavo Burla

Desse modo ficou batizada a pasta de 2025 na nuvem de arquivos dos Estudos Matemáticos, o grupo de estudos literários e escrita criativa do Hupokhondría. Todo ano escolhemos temas com diferentes motivações: necessidade política (distopias), curiosidade de formato (roteiro de cinema), empatia geográfica (realismo mágico), projeto de vida reconhecimento de padrões (literatura policial e, no ano seguinte, a temática na América Latina). Este 2025 foi (está) o ano negro.

Qual a representação/representatividade do negro na literatura brasileira? Escolhemos obras que (nunca) são suficientes para um panorama genérico, e as discussões mensais (intercaladas por encontros de escritas) ampliam o que cada obra oferece. Um defeito de cor, por exemplo, trouxe um bastidor de pesquisa (amparado por entrevista publicada na piauí), o retrospecto histórico da escravatura no Brasil e culminou na indignação expressa em cartas para Kehinde, escrita pelos componentes do grupo de estudos e publicadas na Prescrita de agosto (leia aqui).

As conversas do ano começaram com Lima Barreto, que reacendeu, pelo seu histórico criticamente retratado nos contos, o questionamento sobre a ausência de Conceição Evaristo na Academia Brasileira de Letras (ABL). Ela que fecha o ano no calendário de discussões com Canção para ninar menino grande, tão singelo e doloroso quando os olhares cômicos ou sociológicos que se podem lançar sobre os escritos de Lima Barreto.

Eliana Alves Cruz trouxe para a mesa (sempre regada tematicamente por comes e bebes atrelados às obras em discussão) o histórico familiar em Água de barrela, assim como Jeferson Tenório mostrou como esse histórico bate (ou atira) nas relações profissionais do negro em sociedade (era o momento de escrever o nome do livro quando várias manchetes sobre as ações da polícia do Rio de Janeiro vêm à mente, quase nenhuma falando do avesso da pele).

O ciclo acabou se fechando, posto que, no início das discussões, o melodrama de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, trouxe os sussurros da personagem aparentemente secundária sobre o tráfico negreiro e a condição de despejo (como ressaltou Carolina Maria de Jesus, também discutida este ano) do negro na sociedade brasileira. Ao final, Mata doce, de Luciany Aparecida, retoma o livro de Maria Firmina sem citar o que ele conta, mas grita ao leitor que conhece a obra. Gritos, infelizmente, necessários ainda em 2025, e não apenas no Brasil (mas vamos arrumar a casa primeiro).

Maristela Meireles

A ilustração da Prescrita deste mês é uma homenagem à cosmologia Iorubá, que tem estado muito presente nas leituras do grupo este ano, e em aprofundamentos que faço por admiração e curiosidade genuínas. Peço licença para retratar — com guache e grafite sobre papel + edição digital — a reverência às gerações passadas e a conexão da nossa cabeça com o mundo espiritual.

Que não só no mês da consciência negra, mas durante todo o ano, a gente se lembre das gerações anteriores, que fizeram do Brasil o Brasil, para que possamos aprender, curar feridas e construir um futuro de mais respeito, conexão e reparação.

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Paulo Cesar Silva

Wallace acordou cedo, coisa que não costumava fazer. Estava empenhado na missão daquele 20 de novembro, em que ele e mais um grupo de colegas de classe colocariam sua tese em ação. Desde que Abel, outro aluno da sua turma de direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, apresentara um trabalho, segundo ele, absolutamente vitimista, tinha pegado um ranço maior do que já tinha. O santo não batia com o dele desde os primeiros dias de aula, com sua arrogância, nariz em pé e exibicionismo intelectual. Arrotava Foucault, citava Fanon e mais uma gama de bobajada intelectualoide. “Preto é foda mesmo, quando consegue chegar em algum lugar, tem que se amostrar”, pensava. Porém, também era preto, oriundo de uma família de classe média, que proporcionou a ele boa escola, inglês, música, teatro, esportes e tudo mais que pudesse sonhar ou desejar. Eram funcionários concursados do Estado, que ganhavam dez salários mínimos por mês, o que pôde dar a ele tudo o que não fazia parte da realidade de gente preta.

Seu pai havia sido servente de pedreiro e sua mãe babá, gente preta, trabalhadora que correu atrás, estudou e passou no concurso. “Se eles conseguiram, por que o restante da galera também não consegue?” Eram tão pretos quanto qualquer outro morador desses bairros pobres. Tão pretos como o Abel. “Vitimista do caralho!” E seus pais sempre fizeram questão de dizer a ele que nada vinha fácil, mas “preto é assim, quer tudo na mão”, afirmava a mãe. Debochavam dos parentes que vez em quando pediam dinheiro emprestado, favores e emprego. Nas festinhas a que iam, isso era assunto recorrente. Uma vez, no aniversário do pai, dois tios e uma tia foram não como convidados, mas sim como garçons e, segundo o pai, além de aproveitarem a festa, “ganhavam um trocado”. Mas Wallace mesmo não os viu se divertirem. No fim, ainda sobrou para os tios ouvirem o pai dizer em seu discurso de parabéns que “ele havia prosperado por não ser preguiçoso como o restante da família”. Depois daquele dia, só viu os tios no enterro dos avós, pois o pai dizia que não dava para ir mais à favela para visitá-los, já que, assim que botava o pé no barraco, eles começavam a “pedir as coisas”.

Para a mãe dele foi mais fácil. Cresceu em um orfanato e só quando fez dezoito anos saiu para o mundo. Conheceu seu pai, começaram a namorar e decidiram mudar de vida estudando para um concurso. Sem parentes pedintes e vitimistas. Ela tinha um verdadeiro horror a gente pobre e preta. Dizia que fediam e que “teve que gastar uns seis meses de salário pra tirar a inhaca”. Hoje se orgulha dos perfumes que trouxe da última viagem a Paris, alertando que “só aqueles perfumes para mantê-los livres do cecê de preto”. De certa forma, mesmo que ele risse, replicasse aos colegas de sua idade tais discursos, no fundo de sua alma, aquilo causava uma dissonância em seu ego. A negritude lhes era inerente, não havia como se livrar dela, por que então odiá-la? Todavia, esse pensamento sempre voltava a se aquietar perante alguma efemeridade que o capitalismo pode proporcionar.

Mas, depois do trabalho do Abel, aquela teoria de que até um pobre branco tem mais chances que um pobre preto, um misto de ódio e inquietude o tinha deixado com sede de vingança. Queria mostrar para aquele “preto pé de chinelo” que tudo o que ele havia apresentado não passava de um monte de mentiras de vitimista. Uma pequena conversa que tiveram dias depois daquele trabalho foi a gota d’água. Não podia aceitar ser tratado como inferior, não por ele. “Quem era ele? Um morto de fome da periferia”. Ainda se fossem os outros que moravam nos condomínios da Cidade Alta ou na Zona Sul, tudo bem, eram gente de classe. Mas ele? Aquela conversa o tirou do sério demais.

— Ô ‘garoto-cota’! Não tem vergonha de dizer que tá aqui por cota, Abel?

— Por qual motivo eu teria? Tenho de ser grato, pois se fosse vinte anos atrás seria apenas mais um preto sonhador trucidado pelo sistema racista.

— Meus pais são anteriores à cota, correram atrás e conseguiram um emprego excelente. E apesar de você os chamar de ‘exceções’, são gente negra, trabalhadora que não precisou de migalhas do Estado.

— Mas eles são funcionários do Estado. E o concurso público é uma das formas de gente pobre prosperar.

— Então, o concurso tá lá, é só fazer.

— Sim, mas somente as exceções conseguem superar um dia inteiro de trabalho duro, sono ruim, comida pouco nutritiva... entenda, não estou desmerecendo seus pais, aplaudo eles até. Mas são exceções. A maioria de pobres pretos está à mercê de um caso fortuito. Agora brancos de classe média podem ter um dia inteiro dedicado apenas ao estudo. É justo?

— Mas e os brancos pobres, Abel?

— Pois sim, tem muito branco pobre, mas apenas os pobres pretos descendem de uma linhagem que não teve as mesmas oportunidades. Prestou atenção no meu trabalho? O que eu quero dizer é que todo pobre tem que ter oportunidade, a cota, como tem para branco, que se chama cota de escola pública. Mas a injustiça com nosso povo é muito grande, não acha? Sem essa cota temos de ser especiais, fora-de-série e super-humanos para conseguir subir na vida. Isso é justo, Wallace?

— Cara, você é muito inteligente, o mais foda da sala, reconheço. Por que precisou de cota? Era só colocar sua inteligência para funcionar e pronto. Não há necessidade de cota.

— Pois, é meu caro, eu sou ‘foda’, como você mesmo diz, e acredite, não seria o suficiente. Não faz parte da sua realidade e talvez nem desenhando você vá entender. Mas, mesmo eu sendo culto, inteligente, com facilidade de aprender e reter informações, o dia a dia de oito horas de trabalho duro é muito cruel. O sono e o cansaço no cursinho são sádicos. E até estúpidos como o Mateus e a Aninha são capazes de notas melhores que a minha, pois vivem para isso, o dia inteiro. E na insistência, até cérebros deficitários como os deles são capazes de decorar uma fórmula de Baskhara.

— Então insisto, e os pobres brancos?

— Nossa cor corresponde a 75% dentre os mais pobres, sendo que somos 54% da população. É uma conta absurda. E com todo o peso de não poder ter acesso a coisas que os pobres brancos poderiam ter. Mas pelo jeito não levou em consideração nada do meu trabalho, né? Vamos deixar pra lá, você não tem lastro para continuar esse debate. Falta conteúdo, letramento, realidade e empatia. Não posso te dar isso, nem emprestar. Faça o seguinte, não se preocupe com isso, você achando certo ou errado, pra mim não é nada. Aproveite sua vida de exceção. Se um dia quiser realmente entender tudo isso, faz uma retrospectiva minuciosa de sua existência e perceba que, mesmo na realidade paralela em que o poder aquisitivo de seus pais o colocaram, sinais do racismo te feriram, mesmo você não sabendo de onde vinha o ataque.

Sentado no carro, próximo ao local de encontro da turma que faria uma manifestação ‘anti-vitimismo’ no centro da cidade, Wallace começou a rememorar alguns detalhes de sua vida. Lembrou-se do dia em que a vendedora de uma loja chique do centro havia pegado com força em seu braço, quase o machucando, acusando-o de tentar roubar uma camisa do Homem-Aranha. Sua mãe brigou e a situação foi resolvida com o gerente, que deu a camisa para ele. Aquele mimo o fez deixar o evento de lado e focar apenas na forma de resolver as coisas do capitalismo. Isso puxou a vez em que os “coleguinhas” do colégio onde estudava entoaram por dias a música de abertura de um desenho que dizia “meu amigo da escola é um macaco-caco-caco”. Ele chorou para os pais. O pai dizia que era para entrar na onda, já que era brincadeira. A mãe foi ao colégio e o diretor prometeu fazer algo. Mudou Wallace de turno e assim “resolveu” a pendência. E por algum tempo ficou assim, recordando de eventos que pareciam ter sido apagados por alguma força sobrenatural. Porque se lembrava de que esses eventos doeram e, quando vinham à memória, continuavam a doer. Quando uma mensagem do Mateus, um dos idealizadores da manifestação chegou ao smartphone, veio a lembrança de uma festinha que rolou no primeiro semestre, na casa de uma das meninas, onde começaram a contar “piadas” de preto. Mateus mandou “quando joga um preto pra cima, se voar é urubu, se parar na árvore é macaco, se cair no chão é merda” e todo mundo caiu na gargalhada. Aquilo foi uma estocada em seu ego, pois dizia respeito apenas a ele, único preto na festinha. Mesmo assim riu. Os outros vieram com o “é só piada, mano, conta uma de branco aí, ninguém vai brigar”. Mas deixou para lá. Agora estava com raiva dele mesmo por não ter retrucado. E por que não retrucou?

Ligou o carro, deu meia volta e foi embora. Parado em um sinal vermelho, sentia o rosto pulsar de tanta raiva. Mas não era do Mateus, da vendedora ou dos coleguinhas, era dele mesmo. Se sentia um idiota. Precisava demais conversar algumas coisas com os pais. Antes que o sinal ficasse verde, pegou o smartphone e enviou uma mensagem.

“Fala Abel, é o Wallace. Rola de a gente trocar uma ideia?”

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Mariana Virgílio

Pensar nas dicas para esse mês me fez lembrar da Flip, a Feira Literária Internacional de Paraty, que aconteceu em julho deste ano. Sempre foi meu sonho participar e essa primeira vez foi marcada por muitas descobertas e encontros para lá de especiais. Por isso, aproveito o mês em que é celebrada a Consciência Negra para indicar os livros que eu trouxe na bagagem e têm sido os meus companheiros desde então:

Nossos passos vêm de longe e outras histórias ancestrais, com textos de Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Cidinha da Silva, Ana Paula Lisboa e Luciana Nabuco. Cinco vozes, cinco histórias que desenterram silêncios, expõem cicatrizes e celebram memórias.

Coração de criança não morre, de Sérgio Vaz. O novo lançamento de Sérgio Vaz, um dos maiores poetas brasileiros.

Projeto Querino, de Tiago Rogero. A história do Brasil contada por uma perspectiva de raça. Uma história que foi contada no podcast e que virou livro.

Vozes Negras, de Amanda Condasi, Flor Priscila, Isa Souza, Maria Ferreira e Pétala Souza. Um grito de liberdade de mulheres duplamente silenciadas (pelo gênero e pela cor) que reivindicam seu protagonismo e ampliam suas vozes pela escrita.

Apolinária, de Bianca Santana. Uma jornada de descoberta de uma história particular que se confunde com a de tantas brasileiras.

ABC do amor, de Renato Nogueira. O que a poesia e a filosofia têm a dizer sobre os afetos.

DICA EXTRA: Na topo da minha lista, um dos melhores livros que li este ano (e talvez em vários anos) é a Cor púrpura, da Alice Walker. Esse livro veio do Clube Leituras Decoloniais, do qual participo, e me pegou de jeito. Um extremo de dor e também de um história bem escrita que, sinceramente, só lendo mesmo para entender.

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