“O homem diz que foi acidente, Garcia, diz que jura de pé junto, pela mãe morta dele, que foi por acaso, a bebezinha cair no poço. Pois é, esquisito pra caralho. O Azevedo pegou os vizinhos pra depor. Voltei e vim te ligar. Mas sabe como é: com a farda, se encolhem. A falação come solta, só coisa escabrosa, só a gente chegar que todo mundo se tranca. Vamos ver o que o Azevedo tira, mas vou te falar, eu duvido. Porque de testemunha mesmo não tem ninguém. Só a mulher. Que não me sai da cabeça. Você tinha que ver. Mocinha de tudo, dó demais. Parecia maluca. Disseram que era antes, vai saber. Um filho pequeno, outro na barriga, e aí isso do poço. Tem que encanar a água, porra, tinha que ter na cidade toda, mas não tem jeito, até chegar lá praqueles lados vai demorar. Mal tem luz. Gás, uma vez por mês, se tanto. Só quando o caminhão aparece. Se o caminhão aparece. Às vezes chove, fica pro mês seguinte, e daí pro outro, e enquanto isso o pessoal que se vire, azar o deles que atolam nas ruas de terra pra buscar o gás. E o estado da casa? Nem vi fogão. Tem o lado bom, a mulher daquele jeito, seria até um perigo. Sabe quando a pessoa te olha e você percebe que ela não te vê? Ficou assim, depondo. O pivete sentado, cara escondida na perna da mãe, rechonchudo, a mão toda hora na boca. Dente saindo, sabe? E a mulher lá. Catatônica. Olhando pra mim, vendo coisa. Sei lá o quê. As perguntas? Ah, o interrogatório padrão. Mas a mulher tão siderada, que nem o nome ela me disse direito. Eu igual papagaio, ‘precisamos reconstituir os eventos, senhora’. Nem lúcida me entenderia. Não adiantou nada separar mulher e marido. Eu avisei, mas quem escuta? Quando o Azevedo colheu o depoimento dele, o homem veio e levou ela pro quarto da casa, aí voltou e repetiu pra mim o que disse pro Azevedo. Que naquela hora ele estava longe, lá pro meio da rota do ônibus, depois do centro. Não, não falou, ele nem lembrava mais onde. Disse que na hora do almoço ficou sabendo que uma vizinha tinha telefonado, falou que o menino dele estava sozinho na frente da casa, sentado, chupando um pedaço de pano. A mulher dele desmaiada perto do poço. E nem sinal da bebezinha. Ele correu pra casa, já tinha avisado na firma que a mulher tinha umas crises. Ausências. Quando chegou, as vizinhas deixaram eles sozinhos. Nem precisou pedir. A mulher quieta. Pirada desde quando? Ele disse que percebeu umas feridas nos braços dela. Um galo na cabeça. Mas ele estava fora de si. E a menina? E a menina? A mulher chuvisco. Se a bebezinha estivesse com alguém dali, teriam dito. Na casa, nada. Diz ele que nessa hora pensou em ver o poço. Que o corpo se rasgou por dentro, só de pensar. Ninguém tinha pensado antes. Esquisito, né? Três mulheres escorando a doida até em casa, nem sequer espiaram. O homem que foi lá. Não chorou nem nada ao falar pra mim. Vai saber o que passa na cabeça deles. Lá no fundo, o corpo. Rosto pra baixo. Boiando. Acho que da queda. Fosse comigo, não sei. Acho que eu matava a mulher. Voltava pra casa e dava um tiro nela. Ou em mim. Nos dois. Não posso nem imaginar, Deus me livre. Por isso que dá pra descartar o marido como suspeito, fora o álibi. Diz ele que a mulher está doente. Insistiu. ‘As ausências, eu te disse’. Desde o primeiro filho. Disse que uma vez chegou em casa e encontrou a mulher se sacudindo no chão, por sorte as crianças dormindo, em segurança. Mas eu não sei. Tudo de ponta-cabeça. Todo mundo doido. Moça queimando sutiã, homem de brinco e cabelo comprido. Vai que deu um surto na mulher. Um impulso, uma coisa dentro. Uma raiva. Sei lá. Pra mim tem muito furo nisso aí. Só arquivaria quando souber de fato o que aconteceu. Se souber. Sim, você tem razão. Melhor esperar o Azevedo vir, aí a gente vê. Não é como se o pessoal pudesse ir pra algum lugar. Positivo, Garcia. A gente se fala. Boa sorte com suas encrencas por aí. Metralhadora? No centro ainda por cima? Ih, rapaz. Tudo da turma do homem lá, né? Até. Lembrança pra família.”
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