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Freio de Mão · Jun 2, 2026

Álbum de família

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Henrique Balbi · Freio de Mão

“Sim, foi terrível. O inverno nuclear; a carestia; as multidões a esmo na terra devastada; os falsos profetas, os aproveitadores, os canalhas, os impiedosos; os enxames; a pestilência sobre os campos vazios; as noites de choro e os dias de exaustão. Terrível. Você não se lembra. Talvez seja melhor. É uma dor a menos, a do contraste. Comigo é outra história. O meu tempo está acabando. Talvez seja melhor também. Sim, terrível. Não pensei que seria assim. Quem sabe não é rápido? Um último conforto. Só peço isso. E força para não me punir com os mil arrependimentos, as mil e uma chances perdidas. Por isso eu te chamei.

Procure, por favor. Em gavetas de casas abandonadas. Debaixo das carcaças dos carros. Nos bolsos. No vento. Em alguma toca de algum sobrevivente em algum canto deste planeta incendiado, tem que ter uma figurinha do segundo zagueiro do Uzbequistão. Só faltou ele. Você me promete?”

“Eu só pensava no vovô. Ele ia amar. Pegaria o bolo de papeizinhos dele e se perderia no meio da gente toda. Andaria pelas barracas, sem entender o que ninguém falava, mas apontando para os rostos nos papeizinhos. Falaria dos feitos dos seus heróis. Contaria em detalhes, como fez comigo, sobre os ‘dribles’, o ‘gol’, as vezes que chorou e torceu e conteve gritos e lágrimas quando alguém ia ‘bater um pênalti’. Explicaria para eles isso do ‘impedimento’. E com certeza xingaria o espírito maligno, o terrível demônio, o abominável ‘VAR’. Assim como eu, eles não iam entender, mas porque não falavam a nossa língua. Talvez ele trombasse com outra pessoa enrugada. A pele das mãos dela tão fina quanto a dele, segurando seu próprio bolo de papeizinhos. Imagina, pai? Como será que eles conversariam?”

“A sirene gritava. Era a única coisa que funcionava no navio encalhado, e ainda bem. Puxei meu filho, que tropeçava nos pés, tentando me acompanhar. Quase derrubei a porta do nosso cubículo. Meu pai já acordado. Mal: não conseguia ficar de pé. O menino chorava do barulho, eu puxava a nossa mala de debaixo da cama. O desespero do meu pai. ‘Cadê? Você pegou?’ Peguei as duas garrafas d’água. O canivete. As lanternas. ‘Como você consegue perder alguma coisa aqui, pai?’ O menino se esgoelando. ‘Você mexeu’, disse meu pai, ‘eu sabia onde estava.’ Agachado, olhei meu filho nos olhos. Dei uma lanterna para ele segurar o choro. Funcionou. ‘Pai, isso não é hora.’ Ele tinha se deitado de novo. Tentava puxar outra coisa, presa num canto embaixo da mala. Gente se trombando no corredor, se xingando. Talvez se matando. Ele tinha que andar, mas arfava só de ter se sentado. Na sua mão, uma pasta gorda, de elástico. ‘Aí, ó.’ Não ia dar para levar tudo. Peguei meu filho pelo punho. ‘A gente vai ter que correr.’ Abracei os joelhos do meu pai. Falei para ele respirar fundo. Joguei seu peso em cima dos meus ombros. O corredor ficou vazio e saímos os três – sem mala, sem água, sem canivete. Só a lanterna e a pasta.

‘Quase completo’, disse meu pai, quando enfim caímos exaustos sobre um morrinho de areia. Debaixo de uma manta de fumaça, lá longe, a sirene gritava baixinho. Meu pai mostrava a pasta aberta para o meu filho. Folheava. ‘Não fosse o Uzbequistão...’”

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