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Plataforma D1 · May 21, 2025

Batendo cartão no amor

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Helena Merlo · Plataforma D1

Hoje decidi escrever uma news mais íntima e, por isso, mais difícil. Eu geralmente escrevo assuntos mais íntimos na minha página do Medium, então a dificuldade não está em escrever sobre isso, mas fazer isso numa mensagem que chega nas caixas de e-mails de vocês. Meu compromisso desde que comecei a newsletter é tornar os assuntos do meu cotidiano mais plurais e menos relacionados só a minha pessoa. Acho que é justo com quem lê. Mas, como sou feita de muitas formas expressivas em textos, ainda mantenho esses mais poéticos lá na outra plataforma. Dessa vez, tô aceitando o desafio de trazer pra cá também.

No final de semana de Dia das mãe eu vivi uma experiência que gostaria de refletir sobre ela, porque acho que pode servir para todas as pessoas que também transformam os afetos em serviço. Acho que me abrir aqui, e elaborar esse sentimento é uma ótima forma de fazer ele fluir em mim diferente. Repensar a sensação, já que tentando traduzir ela para vocês, eu também traduzo ela pra mim mesma. Então, bora!

Primeiro, antes mesmo desse final de semana, preciso aqui falar um pouco sobre como se deu a minha estrutura familiar, que eu tenho certeza que é projetável para outras estruturas de relações. Então, entenda que quando falo da minha família, dá para pensarmos na sua família, em alguma amizade que você tem ou até em todas. Nos seus relacionamentos amorosos, no trabalho, etc. Mas, fica aqui uma dica de quem faz terapia há muitos anos, quase tudo tem rastro lá da sua infância. Por isso, eu te pergunto: o que você precisou fazer para que as pessoas responsáveis por seu cuidado na infância te amassem? Ou o que você precisou fazer para que seus pais te amassem?

Cresci numa família ótima e cheia de problemas, como qualquer uma que se tenha notícia nos últimos 1000 anos. Um dos meus problemas era o cuidado. Na ausência dele, eu acabei assumindo esse lugar, então meio que na arte de sobreviver eu virei essa pessoa que cuida de todos e que resolve tudo. (lembra dos textos mais pessoais, temos um Aqui, e outro Aqui, exatamente sobre isso). Acredito que se você é a pessoa que cuida, rapidamente se identificou e já sentiu os calafrios aí atrás da tela. E se você não é, certamente consegue me dizer quem no seu ciclo, desses que eu citei, são essas pessoas. Porque elas são tão óbvias que facilmente as identificamos.

Aquela amiga que tá sempre marcando o rolê, verificando se todo mundo chegou em casa bem, às vezes levando todo mundo em casa, aquela pessoa que pensa no almoço de natal, pede opinião da família, às vezes compra tudo e também prepara. Aquela pessoa na qual todos ligam quando precisam dar as notícias mais difíceis, pois é a única que, veja só, ironicamente atende o telefone, geralmente são ligações sobre doença, morte e dinheiro. Aquela que é ótima pra algo bem comum, que todo mundo pode fazer, mas, magicamente ela é a melhor pessoa pra isso. Naturalmente, quase todas as mães, ou pessoas que cuidam de crianças fazem parte disso. Mas, não vamos entrar nisso hoje. (e claro que eu tô citando isso como atitudes em excesso, pratiquem a gentileza. Ok!)

Nesse final de semana de dia das mães eu fiquei muito cansada, pq acabei fazendo algumas coisas a mais do que eu realmente queria. Na volta pra casa eu me questionei muito sobre aquilo e percebi que a principal mudança tinha que ser a minha. Eu que sempre cozinhei e organizei com muito carinho, principalmente pras pessoas que amo, tinha ficado chateada e irritada. Aí fui refletindo o porquê daqueles sentimentos?

E aqui entra algo muito pessoal, que talvez você também sinta, pq nada é uma experiência única não é mesmo? Eu transformei tanto meu afeto em serviço, que agora sinto que estou sem controle disso. Me percebo não querendo viver e fazer algumas coisas porque eu não quero ser útil. Porque é a única forma que eu aprendi a ser amada. E desfazer isso é muito difícil. Pq significa que eu vou ter que me esforçar pra dizer mais nãos, pra desagradar mais, pra criar conflito em alguns casos. E isso é tudo que uma pessoa adulta menos deseja.

Percebi que tenho ficado com certa aflição e ansiedade de estar com as pessoas que amo e dos momentos de viver experiências com elas. Algo no meu cérebro liga uma chavinha que me faz querer fugir. Pq eu não quero ter trabalho, então prefiro não ter o “amor”. Isso é algo tão profundo e pessoal que nem sei como tô aqui escrevendo. Mas, como imagino que não seja só eu que me sinta assim, decidi compartilhar. Não vem só das pessoas, deu pra compreender? É algo interno meu. (graças as deusas sou cercadas de pessoas muito legais).

É muito importante que se vc se identifique comigo entenda que isso é absolutamente sua culpa, nossa culpa! (mesmo que não seja uma escolha tão consciente). Eu também acho que depois de muitos anos nessa lógica, eu não consigo sozinha mudar isso. E você também não. Então, vou deixar uma dica: avise as pessoas que você ama como você se sente. Explique da forma mais simples possível, de forma direta e vunerável, é a que funciona melhor, leia essa news se você quiser, compartilhe, se ajude. Você precisa de ajuda.

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Agora se você não se identificou, mas reconheceu alguém que é assim. Vai lá e tranquiliza essa pessoa, diz a ela que vc a ama pq vcs vivem coisas legais juntas. E que se ela não fizer nada, só existir e estar presente já seria igualmente legal. Ajude ela a tirar esse peso de precisar estar sempre disponível para servir e que só assim ela será amada. Diga a ela: você não precisa ser útil pra mim! Eu disse que isso é profundo né, você não vai dizer essas coisas uma vez só. É diariamente e continuamente. Construa afetos que respeite e acolha as feridas de quem você ama. (e obvio, que eles também respeitem as suas). Ah, talvez sua pessoainha ainda não tenha consciência de ela faça isso, tenha paciência. Se lembre todas as vezes que vc foi cuidada por ela.

Cuide de quem você ama! (e nessa frase precisa caber a gente mesma)

Para finalizar eu venho com algo bem psicanálise, terapia e tapa na cara! Se você se identificou comigo, uma pessoa que transforma amor em serviço e afeto em estar disponível em excesso, mesmo que isso signifique que muitas doenças que derivam de estresse estejam te atingindo nesse exato momento. Você goza com isso! Você gosta! Tem prazer. É muito bom ocupar esse lugar completamente controlado e seguro onde você tem crédito com todas as pessoas, que todas são gratas a sua existência e que sem VOCÊ nada se resolve. É aqui que moram as ausências!

Por isso, mudar essa lógica é tão difícil. Mas, eu tô te dizendo, amor, afeto e carinho, não podem estar envolvidos no que você pode fazer pelo outro, mas porque vocês construíram uma relação em que da forma mais equilibrada possível (a vida acontece né, não sejamos inocentes) vocês desejam estar juntos e partilhando a vida. E não se preocupe, provavelmente você é sim uma pessoa gentil e prestativa, e mudar esse comportamento não vai extinguir essa característica de você, apenas se permita aos poucos ao desconforto de não agradar. Nem Deus agradou … cê lembra a frase né?

Nós vemos por aqui e por aí …

Beijos, abraços e sorrisos

Helena

Imagem da página de Jaciana Melquiades

Read the original on helenamerlo.substack.com

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