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Plataforma D1 · Apr 9, 2025

A gente não é moderno, a gente é colonizado

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Helena Merlo · Plataforma D1

Não sei se eu deveria dar meus dois centavos nessa discussão, até porque eu acho que não sei muito sobre o tema. Mas, vamo lá, começo esse papo dizendo que: sou uma mulher, cis, hétero, branca e monogamica. Que tem escutado muito sobre a não monogamia e algumas coisas passam pela minha cabeça, por isso, eu decidi tentar escrever algo. Claro, que se você quiser ler sobre isso de uma forma mais aprofundada, ou do ponto de vista de uma pessoa não monogâmica eu recomendaria o perfil da Geni Nuñez, por exemplo, que é psicóloga, escritora e ativista indígena e fala sobre não monogamia nas redes. Foi exatamente um podcast que ouvi recentemente com ela que me fez querer escrever. Ou outros pessoas que falem sobre, por aqui, eu só tenho perguntas e curiosidade. Já aviso (spoiler) que essa news não contém conclusões, só perguntações.

Meu primeiro contato com o termo foi no aplicativo de relacionamento bumble. Comecei a ver nas descrições dos caras a abreviação “não mono” e pensei, qual será essa nova sigla xovém do momento que eu não entendo? Até que dei match com um deles e perguntei o que significava. Foi um ótimo match inclusive, porque ele era muito sábio sobre o assunto e me mandou vários textos, passou horas me contando que abreviação significa não monogamia, e que era uma forma de pensar e viver, que incluia relacionamentos ( porém, muito mais na real). Li todos os textos que ele mandou, argumentei, questionei, conversamos muito. Nos encontramos demos uns beijos e pro meu azar ele seguiu rumo, ou talvez os beijos eram tudo que ele queria. Nunca vou saber!

Nessa época achei que parecia uma boa ideia. Afinal, eu concordo que a monogamia tal como foi fundada, está mesmo fálida. Era o início desse tema pra mim, e a partir daquele match eu comecei a refletir e observar mais sobre. Bom, quando a gente tem acesso e conhecimento, as coisas ganham cena, o assunto chegou nos meus podcasts preferidos, comecei a seguir a Geni e fui me informando, pensando cenários e tentando entender mais sobre o que fazia sentido daquilo pra mim. Sobre o que estava em jogo. Uma eterna curiosa.

Lembro de pensar enquanto lia os textos que eu já concordava com tudo aquilo. Me parecia na real, uma descrição de uma relação saudável. Então, de certa maneira eu pensei: ah legal né, a gente repensa as relações e enquanto faz isso transa bastante com várias pessoas. Brincadeira! Mas, pra mim, naquele momento, essa definição simplista era bem agradável. Eu também queria ter alguém pra amar, alguém que me ame e junto disso muito sexo casual. (talvez eu nem queira, mas não me parece ruim, essa parte, quando penso em um cenário de uma relação longa). Por isso, fiquei bem aberta a possibilidade, saí dando like nos boys que se denominavam não mono e esperando talvez viver algo. O que? Não sei.

Até que certo dia me deparei com algo muito concreto, bem na minha cara: a monogamia. A minha no caso. (risos).

Foto minha

Tudo naquele cenário promissor, virou imediatamente assustador, e a sensação de não saber o que significava aquele envolvimento, me incomodava muito. Obvio, que isso também acontece na monogamia.

Mas, sou uma pessoa de significados, de diálogo honesto e franco. E comecei a perceber que existem muitos lugares que as mulheres ainda buscam acessar. E que, pra gente repensar esses lugares precisa pelo menos ter chance de ter ido lá. Os homens se comunicam muito mal, gozam de privilégios que mulheres nem tem chances de saber o que são. Pensei comigo: nós mal conquistamos o direito de ser respeitada numa relação monogâmica. Como repensar esse cenário se ele nem existe pra nós? Será que justamente repensar pode ser a resposta? Será que a solução é viver de outras formas, já que essa não nos respeita?

Uma vez, questionei um cara não mono sobre ser possível ou não que uma das parceiras dele tenha uma foto com três homens, ou três mulheres, em uma rede social, como a que ele tinha no seu feed. Veja bem, esse pode nem ser o desejo delas, e eu nem tô falando sobre algo moralista de que elas seriam criticadas e tals. Eu tô falando de algo prático mesmo. Pelo menos eu, não conheço três homens legais que topariam posar numa foto como aquela. E nem qualquer outra configuração de pessoas que envolva mais de um homem. Simplesmente porque não existe.

(tá, talvez exista, mas assim, vamos combinar que é uma minoria). Acho que esse pessoal da foto, deve tá muito feliz com a configuração que chegaram, porque falam abertamente sobre o assunto. Mas, é um cenário muito exclusivo. As três mulheres podem até preferir estar com outras mulheres, (quem não prefere né?). Mas, se tratando de algo afetivo, nem todes se descobriram bisexuais (ainda).

Por isso, pensando no que vivo enquanto uma mulher solteira hétero (e no que escuto das minhas amigas e amiges também). Não consigo pensar que existe uma quantidade legal e desconstruída de homens, da mesma forma que eu consigo ver que existe de mulheres. Será que a não monogamia é mais legal para mulheres bisexuais?

Vou citar outro perfil, que fez uma postagem bem legal esses dias, Amores Plurais da Marcela Aroeira, que é psicóloga e escreve sobre não monogamia no instagram. Ela falou sobre algo que pode ser muito incomodo pra nós monogamicas, a quantidade de pessoas parceiras.

Vale a pena relembrar: a não monogamia também pode ser com uma só pessoa. E sabe por que? Porque ela não se restringe a relações afetivo-sexuais, mas a uma escolha de vida que atravessa todas as nossas relações. Vamos pensar numa lógica simples: se a monogamia envolve toda as esferas da vida das pessoa, e não só afetivo-sexual (pense na hierarquia das relações, por exemplo, casal, família, amigos, nesta ordem), a não monogamia, que é explicitamente a NEGAÇÃO da monogamia não pode se fixar somente nas relações conhecidas como “românticas” ou “amorosas” (escrevo entre aspas porque considero essas designações problemáticas). Logo, é possível sim viver a não monogamia se relacionando com uma única parceria afetivo-sexual, porque a ideia está centrada na liberdade e na autonomia das pessoas. E se a sua escolha é se conectar com uma única pessoa, tudo bem. Desde que você respeite a escolha de quem está ao seu lado.

Talvez esse tipo de pergunta que eu fiz pro moço no instagram, só vai vir de alguém monogâmica. Porque na escolha de viver como uma pessoas não monogâmica esse tipo de questionamento nem deve existir (ou talvez exista, não sei). Mas, aí a gente deixa o trem muito delulu. E com pouquíssimo diálogo com a realidade se a gente não conversar com outros grupos. Viva a diferença! Por isso, inclusive, escrevo hoje.

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Eu também queria três pessoas me amando, vivendo experiências …

ahhh, vamos falar a verdade, nem quero.

Eu quero uma pessoa que saiba se comunicar e que construa uma relação massa comigo. Que a gente respeite e entenda os desejos uma da outra e viva de forma livre esse amor, configurando ele de acordo com o que nós faz bem. Isso pode ser a não monogamia, mas pra mim, também é como desejo que a monogamia seja. E tem sido bem difícil achar um alguém monogâmico pra viver isso. Honestamente, eu acho que o problema está no homem hétero cis e no machismo. Se a não monogamia vem pra ajudar a tentar mudar esses machos, então bora, porque precisamos de ajuda de todas as formas possíveis.

Eu sigo dando match com os não mono, porque sou uma pessoa que gosta de viver experiências, ouvir histórias e beijar na boca. Recentemente tive um encontro com outro cara não monogâmico. E dessa vez tive uma experiência mais positiva, deve ter relação com amadurecimento e com o momento de vida, certamente. Mas, sinto que o fato de ele ser não monogâmico, me fez NÃO criar tantas expectativas e esse encontro bateu de forma muito leve. É quase impossível que uma mulher que deseja ter uma relação e está solteira há um tempo não crie expectativas com encontros bons.

São anos assistindo sessão da tarde com comédias românticas impossíveis de sobreviverem a realidade. Socializações nas quais devemos casar pra ser felizes, que precisamos de um companheiro pra ser completas. E eu tô falando muito francamente sobre isso, sou feminista, terapeutizada, poilitizada, mas sim, ainda tenho expectativas no amor. Acho que preciso diferenciar aqui expectativa de idealização né.

Quando falo que não tive expectativas, eu não tô falando de coisas mais simples como: vamos ter química, vai ser massa, vamos conversar depois, vamos transar? Isso tudo, eu pensei. Mas, o fato dele ser não mono e eu mono, fez com que eu entendesse que deveria aproveitar aquele encontro sem exercer sobre ele uma expectativa do que ele poderia se tornar depois. Não pq não queria, mas porque chega uma hora que a gente caminha em direções diferentes e isso estava claro desde o começo.

A idealização, vou pensar dentro do que já li e acredito, na lógica do: e se …

Que é quase sempre algo irreal. Porque quando idealizamos uma relação, de qualquer tipo, ela não sobrevive no cotidiano. Por isso, buscamos maneiras de permanecer pra sempre no imaginário. (isso daria outro texto).

A principal diferença é que a idealização só sobrevive no mundo ideal e muitas vezes só na nossa cabeça. Já as expectativas, podem ser alimentadas por um parceiro, e aí entra a honestidade e o caráter de quem está nesse jogo com você.

O que geralmente acontece: somos adulta né! Na semana que vem tem um boleto pra pagar, um problema real pra cuidar e acabamos deixando as expectativas irem embora, quando elas aconteceram. Isso, claro, quando estamos bem e não entramos em ciladas (isso também daria outro texto).

Mas, nesse encontro, não esperar “nada” desse cara me fez de fato ficar mais leve e menos neurada no pós. Um encontro no museu, um sexo e segue o baile. Acho que a franqueza da não monogamia (quando ela acontece) é algo que as pessoas monogamicas realmente precisam aprender.

Um trecho da fala de Geni Nuñez no podcast que citei me marcou:

“Na gramática guarani a gente não tem pronomes possessivos, e eu fico pensando o modo como uma língua se estrutura é também como um povo vive. [...] Pensar essa ideia de posse é algo que tá tão entranhado nessa língua portuguesa, que é muito difícil falar sem usar os pronomes possessivos, então acho que a própria língua de certa maneira tenta impor um certo tipo de pensamento. Em guarani, em vez de dizer ‘isso é meu’, a gente diz ‘isso está em minha companhia’, então não é uma relação que não se estabelece por via da posse.”

A linguagem é algo que faz muito sentido quando penso nessas novas formas de nomear as coisas e as relações. E a palavra e os sentidos de posse, são muito problemáticos na monogamia. Com certeza temos que refletir mais sobre essa questão. Prinicipalmente porque ela opera sempre em relação a falta de liberdade das mulheres e seus corpos.

A outra convidada do podcast era a psicanalista Vera Iaconelli que também fez uma fala muito boa de onde veio a inspiração pro título de hoje:

“não dá muita vergonha a gente dizer que a grande revolução sexual foi nos anos 1960 e que a gente é muito liberal, que a gente faz um monte de coisa. Quando você lê o livro da Geni, você vê que a invasão do europeu aqui, encontrou em 1500 um povo que tinha uma relação com a sexualidade, que tinha uma relação com o corpo, com diferenças sexuais, totalmente, muito mais moderna do que a gente chegou hoje. A gente tinha um corpo que podia se apresentar nu, sendo que hoje se uma mulher sentar pra dar de mama e tirar o peito é capaz de ser execrada. É muito louco a gente achar que a gente é muito moderninho."

Esse é outro aspecto interessante, conseguir aprender que nós somos colonizados. E nesse caso eu não tô falando só de amor. Tô falando de tudo na sua vida. Nós somos e fomos colonizados e isso interfere fortemente nas nossas formas de agir, sentir, pensar, dizer, nos relacionar e amar.

Eu gosto da ideia de afetos. Que amamos mais pessoas do que aquelas que escolhemos estar junto num relacionamento. E de que não existe uma pessoa mais importamte que todas as outras, A PESSOA. Até porque isso já é uma realidade pra as mulheres, mesmo que não seja necessariamente um homem essa prioridade. E eu queria que os homens também se preocupassem com os filhos e com o cuidado das pessoas em volta. Mas, eu também acho que tem um grande caminho a ser percorrido quando pensamos nesse amor direcionado a mulheres. E quando somos mulheres, em como somos amadas, em como nós mesmas nos amamos.

No fundo, acho bom que exista uma galera aí questionando a monogamia e como ela foi construída, descolonizando os afetos, repensando novas formas de viver e de amar. Mas, também vejo que tem pouca gente sendo honesta de verdade e realmente comprometida com os sentimentos da coleguinha. O que você acha disso?

Eu, sigo monogâmica. E por enquanto, sem o desejo de mudar isso.

Nós vemos por aqui e por aí …

Beijos, abraços e sorrisos

Helena

Montagem minha - na imagem uma escultura de Flávio Cerqueira

Read the original on helenamerlo.substack.com

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