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Cartas do Sasaki · Aug 23, 2026

Seja mais estratégico

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Heitor Sasaki · Cartas do Sasaki

Nos primeiros anos de dados tu erras várias vezes por semana e descobres quase na hora. Alguém mexeu numa coluna do banco e não avisou ninguém, o número não fecha com o que o financeiro tem na planilha, alguém volta dizendo que aquele dado ali está errado. O erro aparece sozinho, e é esse feedback que faz o pessoal aprender tão rápido no começo.

Aí tu vais subindo e o prazo vai aumentando..

O pleno recebe um problema já delimitado, do tipo: a conversão do Produto XYZ caiu e descobre por quê, levanta uma hipótese, testa, e em duas ou três semanas o dado mata a hipótese dele ou não.

O sênior não recebe problema delimitado, ele é quem decide qual problema merece um ciclo, e pra saber se escolheu certo ele precisa de um trimestre inteiro mais alguém disposto a olhar pra trás depois.

Enquanto o trabalho é executar e resolver o que chegou pronto, quem aponta o erro é a própria coisa. Ninguém precisa te falar nada pra tu ficares sabendo.

Do sênior pra cima quem dá feedback passa a ser gente, e gente corrige tarde ou nem corrige, e ainda tem política no meio. O que chega na avaliação é que tu precisas ser mais estratégico. Guarda essa frase que eu volto nela.

A primeira coisa que piora isso é ninguém voltar. Passou o trimestre, a agenda de todo mundo já está cheia com o trimestre novo, e não existe reunião marcada pra revisar a decisão antiga, porque essa reunião não é de ninguém. Não tem dono, então não acontece.

A outra é o resultado chegar e já não conseguir ser útil pra ninguém. Se não ficou escrito antes o que a gente esperava e o que faria a gente mudar de ideia, qualquer coisa que tenha acontecido encaixa na história que já estava na cabeça.

Deu certo porque a escolha foi boa. Deu errado por causa do mercado, ou do time que mudou no meio. As duas servem e ninguém tem como saber qual é a verdadeira, e aí aquilo vira só uma coisa que aconteceu.

O que te fez sênior foi errar e descobrir. Cada vez que tu esperavas uma coisa e veio outra, tu foste atrás do motivo e a explicação ficou contigo. Depois de uns anos são dezenas guardadas, e por isso hoje tu olhas um número estranho e em dois segundos já tens três palpites, enquanto quem está começando tem um ou nenhum.

E o que te deu esses palpites para de funcionar no dia em que tu és promovido por ter eles.

Daí vem uma coisa que eu aposto que tu já vistes ou já fizestes. O sênior continua pegando chamado que não era dele, arrumando a query com a própria mão em vez de passar pra frente, voltando pra pastelaria de dados de onde ele já tinha saído.

A explicação que sempre aparece é que o time está apertado, e às vezes está mesmo. Só que tem uma razão embaixo que é mais forte, e é que aquele trabalho ainda responde. É o único lugar que sobrou onde ele descobre na mesma semana se estava certo.

Se tu estás nesse lugar agora, a primeira coisa que eu queria te dizer é que tu não ficaste pior. O que mudou foi de onde vinha o feedback, e ele parou de chegar sozinho.

O desconforto também é esperado. Tu passaste anos tendo resposta em horas, aí de repente tu tomas uma decisão e não acontece nada visível por meses. A cabeça lê esse silêncio como não estar produzindo, e é aí que vem aquela vontade de abrir um chamado e resolver alguma coisa concreta antes do fim do dia.

Sinceramente, todo mundo que eu conheço que subiu passou por isso. Enquanto a pessoa achar que o problema é ela, ela vai continuar descendo um degrau pra se sentir útil.

Essa frase aparece em avaliação e a gente fica “???, o que eu faço??”

A palavra é do exército, e lá o sentido é simples. Tática é ganhar o combate que está na tua frente. Estratégia é escolher em quais combates entrar e saber o que cada um deles muda no resultado lá na frente. Traduzindo pro nosso trabalho, é conseguir dizer pra que serviu cada entrega tua. O relatório de churn ficou pronto, e mudou o quê? Se ninguém souber responder, aquilo foi tática, bem feita e solta.

Pouca gente registra pra que serviu cada trabalho. A entrega tem data, tem arquivo, tem o teu nome. O que ela mudou não fica em lugar nenhum. Então o teu gestor não tem dado nenhum sobre a tua estratégia, ele tem dado sobre a tua produção, e quando ele diz que tu precisas ser mais estratégico ele está dizendo que não achou onde olhar pro teu julgamento.

Ele também não está de má vontade. Está um degrau acima no mesmo problema, com correção ainda mais lenta que a tua, e te avalia por dois ou três momentos em que por acaso te viu decidindo. A amostra é minúscula, e não adianta pedir pra ele ser mais específico, adianta aumentar a amostra.

Tem uma leitura comum dessa frase, que é a pessoa achar que precisa falar mais em reunião. Falar em reunião ajuda mesmo, e o pessoal valoriza bem mais do que a gente imagina. O que muda é o que tu levas pra lá. Chegar contando o que fez e o que entregou é relatar tática. Chegar dizendo no que o time está apostando, o que faria essa aposta mudar, e o que apareceu na semana que mexe nisso, é falar de estratégia usando o mesmo tempo de fala.

Não tem prática que resolva isso numa semana, e o que existe são coisas pequenas.

A que tem mais custo-benefício é entender onde o teu trabalho entra no que o teu time e os times ao redor estão tentando fazer esse ano. A maior parte das pessoas sabe o que entrega e não sabe dizer em qual iniciativa aquilo cai, nem o que a operação, o comercial ou o produto está tentando resolver no mesmo período.

E isso nem sempre está escrito em lugar nenhum pra tu consultares. Tem que ir conversar (ir ao gemba). Marcar meia hora com quem toca a iniciativa do outro time, perguntar o que eles estão tentando fazer, o que está travando, e o que eles fazem com o que sai de ti ou do teu time.

Isso mata logo 2 coelhos com uma cajadada.

A primeira é a correção que tu paraste de receber. Ninguém vai levantar da cadeira pra te contar que a tua análise não mudou nada lá. Quando tu vais lá e perguntas, tu descobres, e descobres em semanas em vez de descobrir num trimestre ou nunca.

A segunda é o update. Quando tu sabes em que iniciativa a tua entrega cai, o update pro teu gestor deixa de ser lista de atividade e passa a ligar o que tu fizeste com o que a empresa está tentando fazer. É essa ligação que ele estava procurando quando disse que tu precisavas ser mais estratégico, e cada update desses aumenta um pouco aquela amostra minúscula que ele tem de ti.

Então, pra começar tenta só fazer o seguinte:

Antes de pegar a demanda, tenta escrever num arquivo (pode ser teu BRAG Doc) pra que aquilo serve e pra quem, o que só dá pra responder se tu souberes o que está rolando ao redor.

Isso tudo pesa mais em empresa grande. Em startup o ciclo é curto, tu decides numa segunda e na sexta já sabe se deu ruim, e o tanto de coisa que volta pra te corrigir por semana é parecido com o do teu primeiro ano de carreira.

Muita gente que gosta de trabalhar em startup gosta exatamente disso, mesmo sem nomear assim, porque a resposta chega antes de a pessoa esquecer o que tinha feito. E quem faz o caminho contrário, saindo de startup pra empresa grande, sente essa diferença logo nos primeiros meses.

Só que tem um limite pra isso ser bom. Se a coisa que tu observas oscila naturalmente toda semana e tu decides toda semana em cima dessa oscilação, tu viras o cara do funil do Deming, ajustando a mira a cada tiro e entregando mais caos do que se tivesse ficado quieto.

Sair da tua mesa pra perguntar o que os outros estão tentando fazer toma tempo, e no começo dá aquela sensação de estar incomodando. Tem gente que não quer, e eu entendo.

Mas é a vida, depois de certo degrau ninguém vai te dizer nada. O feedback que chegar vai ser o que tu foste buscar.

Heitor Sasaki

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