Fim de inverno pede vinhos que equilibram calor e frescor. A vitrine desta semana foi montada exatamente com essa intenção: garrafas expressivas, com caráter mediterrâneo, que combinam com o momento em que o ano começa a virar.
A curadoria desta semana percorre dois territórios com personalidades opostas e um resultado surpreendentemente parecido: a Garnacha espanhola com sua leveza paradoxal e o Pinot Noir em uma versão que não tenta imitar nenhum clássico. Três garrafas para quem quer explorar sem complicar.
Cor rubi vibrante, frutas vermelhas frescas, floral e especiado. A Garnacha em sua expressão mais viva: leve, fresca e impossível de ignorar.
Elegante e translúcido, com identidade própria. Uma versão de Pinot Noir que não precisa se comparar com nenhum clássico. E é exatamente por isso que surpreende.
Uma Garnacha com mais concentração e profundidade. Corpo médio-alto e taninos presentes mostram um lado da uva que o mercado costuma subestimar.
A estrela desta semana não precisa de apresentação. Só de um final de tarde disponível. El Picoteo Tinto é o vinho para abrir conversas, não para encerrar refeições formais.
Garnacha e Pinot Noir: duas uvas que escolheram a leveza quando o mundo queria peso
Nos anos 1990, o mercado de vinhos tinha uma preferência clara: tintos encorpados, concentrados, com passagem generosa por carvalho. Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah. Uvas que entregavam o que o crítico Robert Parker chamava de “intensidade”. Pontuações altas. Garrafas pesadas. Sabor que preenchia a boca toda.
A Garnacha e o Pinot Noir foram os que recusaram o convite.
A Garnacha, de origem aragonesa, espalhou-se pelo Mediterrâneo durante séculos com uma proposta completamente diferente: leveza, expressividade, frescor paradoxal mesmo no calor do sul da Espanha e do sul da França. Em videiras velhas, ela entrega concentração, mas nunca abre mão da elegância.
O Pinot Noir nunca aceitou ser outra coisa. A uva mais difícil de cultivar do mundo não tem interesse em parecer um Cabernet. Prefere ser uma versão perfeita de si mesma: transparente, delicada, com uma acidez que preserva a fruta por décadas.
O Turbio Garnacha e o Turbio Pinot Noir vêm de um projeto que entendeu exatamente isso: fazer vinhos que têm algo a dizer, sem precisar gritar para ser ouvidos.
Para o fim de inverno, é exatamente o que o momento pede.
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