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SOC TUM POW · Jul 8, 2026

Valei-me, minha Santa Aquerupita!

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Gustavo Vícola · SOC TUM POW

Mesmo sendo entusiasta de festas de rua, não tenho disposição para encarar o empurra-empurra dos festejos mais concorridos de São Paulo, mas eu toparia a muvuca da famosíssima Festa de Nossa Senhora Achiropita se fosse para ver o Fera comendo uma macarronada da nonna. Por mais absurda que pareça a cena é nela que penso quando vejo o x-man soltar seu famoso “Ai, minha Santa Aquerupita” nos gibis. Essa é a tradução nada literal do bordão “Oh, my stars and garters”, que vem sendo dito pelo herói desde meados dos anos 1970 e que, no Brasil, acabou rendendo homenagem a popular festa italiana do Bixiga.

“A festa rola até hoje, mas, nos anos 1980, era sempre assunto nos telejornais. As editorias gostavam do tema, com muita comida, algazarra. Tudo muito calabrês”, relembrou o tradutor João Paulo Martins, o Jotapê. Responsável pela tradução de HQs da Marvel e DC na década de 1980, quando elas começaram a ser lançadas pela Ed. Abril, Jotapê foi um dos responsáveis por organizar a cronologia do Universo Marvel em nosso país. “Na época em que a expressão ‘Oh, my stars and garters’ apareceu para mim, eu já havia lido tudo do Fera quer nos X-Men, quer nos Vingadores.”

O fã e tradutor estava atualizado com os quadrinhos da época, um período em que o Fera mantinha laços com sua equipe de origem, os X-Men, ainda que estivesse mais comprometido com seu novo grupo, os Vingadores. Foi na série da nova equipe do herói, aliás, em que estreou a frase que se tornaria seu bordão.

Cunhada pelo roteirista Steve Englehart, ela estreou em abril de 1975, em The Avengers 137, edição em que o mutante se oferece para preencher a vaga de membro dos Vingadores. Surpreso por ter superado uma série de obstáculos para salvar os novos aliados, Hank McCoy diz “Oh, my stars and garters!” pela primeira vez. “Sinceramente, eu não fazia ideia de que ‘Oh, my stars and garters!’ tinha se tornado parte do repertório do Fera”, revelou Englehart ao SOC TUM POW.

O bordão só voltaria a aparecer em The Avengers 147, de 1976, em que os Vingadores são surpreendidos pela chegada de um grupo adversário em mais uma trama escrita por Englehart. É, aliás, com essa história, publicada no Brasil dez anos depois, que o Fera ganhou seu famoso “Ai, minha santa Aquerupita.”

Tentativas e o acerto
A frase original já tinha aparecido em outras três ocasiões durante a produção dos gibis da Abril, a começar por Superaventuras Marvel 20 (fevereiro de 1984), edição que trouxe The Uncanny X-Men 125 (1979), mas na qual a fala do Fera é traduzida simplesmente como “Minha Nossa Senhora!”

Detalhe da mesma história em The Uncanny X-Men 125 e em Superaventuras Marvel 20

Não que Jotapê estivesse desatento, o fato é que a tradução era complicada mesmo. “A expressão tem a ver com os cavaleiros da Ordem da Jarreteira. Pelo menos, foi o que minha breve pesquisa em uma jurássica enciclopédia da época, a Barsa ou a Enciclopédia Britânica, conseguiu desenterrar”, relembrou o tradutor remetendo à ordem militar da cavalaria britânica cujo nome original é Most Noble Order of the Garter.

A pesquisa deu um norte para Jotapê, que concluiu que a frase só seria dita por “um sujeito muito pedante ou por um erudito bem-humorado e irônico como o Fera”. A conclusão veio logo: “Supus, então, que era algo antigo, pouco usual no dia a dia e por isso inusitado. Era mesmo o tipo de expressão que só se ouve da boca do vovô ou de um intelectual muito letrado e divertido. A cara do Fera.”

Jotapê estava no caminho certo ao pensar que aquela frase viria da boca de uma pessoa idosa, como revela o próprio Englehart. “Eis o grande segredo: eu roubei essa expressão do Tio Patinhas. Ele costumava dizê-la nas histórias de Carl Barks que eu lia quando era criança”, confessou-me o autor, que explicou um pouco mais sobre sua escolha: “Ela me encantou naquela época e, quando escrevi meu primeiro super-herói, ela simplesmente pareceu combinar com seu senso de humor excêntrico.”

No Brasil, o tradutor da Abril sequer imaginava as motivações de Englehart, cabendo a Jotapê continuar quebrando a cabeça. Na segunda aparição da frase em uma publicação da Abril, em fevereiro de 1985, em Grandes Heróis Marvel 7 (que trouxe The Uncanny X-Men 136), Jotapê arriscou. “Ai, minha Santa Paramércia”, disse o Fera ao ser surpreendido seminu por uma massagista alienígena em seus aposentos.

Detalhe de The Uncanny X-Men 137 e da mesma trama em Grandes Heróis Marvel 7

Um ano depois, em fevereiro de 1986, a Abril publicou Heróis da TV 80 (The Avengers 153) em que Jotapê traduziu “Oh, my stars and garters” pela terceira vez, retomando o simples “Minha nossa Senhora”. Por fim, Capitão América 81 trouxe a antiga história de The Avengers 147 e Jotapê teve que se haver pela quarta vez com “Oh, my stars and garters.”

Àquela altura ele entendia muito bem o comportamento e personalidade do Fera e, enfim, chegara a uma solução: “Eu ouvia o Hank McCoy na minha cabeça. A química entre ele e Magnum era a mesma de Roger Moore com Tony Curtis na série de TV The Persuaders [1971-1972]. Busquei, então, nas minhas referências alguma coisa que fosse inusitada, fora de moda e divertida.” Foi quando “Ai, minha santa Aquerupita” surgiu.

A grande atenção da mídia dada à Festa da Nossa Senhora Achiropita, que Jotapê já tinha visitado algumas vezes, ajudou-o a chegar à decisão final “aportuguesando” o nome da santa. “Daí ‘Ai, minha santa Aquerupita’, que, na boca do Fera, soava debochadamente pernóstica”, revelou.

O esforço de Jotapê em encontrar uma tradução que melhor captasse a essência da frase e o humor do herói o levou a caminhos sofisticados e resultou em uma tradução bastante afetiva. Graças a ela, há quarenta anos o Fera vem conquistando cada vez mais o público não apenas a seu carisma, mas também pelo bordão que, para nós, brasileiros, sempre sugere que, em algum momento, poderemos encontrá-lo no Bixiga com os pelos azuis sujos com molho de tomate.

É apenas em Capitão América 81 , que trouxe a história de The Avengers 147, que a Santa Aquerupita aparece pela primeira vez nas palavras do Fera

* Agradeço ao leitor e assinante da SOC TUM POW Felipe Damorim pela ajuda na conferência das edições da Abril

Esta foi a SOC TUM POW 167. Cada edição apresenta a capa de algum gibi ou publicação especializada de mesmo número. Para essa edição escolhi a capa desenhada por John Byrne para a revista jornalística The Comic Reader 167, publicada em abril de 1979. Alguns anos antes, em 1975, os X-Men originais deram lugar a uma nova geração de heróis: Banshee, Colossus, Noturno, Tempestade e Wolverine. Cada um foi apresentado com um visual único na ocasião, mas na capa de The Comic Reader 167, Byrne, que era o desenhista regular da série dos mutantes, fez a brincadeira de apresentar os “novos X-Men” trajando os uniformes da equipe original.

E para quem curte ver a magia acontecendo, eis a arte original dessa ilustra de Byrne:

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Nessa semana rolou sorteio do álbum Gone, cedido pela Poptopia. Essa é a primeira graphic novel autoral de Jock, autor renomado e premiado por seu estilo artístico, e que, nessa história de ficção científica, arrisca-se também como roteirista.

A trama acompanha os anos de Abi vividos como clandestina dentro de uma faraônica nave espacial. As angústias vividas pela saudade da família, os riscos à sua sobrevivência no espaço e a participação de uma célula rebelde dentro da nave são o foco da narrativa.

O leitor que anseia por encontrar Jock em um de seus melhores momentos como artista ou que deseja apenas embarcar em uma história de ficção científica se sentirá satisfeito. Mas quem precisa de conexão com as personagens para se envolver precisará esperar mais um pouco até o talento de Jock como roteirista se equiparar ao seu talento como artista.

Gone é uma publicação da editora estadunidense DSTLRY, que privilegia trabalhos autorais e foi fundada por alguns nomes de relevo da indústria, como o próprio Jock. Lançada no Brasil em fevereiro, está à venda no site da Poptopia.

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