Não sei de quem eu tomaria partido se visse dois fãs discordando sobre a cor do Fera. Com as lentes de hoje é fácil dizer que a pelagem do herói é de um belo e nítido azul, como se vê em Anomalia, o atual arco do gibi X-Men, em que é mostrada em toda sua glória azulada na paleta do colorista Fer Sifuentes-Sujo. Mas meio século atrás, quando o Fera passou a desfilar com sua pelúcia ora preta ora azul, a certeza sobre sua cor não era tão grande.
Em 1975, o Fera vinha sofrendo mudanças radicais em aparência e em essência. Ele passara a ser representado como um dos monstros da Marvel e, ao contrário do que manda a lógica, não integrou a versão recém-reformulada de sua equipe de origem, os X-Men, e sim os Vingadores. Em algum momento no meio de tudo isso, como um gato de rua que entra furtivo em casa certo de que não está sendo visto, o visual azul de Hank McCoy se esgueirou entre as páginas dos gibis achando que ninguém estava notando.
Sim, era preto!
Resgatado do limbo editorial em que amargava há quase dois anos (desde janeiro de 1970), o Fera tinha sido reformulado no fim de 1971 como uma criatura monstruosa, dando vazão aos anseios da Marvel de molhar o pezinho nas águas pantanosas do terror. Se ele tinha passado a década anterior como um super-herói genérico, entrou nos anos 1970 como um ser monstruoso, de braços longos, feições bestiais e com o corpo coberto por pelos acinzentados, assemelhando-se a algo entre um lobisomem e um símio.
Essa transformação se deu na edição 11 de Amazing Adventures (dezembro de 1971), título bimestral que, pelos meses seguintes, empregaria uma abordagem sombria ao personagem, que vinha trilhando carreira solo. Mas o editor-assistente Roy Thomas acreditava que um clima ainda mais lúgubre aumentaria as vendas: “É por isso que os pelos do Fera ficaram ainda mais escuros no meio do caminho. Porque seria mais ‘assustador’”, disse-me o roteirista Steve Englehart relembrando a conversa que tivera com o antigo chefe. “Eu sabia que Roy queria o Fera ainda mais sombrio.”
O então roteirista da série do herói tratou de seguir a orientação e transformou os pelos acinzentados de Hank McCoy em pretos, marcando a segunda transformação do personagem. Na trama em que ocorre a mutação, o Fera se assusta com sua nova aparência e se desespera: “Meus pelos! Deixaram de ser cinza! Estão pretos!”
O desenhista Tom Sutton tentou atender à demanda de Thomas recorrendo à maneira tradicional de se representar algo predominantemente preto nos quadrinhos: empregar iluminação azul para marcar contornos, texturas e volumes da área escura. É a mesma solução aplicada, por exemplo, nos cabelos do Superman, na pele do Venom, na pelagem de um gorila e, como se deu a partir de Amazing Adventures 15 (agosto de 1972), nos pelos do Fera.
Para todos os efeitos, o ex-x-man transformara-se em uma criatura sombria, totalmente preta, mas a estratégia parece não ter impactado as vendas. Sua série em Amazing Adventures foi cancelada na edição 17, em dezembro de 1972, e ele foi para a geladeira mais uma vez.
Azul por acaso
Hank McCoy só voltou a ganhar relevância quase três anos depois quando Englehart, que escrevia a série dos Vingadores, convocou o herói para se unir à equipe a partir de The Avengers 137 (abril de 1975). É nesse momento em que a pelagem do Fera começou a se fazer de sonsa.
Seu visual de pelos pretos foi mantido, mas o desenhista da edição, George Tuska, e o arte-finalista Vince Coletta suavizaram o aspecto sombrio criando muitas áreas azuis em meio a todo aquele negrume. Para quem sabia que aquele Fera vinha de Amazing Adventures, era fácil enxergar um personagem de pelos pretos – ainda que estivesse distante da versão trevosa de Sutton –, mas quem não estava atento às mudanças foi surpreendido por um monstrão peludo azul.
O tom mais leve ficou ainda mais evidente quando George Pérez assumiu como artista da série em The Avengers 141 (agosto de 1975). Com seu traço firme e bem delineado, e com seu estilo jovial, Pérez apresentou um Fera bem menos sombrio, com menos elementos em preto e mais áreas claras que, como era de praxe, foram coloridas de azul.
O herói tornara-se claramente azul, mas ninguém falava disso no gibi, o que não significa que a mudança tenha passado despercebida. “Obviamente eu notei quando os pelos do Fera mudaram de cor, mas como foi uma decisão editorial acabei não abordando isso nas histórias. Isso, afinal, não era um elemento da trama”, revelou Englehart.
Até mesmo nas capas a pelagem do Fera estava mudando. Nas primeiras com sua participação, como The Avengers 137, de autoria de John Romita, seus pelos eram bem escuro. Mas quando elas passaram a ser desenhadas por Gil Kane, a partir de The Avengers 142, o Fera começou a ser mostrado tão azul quanto o uniforme do Capitão América. Estava difícil para algum leitor defender que aquele era um monstrão todo preto, mas mesmo assim a confirmação por parte da Marvel não vinha.
Foi apenas em agosto de 1976, em The Avengers Annual 6, que Gerry Conway, sucessor de Englehart na série dos Vingadores, tirou os leitores do escuro. Em um combate contra o colega de equipe Magnum, o Fera se preocupa com o poder do oponente e assume: “Ele é poderoso o suficiente para transformar esse mutante aqui em confete azul”. Algumas páginas depois, temendo o avanço de uma multidão enfurecida, Fera faz outra referência à sua pelagem: “Provavelmente, querem um chumaço de pelos azuis de lembrança.” Coincidência ou não, a edição foi desenhada por Pérez.
Posteriormente, surgiram explicações diversas para a mudança, mas o fato é que nenhuma foi dada na época. Então, se você não souber responder como e quando os pelos do Fera se tornaram azuis, não precisa se envergonhar por não saber a resposta. A Marvel não sabia. Talvez ninguém saiba. Basta saber que esse visual peludo e azulado vem aquecendo nossos corações há meio século, sempre que olhamos para aquele que talvez seja um dos personagens mais queridos das HQs de super-heróis.
Se quer saber mais sobre como o Fera ganhou sua aparência bestial, o texto abaixo é para você. Divirta-se!
Esta foi a SOC TUM POW 169. E essa é a capa de The Mighty Thor 169 (1969). Não sei qual foi a ideia dos envolvidos, mais especificamente do editor Stan Lee e do desenhista John Romita, autor de parte da imagem, mas essa imagem me fascina. De toda ela, coube a Romitão desenhar “apenas” o Deus do Trovão no centro e a silhueta de Galactus, enquanto as cenas ao redor são quadros retirados dessa mesma edição desenhados por Jack Kirby e finalizados por George Klein. Sou particularmente capturado pela forma vazia de Galactus com seu contorno firme, que, não à toa, está vazia. Afinal, The Mighty Thor 169 traz a parte final da origem do vilão e cabe ao leitor montar o quebra-cabeça com as imagens oferecidas. No fim, a capa é um convite a passar um bom tempo na boa companhia de John Romita e Jack Kirby tentando imaginar o que teria acontecido no passado do Devorador de Mundos.
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