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Vestígios de um Flâneur · Mar 30, 2026

O Zen por trás de Leminski e Orides Fontela 🧘‍♂️

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Gustavo Dutra · Vestígios de um Flâneur

No ano de 2025, o homenageado da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) foi Paulo Leminski. Este ano, a honra cabe a Orides Fontela, o que me fez revisitar sua obra e notar algo que me escapara anteriormente: ambos os poetas estudaram o budismo e se aprofundaram no Zen. Não por acaso, possuem uma conexão muito forte com o Haicai, também chamado de Haiku. Nesta edição, quero explorar um pouco mais essa ligação!

A tradição do Haicai surge no Japão com Matsuo Bashô (1644 — 1694), considerado um monge Zen andarilho que vivia de doações. Seus versos carregam um forte teor imagético e a ausência do “eu”: há pouco ou nenhum movimento, sem sentimentalismos ou expressões internas do ser. Muitos poemas são descrições puras de uma cena que, por si só, ressoa no leitor.

Um exemplo clássico de Bashô:

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o velho tanque:
o mergulho da rã
barulho d’água

Este é um dos poemas mais famosos do mundo, tendo inclusive conquistado uma página dedicada apenas a variações de traduções e releituras, que você pode conferir aqui.

Guilherme de Almeida (1890 — 1969) trouxe brasilidade ao verso, utilizando rimas e conferindo ao conteúdo um tom mais irreverente. Um aspecto que me chama a atenção é como o título funciona como uma chave de interpretação: para captar toda a essência, basta reler o título após o poema. Veja estes dois exemplos:

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INFÂNCIA
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se “Agora”.
*
ROMANCE
E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.

Depois de Guilherme de Almeida, chegamos a Paulo Leminski. Ele desmonta a composição métrica rígida, mas mantém a rima ocasional e traz um ar de “slogan” ou ditado popular, transformando o poema em uma brincadeira com as palavras:

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a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece
*
confira
tudo que respira
conspira

Em alguns casos, a brincadeira se torna pura aliteração. Observe o jogo com as letras “t”, “r” e “v” abaixo:

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bateu na patente
batata
tem gente
*
verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida

Orides Fontela (1940 — 1998), por outro lado, incorpora o vazio e o silêncio como matéria-prima. Em sua Poesia Completa (Hedras, 2015), encontramos diversos poemas curtos que dialogam diretamente com a estética do Haicai:

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O anti-césar
Não vim.
Não vi.
Não havia guerra alguma.
*
Metafísica (ou da metalinguagem)
O que é
o que
é?
*
Lago
Lua pen
       dente
lua tre
       mente
nas águas
       vivas.
*
Da poesia
Um
gato tenso
tocaiando silêncio

Mais do que ao Haikai, Orides se conecta profundamente ao budismo, utilizando termos e conceitos da tradição para expor sua compreensão de mundo:

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Maya
A mente
mente
e o corpo
(ah)
consente.
*
Noturno
O silêncio sem cor nem peso
(vacuidade) sustenta
agudas sementes — júbilos —
da lucidez nunca
                             extinta.
Grandes estrelas fixas.
*
Gatha
O vento, a chuva, o Sol, o frio
tudo vai e vem, tudo vem e vai.
Tenho a ilusão de estar sonhando.
Tenho o manto de Buda, que é nenhum.

Maya pode ser traduzida como “ilusão” ou “delusão”. É o termo que define nossa percepção distorcida do mundo, já que as coisas raramente são como pensamos. O conceito está interligado ao de vacuidade, presente no segundo poema.

A vacuidade indica que nada possui uma natureza intrínseca e imutável. Por exemplo: um copo não é, essencialmente, apenas um copo, pois pode servir como vaso ou objeto de decoração. Enxergar o objeto apenas como “copo” (limitando sua natureza) é estar sob o efeito de Maya.

Gatha, cujo conceito eu não conhecia, refere-se a textos ou expressões poéticas com ensinamentos budistas. No poema de Orides, a ideia de que tudo “vem e vai” é um gatha sobre a impermanência — a condição de que tudo o que nasce, morre.

Achei essa ligação entre os poetas muito instigante. Como estudante de budismo, alegra-me ver como a filosofia influencia e influenciou obras de artistas tão reconhecidos. Estou ansioso pela FLIP e por mergulhar ainda mais no universo poético de Orides Fontela.

Apesar de este texto ser breve, espero que ele desperte o seu interesse em conhecer a obra desses autores. Portanto, sinta-se à vontade para responder a este e-mail com seus comentários e observações! :)

Boas leituras (sejam elas quais forem) e até a próxima!

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