Sempre tive grande simpatia por Hilary Putnam, muito embora nem sempre concorde com suas posições. No entanto, no caso específico de Putnam, isso é até uma vantagem. Isso porque, para além de suas grandes contribuições para uma variada gama de problemas e temas filosóficos, incluindo um dos artigos mais clássicos da filosofia no século XX, Putnam ficou especialmente famoso por constantemente mudar de ideia. Mas divago.
Dia desses li um artigo citando seu ótimo livro sobre o colapso da dicotomia fato e valor (The Collapse of the Fact/Value Dicothomy and Other Essays) e voltei a ele. Putnam ataca um dos dogmas contemporâneos que informa grande parte da visão standard sobre as ciências naturais e seus impactos na sociedade (assim como em uma epistemologia social), a saber, que o conhecimento (científico) é tanto melhor na medida em que afasta-se do compromisso com valores. A pressuposição virtualmente indefensável é que fatos são objetivos e independentes dos sujeitos, ao passo que valores não são senão expressões dos sujeitos que os enunciam. Assim, a contaminação daqueles por esses ameaça a integridade do primeiro. Um bom exemplo disso são as tabelas ou pirâmides de evidências de Medicina Baseada em Evidências cujo estabelecimento de padrões-ouro (meta-análises de ERCs) está diretamente ligado ao afastamento de vieses que podem ser entendidos também sob o signo de contaminações subjetivas.
Um dos problemas dessa distinção feita a laser é a consequente incapacidade geral de compreender a faceta moralmente sensível de posições epistêmicas em ciências, sobretudo quando elas tocam em temas socialmente relevantes (também já escrevi aqui sobre como Latour igualmente questiona tal distinção). Note que a corrente distinção - pejorativa para o segundo termo - entre “fato” e “opinião” geralmente procura espelhar aquela separação. Para ver o problema disso, basta ver que virtualmente qualquer tipo de consideração ética normativa, como “homicídios devem ser punidos” ou “tortura recreativa de bebês deve ser proibida”, cai sob a égide da opinião e, a seguir a vontade dos que vira e mexe fazem uso dessa diferenciação, por não serem fatos, essas duas últimas proposições não podem ser consideradas verdadeiras em sentido epistemicamente forte (para não dizer que, talvez, estejam para além do propriamente racional…). Mas divago novamente.
O ponto é que encontrei o vídeo abaixo, no qual Putnam comenta sobre tal distinção, mas faz um comentário colateral que achei ainda mais importante:
Próximo ao minuto 2:00 do vídeo, Putnam diz:
So this is, we’re talking here about a case where the problem with just giving up on philosophy is bad philosophy is omnipresent. You know, if we gave up talk - if we professional philosophers gave up talking about philosophy, your novelists wouldn’t, your physicists wouldn’t, your biologists wouldn’t, your self-promoted god-knows-whats wouldn’t and we would be deluged in nonsense. We will be deluged in nonsense but at least there have to be some still small voices like the boy saying the emperor has no clothes saying that’s nonsense, you know. And that has a whole, that rests on a whole bunch of debatable or false assumptions and don’t take that as self-evident. And so there at least in our time I think, and this is something where I, why Dewey is one of my major heroes. I think that the idea that there can be responsible inquiry into value questions and without being a reversion to fundamentalism or a reversion to a priori philosophy.
O que Putnam aponta aí tem uma importância que é difícil de supervalorizar. Se aqueles que possuem conhecimento e treinamento pararem ou desistirem de fazer filosofia, isto é, colocar em marcha problematizações, distinções importantes, refinamentos conceituais e a apresentação de perspectivas diferentes, o problema não é que a filosofia vai enfraquecer ou desaparecer. Ao contrário, o problema de parar de fazermos boa filosofia é que a má filosofia é onipresente. Ora, já escrevi diversas vezes aqui sobre a importância da filosofia pública. Mas Putnam ressalta um aspecto fundamental: a todo momento, todas as pessoas estão articulando e agindo a partir de seus comprometimentos filosóficos, quer eles sejam explícitos, quer não. Não há, propriamente dizendo, ações ou decisões minimamente social ou existencialmente relevantes, que sejam, em última análise, filosoficamente neutras. Contudo, a maior parte das pessoas não reflete criticamente sobre seus próprios pressupostos, bem como sobre as consequências de suas posições e tomadas de decisão. E, ainda assim, elas seguem “fazendo filosofia”. Desse modo, o preço de abdicar do exame filosófico publico, o que quer dizer, em primeiro lugar, explícito, é ter de aceitar os prejuízos de fazê-lo sem clareza, sem rigor e sem reflexão.

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