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o diário · Jul 10, 2026

poder jogar as caixas fora

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Geissy Araújo · o diário

Uma notificação aparece na tela do meu celular.

É uma mensagem de uma amiga com quem eu não falava havia meses. Abro imediatamente e vejo um áudio de seis minutos. Me animo. Sei que ali tem um tanto da vida dela e que, naquele momento, ela escolheu compartilhar isso comigo.

Estou no meio dos afazeres do dia. Coloco os fones de ouvido e ela passa a me acompanhar pelos próximos minutos. Do meio para o fim da mensagem, sento um instante no sofá da sala e me permito estar só com ela, prestando atenção no que me conta. Já sinto vontade de saber mais. Tenho muitas perguntas e fico feliz por ela fazer parte do meu dia.

Gosto de mandar mensagens de voz para as amigas. Gosto também de recebê-las. Sinto que ouvir a voz, o tom, o ritmo da fala diminui as distâncias que existem entre nós. Morar em outro país significa também aceitar que muitos vínculos antigos passam a existir através da tecnologia. E, para isso, os áudios sempre foram minha primeira opção, seguidos das ligações de vídeo que podem durar horas. Mando áudios longos, quase um podcast, e sempre termino com uma figurinha reconhecendo que a pessoa agora tem alguns minutos de episódio para ouvir. Prefiro assim a fragmentar uma conversa em vários áudios curtos, que às vezes me passam uma sensação de urgência, de pressa, quando sinto o celular vibrando repetidas vezes no corpo.

Gosto demais quando recebo esses áudios compridos, cheios de aventuras, desejos, medos e angústias. Na idade em que estou, muitas amigas são mães e se dividem entre o trabalho, os filhos, a casa e elas mesmas. O áudio acabou se tornando uma forma de fazer parte da vida umas das outras sem precisar marcar um café virtual ou encontrar um horário para uma chamada de vídeo. Sinto que participo da rotina delas quando ouço os passos sobre as folhas enquanto caminham com o bebê no parque, o barulho do carro a caminho do trabalho, a água correndo enquanto lavam a louça do almoço. Consigo perceber na voz as emoções, a animação de um projeto novo, a saudade de tempos antigos.

Uma das notícias que essa amiga me conta é a compra de uma casa. Uma decisão que significa muito mais do que a compra em si. Significa um comprometimento com um lugar que um dia lhe foi estranho. Ela também mora longe de onde cresceu. Significa um “sim” que demorou anos para chegar. Significa olhar para frente com a intenção de construir um lugar para chamar de seu. Ela me conta da vontade de pendurar quadros na parede sem se preocupar com o dano que pode causar. Conta também sobre o condomínio que escolheu pensando na comunidade que os vizinhos poderão formar, permitindo que seu filho tenha com quem brincar de forma segura.

E então ela diz uma frase que me atravessa porque também estou vivendo esse momento: agora vou poder jogar as caixas fora.

Paro pensar no simbolismo disso.

Poder jogar as caixas fora.

Sem precisar guardá-las imaginando a próxima mudança. Sem viver em estado de espera. Poder descansar. Poder se autorizar a estar. Poder habitar um lar, não apenas morar nele.

Ouço a felicidade na voz dela ao dizer isso, sinto uma ressonância enorme dentro de mim. Penso na quantidade de caixas que também guardo, esperando serem reutilizadas na mudança que acontece este mês. Penso no quanto desejo chegar ao momento em que elas deixem de representar o próximo destino e possam, enfim, deixar de existir.

Venho vivendo uma vida quase nômade desde 2024, quando me mudei de país. Na primeira mudança, trouxe duas malas e muita vontade de me experimentar de outras formas. Deixei para trás uma vida construída com muito esforço, amigos de quem sinto falta todos os dias e um lugar que foi minha casa por vinte anos.

Foto autoral - da cidade em que moro atualmente - sigo monotemática em relação ao que capturo, sendo o pôr do sol um dos momentos mais lindos do dia pra mim, me lembrando das transições e mudanças que compõem a vida

Em 2025, mudei de cidade, pro outro extremo do país, carregando agora não apenas duas malas, mas uma casa inteira.

Passei dias encaixotando objetos, decidindo o que iria comigo e o que ficaria para trás, tentando ser estratégica ao saber que aquela nova fase duraria apenas um ano. Enquanto embrulhava pratos, panelas e copos em papel-bolha, passava horas dançando e cantando forró.

Pensando agora, acho que levar minha cultura nordestina para dentro daquele processo foi uma forma de conforto diante do desconhecido. Dançar enquanto empacotava a vida tornou tudo um pouco mais leve.

Agora, em 2026, estou novamente em mudança. Mais uma vez para o outro lado do país, para uma cidade que guarda a possibilidade de ser o lugar onde finalmente vamos criar raízes. Um lugar que, em algum momento, também vai me permitir jogar as caixas fora. Isso não vai acontecer imediatamente, já que ainda teremos mais uma mudança prevista daqui a um ano. Mas essa será curta, dentro da mesma cidade, sem atravessar o país inteiro. Ainda assim, a proximidade dessa possibilidade de permanecer me anima profundamente.

Penso no quanto isso mudou ao longo do tempo. Durante muitos anos, meu espírito aventureiro queria conhecer um lugar atrás do outro, sem pousar em nenhum deles, sem construir ninho. Talvez seja a idade. Talvez seja uma nova identidade que está se formando a medida que mudo de país, de língua, de cultura, de contexto. Talvez seja essa vontade cada vez mais forte de pertencer a um lugar.

Sinto como se essa nova fase estivesse me convidando a dançar mais devagar, a caminhar em vez de correr, a ficar em vez de partir. Como se uma quietude estivesse pedindo espaço — uma quietude que talvez só apareça quando escolhemos permanecer.

Gravo um áudio de volta para ela. Esse dura quase dez minutos.

Conto da felicidade que sinto ao ouvir sobre essa decisão, sobre esse movimento que ela faz na vida. Reflito sobre o simbolismo de tudo isso. Digo que talvez eu escrevesse sobre o que ela havia acabado de me contar.

E aqui estou.

Colocando em palavras o que aconteceu no meu dia e voltando a habitar este diário, que ficou fechado durante um tempo. Expressando minha animação em poder jogar as caixas fora, e me sentindo pronta pra um recomeço que guarda um sabor da liberdade que se encontra quando estamos no nosso lugar.

Read the original on geissy.substack.com

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