A Ciência Comportamental pode nos salvar das Bet´s?
Talvez ela possa ajudar; entretanto, salvação é uma palavra forte demais para definir a contribuição possível das Ciências Comportamentais para lidar com o problema das Bet´s. Isso porque a causa é muito mais profunda e histórica. Está ligada à mercantilização de tudo, ao fracasso do movimento iluminista, que hoje enxergo com uma ingenuidade romântica.
O propósito dos iluministas foi nobre. O movimento pregava, já em fins do século XVII e início do século XVIII, a crítica à autoridade e à tradição, autonomia do indivíduo, confiança no método científico, progresso, tolerância religiosa, limites do poder e a divulgação do saber.
Os iluministas não poderiam prever que, com o passar do tempo, o “ter” venceria a batalha contra o “ser”. Não poderiam imaginar que, num tempo de abundância de conteúdo, a humanidade perderia a paixão pela sabedoria.
Nesse cenário de desalento para com o saber, professores são desvalorizados, estudar vai perdendo a relevância e tudo que a humanidade deseja é aprender como ganhar mais dinheiro. Quando não encontram atalhos no aprendizado e nas fórmulas mágicas dos gurus financeiros das redes, se rendem à própria sorte, rumo à estação das Bet´s.
Não podemos simplificar a causa desse desalento culpando os truques psicológicos que atraem, fisgam e hipnotizam as pessoas diante das plataformas, propagandas e todo canto de sereia que as Bet´s criaram, explorando as fraquezas não das pessoas, mas do nosso tempo.
Um tempo em que “ser” trocou de sentido com o “ter”. Um tempo histórico no qual o amor pela sabedoria perdeu para o Pai Rico e sua caixa de ferramentas empreendedora. Publicado no longínquo 1997, o livro “Pai Rico, Pai Pobre” emula bem o caminho que nos trouxe até aqui.
No livro, o Pai Pobre possui PhD e é funcionário público na área de educação. Não poderia ser mais irônico! O pai pobre defende os estudos, mas já sinalizava a subversão em andamento. O pai pobre defende a educação como ponte a um emprego estável, não como ideal e amor à sabedoria.
Já o pai rico emula o estereótipo do empreendedor. Largou a escola na oitava série e construiu patrimônio com negócios e investimentos. A antítese perfeita ao pai pobre, menos pela questão financeira e mais pelo que valoriza. A miséria de nosso tempo presente talvez reproduza igualmente com perfeição a mensagem que o livro passa:
A escola forma bons empregados, não ensina sobre dinheiro e, portanto, não tem importância num mundo onde abandonamos o amor pela sabedoria e colocamos no lugar o amor pelo dinheiro, pelo mercado, pelas mercadorias.
Me desculpem a franqueza, mas, nesse cenário, as Ciências Comportamentais não nos salvarão das Bet’s.
A Ciência do Comportamento pode ajudar pontualmente, mas não trata a causa raiz do problema. Causa esta que vem sendo plantada e cultivada há tempo e que agora tem ares de normalidade, materializada na ideia de que tudo que importa é aquilo que você conquista em termos de posição e patrimônio financeiro.
A utopia moderna é material e, portanto, sua realização é condicionada à posse de recursos financeiros. A educação, o conhecimento e as letras são inconvenientes à realização dessa utopia, ao cobrarem um preço alto demais em tempo, necessário ao amadurecimento, crescimento e evolução.
Então, impacientes que somos, passamos os dias à procura de atalhos confortáveis, rápidos e pretensamente rentáveis. Estes atalhos levam às Bet’s, mas não apenas a ela. Leva também a cassinos, jogo do bicho, caça-níqueis ilegais, day trade, pirâmides financeiras… E segue a lista extensa, impossível de reproduzir neste espaço limitado, todas com raízes semelhantes e para as quais a Ciência Comportamental não basta.
O ser humano tem muito mais desejos que necessidades.
____ Johann Goethe
Todos preocupados com a inteligência artificial (IA) e, de repente…
No feed apareceram por aqui os biochips! Que são chips de computador com partes biológicas. Mais precisamente, com células cerebrais, funcionando como tais e em estruturas como mini cérebros, conectadas a circuitos elétricos como nos chips de computador que conhecemos atualmente.
A pesquisa avança consideravelmente. Tanto para bons propósitos, como combater doenças, mas também para propósitos questionáveis. Basicamente, algumas pesquisas dão conta de que, com estruturas de células cerebrais, a inteligência artificial dará lugar ao que estão chamando de Organoid Intelligence.
E o apelo aos organoides não é apenas em capacidade de processamento, mas em uso de energia. As estruturas compostas por células cerebrais consomem uma quantidade de energia consideravelmente menor que a IA.
Resumindo, o que temos agora é: humanos sendo concebidos como máquinas. Células cerebrais que sentem, têm vida e atuam como células de cérebros de pessoas comuns. O que pensar sobre isso? Ainda não sei, mas confesso o espanto.
🛑 Assista ao vídeo e me conte se também ficou assustado com as possibilidades.
Imagine que o esforço cognitivo pudesse ser negociado como ativos são negociados na Bolsa de Valores. Imaginou? Agora pense que você precisa decidir quanto de esforço cognitivo gastar para comprar atenção para fazer alguma tarefa do dia a dia. Pensou?
Então vamos…
Nosso cérebro roda o tempo todo uma espécie de pregão particular. Cada tarefa do dia entra na tela de cotações com um preço (o esforço exigido para realizar a tarefa) e uma expectativa de retorno (a recompensa que a tarefa promete entregar).
O problema é que esse mercado tem um formador de preço, mas ele não é você.
Segundo o framework que os pesquisadores Wiradhany, Parry e Aru descreveram em seu artigo publicado recentemente na Nature Human Behavior, as plataformas digitais funcionam como corretores que manipulam o próprio pregão. Elas zeram o custo de “comprar” uma distração e pagam o dividendo na hora.
Em outro mercado, as tarefas complexas continuam com suas cotações elevadas; o dever de casa, o relatório, a pesquisa, o TCC são ativos caros, cotados com elevadas somas de esforço cognitivo. No final, sabemos como termina. Estas tarefas que exigem esforço elevado são caras na entrada e seu retorno aparece apenas semanas, meses ou até mesmo anos depois. Olá desconto hiperbólico!
Algo semelhante também pode mudar essa lógica com a introdução da Inteligência Artificial: o custo das tarefas complexas vem caindo sistematicamente, mas pode esconder outros custos elevados. Mas isso fica para a próxima edição.
O problema é que estamos viciados em comprar opções fáceis, e isso faz o preço cognitivo das tarefas complexas aumentar sistematicamente. O resultado? A facilidade de compra e o preço baixo nos fazem automatizar a compra, até o ponto em que a compra vira opção automática.
A notificação faz a tela acender e a ordem de compra é executada imediatamente. Sem decisão consciente, sem reflexão, apenas o fluxo de rolar o feed que segue, interrompendo as operações no mercado caro da atenção a alto custo cognitivo.
Da próxima vez que pensar em rolar o feed, lembre-se de que, no mercado cognitivo, talvez o instant trade, assim como o day trade, não dê certo.
Abaixo, a lógica do mercado de atenção, que negocia tendo como moeda o esforço cognitivo. Referência ao mesmo artigo citado acima, créditos na imagem.
Referência:
WIRADHANY, Wisnu; PARRY, Douglas; ARU, Jaan. An effort recalibration framework for digital media use and cognition. Nature Human Behaviour, p. 1-10, 2026.
Novo livro do George Loewenstein!
Preciso falar algo mais? Para mim, é suficiente. Mesmo assim, e considerando que nem todos tenham o mesmo apreço que tenho pelo autor, compartilho mais alguns detalhes do novo livro dele abaixo.
Toda época tem suas ilusões. A nossa é que a felicidade é a condição humana natural. O economista comportamental George Loewenstein argumenta o oposto: que nossas vidas são intrinsecamente moldadas pelas emoções mais sombrias, que passamos tanto tempo tentando evitar.
Em The Opposite of Happiness, ele se baseia em décadas de pesquisas influentes — assim como em percepções da literatura e de suas próprias experiências de vida — para oferecer uma reavaliação magistral do papel que as emoções negativas desempenham em nossas vidas: por que a dor é mais pegajosa que o prazer, como o mundo moderno piora os sentimentos ruins e por que nossas tentativas de escapar da miséria geralmente só aguçam sua dor.
Oferecendo um contra-argumento provocativo e refrescante à indústria de autoajuda, O Oposto da Felicidade compartilha uma verdade sóbria, profundamente humana e, em última análise, reconfortante: quanto mais cedo entendermos nossas naturezas negativas, mais cedo pararemos de nos sentir culpados por não alcançarmos a felicidade duradoura, e melhor estaremos conectados a outros que compartilham o mesmo, ou sua própria mistura única de emoções negativas.
💡Antropocomplexidade: é o estudo de sistemas adaptativos complexos humanos, integrando a ciência da complexidade com a antropologia e a ciência cognitiva. Ela reconhece que os humanos fazem parte da natureza, mas que os sistemas humanos não podem ser compreendidos apenas por meio de modelos computacionais, por serem moldados pela linguagem, narrativa, reflexividade e cultura. [.htm]
🧪Economia Experimental: a economia experimental é praticamente indissociável da economia comportamental. Então, entender bem de experimentos é potencializar o conhecimento e incrementar as ferramentas de análise do comportamento. Mas isso você já sabia. O que talvez você não saiba é que uma das maiores autoridades em experimentos estará no The Human Advantage Conference, um evento online e gratuito que acontece em outubro. Mais detalhes no link. [.htm]
💸Bet´s: um artigo excelente sobre as possibilidades que a Ciência Comportamental apresenta para incrementar políticas públicas no enfrentamento à epidemia das Bet´s, escrito pelos ultra competentes Flora Finamor Pfeifer e Gustavo Krüger, do Instituto Brasileiro de Ciências Comportamentais. [.htm]
🔭Observatório: uma nova iniciativa criada pela professora Vera Rita tem endereço na web e já de largada entregou uma enorme facilidade: o site faz uma curadoria de todo tipo de evento relacionado às Ciências Comportamentais. Uma excelente iniciativa! Salve nos seus favoritos já! [.htm]
🤓Você, Cientista Comportamental: a melhor porta de entrada para o mundo das Ciências Comportamentais está com vagas abertas para a quarta turma. A formação Cientista Comportamental é conduzida pela Flávia Ávila e tem um programa incrível! Acreditem, é melhor que muito MBA e pós por aí. Ah, é reconhecido pelo MEC. [.htm]

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