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um ponto cinco · Apr 30, 2025

Sobre identidade e comunidade

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Matilde Caria Secca · um ponto cinco

Bruxelas trouxe-me uma sensação incrível de cosmopolitismo, principalmente tendo sempre vivido nos subúrbios do Porto. Por outro lado, tem-me mostrado uma crescente certeza de que lógicas de comunidade são-me muito queridas. Sobretudo, as relações de proximidade que dali surgem.

Consoante as fases da nossa vida, há sítios que se tornam rotina. Para mim, entre escola e faculdade, foi a já fechada Broa d’Avó em São Mamede, o Café Ofir no Covelo, ou a Doce Alto na Areosa. Preenchia-me o coração quando os senhores já me diziam, “Cafezinho?”. O senhor do Ofir apanhou até a minha fase estúpida de consumo de açúcar e já me trazia dois pacotes a acompanhar o café, três a meia-de-leite, sempre com um conselho: “Menina, isto faz-lhe mal, sabe?”. Sei, Senhor do Ofir. Hoje, à pala de muita taquicardia, estou sóbria de açúcar branco…

Em Bruxelas, naturalmente, isso também aconteceu. Em frente ao Parlamento Europeu há um café italiano chamado Domenica. Por ter um bom expresso a um preço aceitável, era lá que eu e a minha amiga íamos durante o nosso estágio. A determinada altura, quando a senhora nos via a entrar, dizia - “Ciao bella, due expressi?”. Que coisa linda.

Entendo como essencial a vida trazer-nos alguma adrenalina, alguma vibração e, para isto, lógicas de rotina têm de ser rompidas. Mas nem sempre, assim espero. Eu gosto do sorriso de quem me conhece, de um honesto “Como está?”, de quem sabe o que vou escolher, com quem me cruzo sempre no caminho. Nestes gestos, eu sou algo maior – estou ancorada num mundo tantas vezes caótico e impessoal.

Interesso-me cada vez mais pela forma como contruímos a nossa rede, como criamos espaços que levam um pouco de nós, e o que deixamos de nós, neles. Como construímos cidades e comunidades nas quais haja uma reciprocidade entre elementos e onde, enquanto cidadãos, nos sintamos envolvidos, e onde nos faça sentido envolver.

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Tudo o que está acima, foi escrito há uns quatro meses. Ressuscitei este rascunho depois do apagão em Portugal, na segunda-feira. Na Bélgica, os únicos estragos foram uma perda de rede para quem tem número português, mas passei o dia preocupada. Segui as notícias ao minuto, a RTP sempre ligada. Enquanto trabalhava, depois de trabalhar, enquanto cozinhava, enquanto jantava.

Imagino as muitas coisas que já leram nestes últimos dias, por isso, vou poupar-vos as minhas reflexões apocalípticas e apenas dizer-vos que sim, vou preparar o meu kit de 72 horas.

À parte deste meu kit, o apagão acentuou ainda mais as reflexões que tenho tido nos últimos meses sobre comunidade, descentralismo, e participação cívica. O que queremos dos nossos bairros, das nossas ruas, dos nossos vizinhos? É que na segunda-feira, notando os grandes constrangimentos que a falta de eletricidade provocou - e não quero mesmo desvalorizar isso -, os relatos e fotografias que me chegaram foram de crianças a brincar nos parques, pessoas em esplanadas, vizinhos a conversarem para além do normal cumprimento, lojas de pequeno comércio - muitas assumidas por imigrantes - a ajudar quem passava, pessoas a auxiliar quem podiam, boleias a ser dadas, enfim, a vida em comunidade a acontecer.

É fácil cair no romantismo dos dias seguintes, mas também nos faz refletir sobre a necessidade de criarmos comunidades resilientes.

E nessa nota, dizer-vos que estou a começar a ler um white paper chamado Neighbourhood of the Future, por Jennick Scheerlinck. Parece oferecer um overview interessante do que podem ser os nossos bairros futuros, e apresenta metodologias e intervenções práticas, como criação de espaços públicos e redes digitais de vizinhança. No início, lê-se assim:

Local authorities and organisations can make a difference. Through local community building, they stimulate informal neighbourly help (supporting community members to help each other) and the circular economy as well (promoting much-needed sustainability through exchanging and giving away items and skills). Local residents can gain access to the information, local knowledge, spaces and informal support that are already present within the neighbourhood – accessing and activating this social capital.

The more people get access to social capital, the better the neighbourhood is able to tackle social challenges itself. The neighbourhood becomes a resilient ecosystem, better equipped to withstand external threats such as a health pandemic, a food or energy crisis, criminal activity, or even a natural disaster.

O que querem dos vossos bairros e ruas? Também sentem isto? E digam-me se lerem o paper.

Um abraço em português,

Matilde

Imagem: Robert Weimerskirch, Cloudy Day

Read the original on galeriaumpontocinco.substack.com

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