Gosto de andar na rua com o volume do fone de ouvido no talo. Ultimamente, escutando Calcinha Preta, João Gomes, tome forró e desmantelo. Também tem Reação em Cadeia, Getúlio Abelha, Marília Mendonça. As velhas da Letrux. Sino dourado, do meu divo Chorão. Uma mistureba sempre incoerente na minha retrospectiva do Spotify.
De podcast, com o volume um pouco mais baixo, gosto do Isso não é uma sessão de análise. Já escrevi sobre esse namoro com a Vera Iaconelli por aqui. A Lorelay Fox tem meu coração quando tomo café da manhã sozinha. Enjoei da Marcela Ceribelli e da Camila Fremder. Nunca entendi o hype do Picolé de Limão.
Quando escurece e ainda estou sapateando por aí, continuo com o fone esquentando as orelhas, mas ele fica desligado. À noite, preciso ficar atenta aos barulhos ao meu redor. Minha cidade é relativamente segura e, por não ser mais da primeira fervura, percebo que o assédio comigo diminuiu, mas, ainda assim, existe. E muito.
Esses dias, um velho caindo aos pedaços teve a pachorra de me dirigir uma frase nojenta. Fingi que não ouvi. Eu estava “protegida” pelo som cala a boca, velho arrombado do fone.
Mas, às vezes, deixo meu companheiro de som em casa. Por esquecimento, para prestar atenção aos meus pensamentos intrusivos, porque a cabeça anda muito cheia ou para realizar a melhor atividade de todas: escutar conversa alheia.
Com alguns privilégios, quase não uso transporte público. Então, o que me resta é a rua. E que fonte deliciosa de assuntos aleatórios ela me proporciona!
Tem o grupo cativo de idosos em frente à lotérica. Adolescentes saindo da escola, ocupando toda a calçada com sua juventude espaçosa. Prestadores de serviço cansados, sempre fazendo piadinha uns com os outros. Mães pacientemente furiosas. Vendedores de pano de prato. Crianças que parecem bêbadas, bêbados que parecem crianças. Um verdadeiro deleite para bons observadores.
Se você já tentou fazer algum tipo de meditação ativa e nunca deu certo, preste atenção ao que as pessoas andam conversando por aí e injete na veia um remédio milagroso para trazer de volta O AQUI E O AGORA. Se você for escritora, então, a boa e velha fofoca das ruas cria uma cor interessantíssima para as suas páginas em branco.
Como nem toda fofoqueira é escritora, mas toda escritora é fofoqueira, eu adoro usar as histórias dos outros nas minhas criações literárias. Assim, faz algum tempo que apuro a audição para coletar material para esse texto.
No entanto, quando levei o projeto para o rascunho, as pessoas pareciam fazer um complô contra mim. Falavam baixo demais. Ficavam mexendo no celular e não conversavam entre si, ou as que falavam muito trocavam frases nada com nada. E nem vou falar da chuva, que deixa todo mundo borocoxô.
Foram necessárias algumas quadras para que voltasse a me dar conta da minha insignificância, porém, logo entendi que a rua entrega o que ela quer, não o que eu peço.
Então, depois de mais de dois meses andando por Santa Maria, São Paulo, Campinas, Paraty. Na praia, no rolê, em uma padaria sem pão. De ônibus, bar, rodoviária, manhã, madrugada. Com jovens, crianças e aposentados. Listo aqui embaixo as dez frases faladas pela boca do povo, que compensaram a ausência de Manchete dos Jornais torando nos meus ouvidos, enquanto eu bordejava por alguns caminhos brasileiros:
O problema é o público.
Peguei sua mulher, viu?
Às vezes a gente dá uma vacilada, mas faz parte.
Eu disse para ele te escutar e prestar atenção em ti.
Quem chegar primeiro é o mais bonito.
O inverno é muito ruim. No verão, a gente quase desmaia, mas…
Eu amo chuchu.
A mina falou para mim que ela já fumou uns baseados.
Aaaah, parou de tocar... Eu tava empolgada!
O gerente me liberou. Vou correr pra casa pra tirar as roupas do varal.
E você? Tem escutado conversas alheias por aí?
Manda um oitudobem, vou adorar saber o que andam falando nas ruas da sua cidade.
O áspero das faltas é meu primeiro livro e foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2025. Além de chique e gostosinho de ler, ele ficará belíssimo na sua estante. Você pode comprá-lo aqui ou falando diretamente comigo pelo Substack ou Instagram.
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