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Folga · Jul 25, 2024

FOLGA #15 Devo ou não ser mãe?

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Menos é mais? Sim. Percebi que, já que era para tocar o barco sozinha, eu precisaria caber dentro dele e levar somente o necessário, para que ele não perca o movimento, né? Mas para perceber isso, antes naufraguei algumas vezes.

Nossa newsletter agora se chama: Uma Folga Para Você. O sentido é o mesmo, mas o conteúdo vai ser um pouco menor, menos editorial e mais pessoal.

Entendo que essa newsletter pode ser um momentinho, um respiro, uma folga no meio de tudo.

E olha a ficha que caiu enquanto eu escrevia: eu proponho isso, mas, por meses, não consegui fazer caber algo tão precioso e necessário para mim: uma folga. Aliás, quão simbólico é não ter um tempo para a folga? Eeeeeita, que Sigmund Freud deve estar brindando com vinho agora no além.

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UM DIA CINEASTA ILUDIDA

NO OUTRO…

Por Helen Ramos

Um dia, você está preocupada se sua meia-calça rasgada vai dar para usar de novo e se aquele rolê na quinta-feira vai estar seu ex. Se seu trabalho vai ser reconhecido a ponto de você, alguma hora, conseguir realizar o sonho adolescente e ilusório de estudar cinema nos EUA. Eis que, repentinamente, no outro dia, você está sabendo que, caso não faça ingestão de ferro e vitaminas, isso pode ser prejudicial a ponto de o bebê que está dentro de sua barriga não se desenvolver de forma saudável.

Bom, foi assim que um dia fui dormir uma jovem cineasta iludida, que esperava o pagamento de um videoclipe para ir colocar um DIU, e 24 horas depois estava na Avenida Paulista, vendo o movimento estudantil comemorar a baixa da tarifa dos 20 centavos, enquanto eu segurava um exame de sangue positivo em minhas mãos. Muito positivo por sinal.

E agora? (Sigo me perguntando isso, vocês também?)

Corte seco para um filho incrível. Mas né? Para chegar na adulta de 37 anos de hoje, ui, foi muita jovem iludida lascada ontem.

Claro que ainda tenho meio calça, e ainda curto sair, ir para shows, e me iludir, afinal sou de Áries. Mas pensar em sair em dia de semana hoje é calculado com 15 dias de antecedência, planejamento, reza e muito esforço para que, após eu sair do banho, não coloque um pijama e receba xingamentos dos amigos.

Num dia desses desafiadores, que tinha um aniversário no meio da semana, eu me preparei, e quase perdi a batalha.

Nas mensagens do WhatsApp apareceram diversas tentativas:

  • "Vem, eu pago um drink pra você." (o amigo que sabe da sua conta bancária).

  • "Vem que você tá sem filho hoje à noite, aproveita." (a amiga que sabe o dia que seu filho está no pai).

  • "Vem se divertir um pouco, a gente vai embora cedo." (o amigo que mente e você finge que acredita).

Quis desistir mas não, eu fui. No caminho da festa de aniversário, às 22h, já cansada, num esforço de ser bonita e de ainda achar que vale a pena beijar na boca, de ensaiar dizer não para as possíveis drogas que vão te oferecer, abri o Google fotos para selecionar 10 fotos da vida do meu filho para o trabalho de escola.

Vamos lá, baixa o brilho do celular para não ser roubada, respira fundo porque sabe que, nesse rolar de tela do celular, até chegar em 2013, 2014, 2015, vai doer. E doeu, porque a memória das diversas solidões que passei foram relembradas. Doeu porque lembrei do caos que foi equilibrar esses pratinhos, e claro, doeu também porque as fotos jogam na sua cara todos seus relacionamentos do passado. Mas eu estava como uma sombra prateada, e um rímel caro, então não ia ser hoje que eu ia chorar no Uber (hoje não mas já até recebi abraço de motorista)>

No meio de tanta dor, tem muita belezura. Crise de riso registrada, tem o dia da primeira festa junina, tem foto dele tiquito de quando ainda cabia no colo para dormir. Meu Deus, meu filho foi um bebezico, espoleta, fofo demais, cheio de amor pra dar, como ele sempre foi alto astral. Sério. Como pode, né? Sim, já até escutei o que você pensou, é meu filho né poxa.

Se você hoje me pergunta se deve ser mãe ou não, primeiro de tudo, quem sabe essa resposta é você. Mas posso te dizer que é algo que vai tomar conta de 100% de você no início, e que, aos poucos, vai sendo recobrada a sua porcentagem de ser só você. Eu diria que hoje eu sou 50% eu mesma. E só de digitar isso, me sinto culpada. Sim, não sei o que aconteceu (na verdade eu sei) que a culpa reapareceu por aqui. Com 10 anos de filho ainda tem culpa? Sim. Absurdo, né?

Se eu sinto saudade da época da jovem iludida cineasta? Sinto. Poxa, a vida era mais simples. Mas eu gosto muito da Helen de hoje, de agora, que se lascou mas não perdeu a vontade de subir na prancha e pegar onda. E falar em onda, adivinha quem aprendeu a surfar? Meu filho, e eu chorei (obvio), quando vi ele feliz da vida, em cima da prancha. Saiu do mar: você viu mamãe? Você viu? Claro que eu não só vi, como chorei.

Obrigado por ler Folga. Esta publicação é pública, por isso sinta-se à vontade para a partilhar.

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SER OU NÃO SER MÃE, EIS A QUESTÃO.

Por Nani Escosteguy

“Então melhor não ser”. Essa é a resposta que eu costumo dar para as pessoas que não sabem se querem ou não ter filhos. Se não sabe, não seja. 

Eu não sabia. Fui no curso supostamente natural da vida: achar alguém, namorar, casar, engravidar. Hoje, mãe de 2 pré-adolescentes de 10 e 11 anos, eu diria pra Nani de 2012 pensar mais um pouco. 

Eu não tinha amigas mães, amigas próximas. Não havia conteúdo sobre maternidade como existe hoje em dia. Não havia redes sociais, matérias, filmes, documentários, estudos, pesquisas, médicos influencers etc que pudessem nos dar alguma ideia sobre a realidade-real-oficial da maternidade.

Tá na dúvida? Não tenha. Até o dia que você entender que realmente gostaria - se esse dia aparecer. “Ah, mas não tem como saber se você não tem.”. Verdade. Não tem mesmo. Só tenha consciência dessa escolha. Entenda que amigas/os vão se afastar, familiares vão se meter, conhecidos e desconhecidos vão te julgar, você vai errar, vai acertar, vai chorar e vai sorrir. E sim, depois pode ser que você (como eu hoje em dia) não saiba mais imaginar sua vida sem aquelas pessoinhas que tanto te consomem.

Sou apaixonada pelos meus meninos. E todo aquele blá blá blá de amor incondicional e etc. Mas é uma relação que pede construção, conexão e disponibilidade, como todas - amorosas, de amizade, de trabalho. É também entrar em uma situação onde fica mais difícil conseguir e manter trabalho, equilibrar a rotina, lembrar de nós mesmas.

Quando meu primogênito nasceu eu ainda trabalhava como freelancer. Por alguma razão misteriosa, não consegui meu salário-maternidade no INSS - ainda que eu tenha contribuído sem falta todos os meses. Fiquei sem trabalhar por algum tempo, pegando pequenos trabalhos. Logo engravidei do segundo, aí sim rolou o benefício.

Então fui chamada por uma pessoa com quem tinha trabalhado diversas, inúmeras vezes. Que conhecia muito bem o meu trabalho. Seria um ótimo retorno ao mercado. Fui até ele, conversamos sobre o freela, cachê, minha disponibilidade de tempo, tudo acertado. Até que o cara me pergunta: “Mas me diz uma coisa, você ainda é produtora ou agora é mãe?”.

Que pergunta é essa? Não peguei o trabalho. Não estava disponível para aquela situação. Era um homem que era pai. De duas crianças, inclusive. Que sabia, melhor do que eu inclusive, que é possível sim ser mãe, ser profissional, ser amiga. E que poderia muito bem ter escolhido o caminho de ser um apoiador das mulheres mães e seus retornos ao mercado de trabalho. Mas ele escolheu o caminho mais óbvio para os homens, julgar, criticar, desconfiar.

Eu fiquei triste? Fiquei. Mas mais do que isso, fiquei puta! Fiquei com raiva. Que cara de pau! Corta pra hoje, ele não está mais no mercado - ou pelo menos não com toda a posição, salário e arrogância de antes. Eu estou. E muito bem, obrigada.

Por que essa história toda? Porque é isso que nós, mães, passamos. É importante colocar todas essas dores de cabeça na balança. Hoje trabalho com uma equipe majoritariamente de mulheres. Que dão as mãos para as outras. Consigo ter a flexibilidade de horário que a maternidade exige - ainda que role muito, mas muito malabarismo para dar conta do dia a dia.

E quando eu chego em casa e recebo abraços dos meus meninos, eu me derreto de amor. Quando eles vão na casa de amigos e as mães me contam como são legais, divertidos e educados, elas me ajudam a ficar sempre alerta: sou uma ótima mãe! São mulheres ajudando uma mulher.

Na dúvida, não tenha. Na vontade, tenha, procure, crie uma rede. Eu sou rede, tenho rede e não vivo sem elas.

No tempo de folga da Nani, ela indica:

Livro: “Momo e o senhor do tempo” - Michel Ende, Editora WMF Martins Fontes

Michel Ende é o autor de “História Sem Fim” (quem lembra desse filme com o cachorro gigante voador?). Estou lendo Momo com os meninos (10 e 11 anos), eu e eles estamos adorando! Momo é uma garotinha orfã que mora em umas ruínas e é uma ótima ouvinte de toda cidade. Até que ela descobre a existência da Caixa Econômica do Tempo. Os homens cinzentos que trabalham lá, andam pela cidade roubando o tempo dos adultos. Eles fazem com que acreditem que deixar as coisas que importa de lado e trabalhar muito, faz com que economizem e ganhem tempo. É pra ler com calma. O livro é super imagético e a história é brilhante pra todas as idades.

Autocuidado: Carol Brasil Gym - @balanceclass.online

Ando sedentária há anos. Como falei na edição passada da Folga, sou 8 ou 80. Fazia ginástica enlouquecidamente, depois ficava meses sem fazer nada. Odeio academia! Desde a pandemia eu via Lua Barros fazendo umas tais corridas guiadas e exercícios em casa de um tal balance. Até que mês passado me inscrevi para aulas com a Carol Brasil. São aulas online, ao vivo. Elas também ficam gravadas para fazer em outros horários e ela disponibiliza corridas guiadas e até bike guiada. É uma delícia. Eu nunca achei que fosse gostar de suar fazendo exercício. Ela é ótima e rola também para quem está grávida, quem não tem pesinhos em casa, quem não corre mas quer correr um dia (como eu)… Vai lá e depois conta pra gente.

No tempo de folga da Hel, ela indica:

IOGA - livro escrito por Emmanuel Carrère.

Vipassana, depressão, tudo pelo olhar dessa escrita fluída e interessante desse premiado autor que conheci recente. Não pense que é um livro sobre Ioga, mas e um livro sobre a vida, sobre esse retiro que o autor vai de Vipassana, sobre seus casamentos acabados, sobre a fluidez da vida e da observação. Bem interessante.

Adorei essa entrevista com o autor na 451:

Entrevista Emmanuel Carrère

RADIOHEL- temporada 2 e 1/2

Sim, vou falar do meu outro projeto , por que não. Para quem não sabe sou autora de um podcast chamado Radiohel, em que falo falo e tento achar sentido para as coisas, par aa vida. Essa terceira temporada que eu inventei de chamar de 2 e 1/2 é 80% só para assinantes, mas tem alguns episódios sim pra quem não quer assinar.
Essa semana saí o episódio com a nossa próxima convidada aqui do Folga: Bertha Salles. Linda, querida, inteligente e engraçada. Falamos de ser solteira, de disforia de imagem, de corpos reais, e de sexo, por que não.

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