Aeroporto de Pudong, 6 de Março de 2026
Confesso que me senti orgulhoso pela forma como finalizei os últimos dois capítulos: “Boa sorte com seu próximo 大哥“ e “Eu mereço alguém melhor que você”. É inquestionável que eu havia chegado ao meu limite mais uma vez, e o amor próprio precisava entrar em ação. Mas não posso ser hipócrita: o penúltimo capítulo não foi o fim dessa história. E, caso o conhecimento não houvesse me libertado, o último capítulo também não teria sido.
Cheguei ao Aeroporto de Xangai arrasado mais uma vez. Desde o trajeto da casa dele, eu me segurava para não enviar uma mensagem a Dorama. “Por que você me trata tão mal? Justamente no dia que marca nove meses desde que nos conhecemos. Podíamos ter aproveitado a manhã juntos, mas você não parou de me criticar um minuto sequer” — essa era uma das coisas que eu havia dito a ele enquanto arrumava as malas, e transcrevê-las em uma mensagem parecia o meu próximo passo.
O que me segurou naquele momento foi ver como Dorama começou a postar nas redes sociais normalmente, como se nada houvesse acontecido. Na sua rede privada, as fotos de Singapura que eu havia tirado apareciam em um compilado da cidade, do hotel e da academia do Barry’s. “Como ele pode ser tão frio?”, pensei — e consegui me segurar por mais algumas horas.
Quando embarquei no último voo desta história, com destino a Dallas, eu só conseguia desejar que as próximas quinze horas passassem em quinze minutos, me deixando cada vez mais longe dele. Como se a distância me impedisse de voltar aos seus braços mais uma vez.
Sentei-me na poltrona, abri o Instagram e comecei a deslizar o dedo pela tela. Dois vídeos depois, eu lia o título: “Como identificar um narcisista”. Meu dedo parou. Dorama havia me chamado de narcisista poucos dias antes. Eu já havia me esquecido disso — então quis ter certeza de que não tinha um transtorno, como ele havia dito. O vídeo começava com uma frase: “Narcisistas não têm a habilidade nem o desejo de refletir sobre si mesmos ou assumir qualquer responsabilidade.”
Refleti por um instante. E percebi que estava fazendo exatamente isso: refletindo. Pensando nas minhas ações, em como havia me culpado pela forma grosseira com que às vezes falava com Dorama, em como me desculpava e tentava explicar cada situação. O próprio ato de checar se eu era narcisista era a prova de que eu não era.
Mas fiquei curioso sobre como aquele vídeo interpretava o comportamento dele. Assisti ao próximo. E ao seguinte. As frases iam caindo sobre mim uma a uma: a inversão de culpa constante — sair da conversa se sentindo culpado, mesmo tendo sido ferido. A empatia seletiva — entender os sentimentos do outro, mas não se importar, principalmente quando não convém. E uma que me parou: “Amor condicional: você é valorizado quando concorda, admira e se submete. Se você se posiciona, perde valor.”
Dorama havia usado esse exato termo comigo, em uma conversa no segundo mês. Disse que o meu amor por ele era condicional à minha estadia em Xangai: ele permitia que eu dormisse em seu apartamento, e por isso eu o amava. Eu nunca tinha escutado aquela expressão antes. E ela já estava sendo usada contra mim desde o começo.
Claro que dois vídeos não bastavam para entender nove meses. Assisti dezenas, em português e em inglês. Aprendi sobre o ciclo do relacionamento narcisista: o bombardeamento de amor, a depreciação, o descarte, o abandono — e, por fim, o hoovering, a fase de trazer a pessoa de volta para recomeçar tudo. Comecei a entender por que os últimos nove meses haviam sido os mais confusos da minha vida.
O vídeo sobre gaslighting me abriu os olhos mais um pouco. O termo é mundialmente conhecido, mas a definição, para mim, ainda não era: uma forma de abuso psicológico em que a pessoa faz você duvidar da própria memória, percepção e sanidade. Nega a realidade, distorce os fatos, inverte a culpa, desqualifica o que você sente. Tive certeza de que havia sido submetido a isso, de forma consistente, por meses.

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