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filmes do chico · May 14, 2026

Cannes 2026: 'Nagi Notes' e as relações humanas como obras da arte

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Chico Fireman · filmes do chico

Na primeira cena de Nagi Notes, Yuri arrasta sua mala em busca da casa da amiga Yoriko -- sua ex-cunhada, uma artista plástica que agora mora numa pequena cidade no interior -- quando, ao lado da rodovia onde o ônibus a deixou, cruza com um garoto que não consegue tirar os olhos dela e a segue. Quando percebe a situação, sem entender o que está acontecendo, a arquiteta que vive em Tóquio, questiona o menino, que lhe entrega um desenho de seu rosto. Naquele momento, Kôji Fukada estabelece um paralelo que permeará seu filme: a relação entre cotidiano e arte. Sobre como uma reproduz o outro, mas também é emoldurada por ele.

Com Fukada, as coisas nunca são óbvias, nem as tramas, nem os planos, nem o tipo de dramaturgia que se espera encontrar, mas neste filme, o primeiro exibido na Competição do Festival de Cannes, ele vai além e busca em olhares, sorrisos e microgestos como arte e vida se relacionam e se contaminam. Yoriko é uma artista que decidiu morar na zona rural depois que seu casamento acabou, mas que -- mesmo num espaço não tradicionalmente associado à arte -- mantém sua atividade como escultora e ainda ensina desenho para garotos como Keita, o garoto que recebeu Yuri.

Através destes pequenos movimentos, que podem passar despercebidos mesmo para quem acompanha esses cinemas de delicadezas por fugir também dos clichês deste modelo de narrativa, Fukada opera subversões discretas, quase invisíveis, nas vidas de seus personagens: ao convidar Yuri para posar para ela, o diretor estabelece a arte como o elemento que define, ou pelo menos aproxima as duas amigas. Yuri, a mulher do desenho, será modelo para sua amiga, assim como inspirou a obra de arte que ajudou Keita a reconhecê-la. Nagi Notes é sobre se reconhecer através da arte, pense nisso.

A própria escolha de uma cidade pequena como Nagi como cenário para uma história com esse tema é, em si, uma fricção com o conceito de primitivo que geralmente fazemos do campo, das histórias de origem. O curioso é que, como explica Fukada, seu primeiro impulso em relação a este filme foram as paisagens rurais que encontrou no Museu de Arte Contemporânea de Nagi, o que o levou a se relacionar com a comunidade local por oito anos, tempo suficiente para que essas intersecções entre cotidiano, arte e estruturas sociais ficassem mais claras em suas ideias.

Como Yuri e Yoriko, Keita também tem um grande amigo e sua relação com ele também é levada por sensibilidades que se opõem às normas sociais. Duas mulheres e duas crianças lideram um levante silencioso contra quem geralmente comanda as narrativas justamente para se refugiar ou resisitir a eles. A ligação desses personagens com a arte, sendo a arte como expressão ou extensão da vida, se transforma num espaço de descoberta ou reconstrução onde a metamorfose é discreta, mas inevitável.

Nagi Notes ★★★½
Kôji Fukada, 2026

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