Assistiu a A Odisseia e está em um clima mitológico e cataclísmico? Vem comigo na história a seguir, que se desenrolou em outros e muito maiores mares, envolvendo outras e muito menos celebradas mitologias. (Se ainda não viu ou nem vai ver o filme, tudo bem, leia assim mesmo.)
Em dezembro de 2021, uma erupção vulcânica de níveis odisseicos sacudiu o Pacífico. As notícias relacionadas, porém, chegaram ao mundo em um ritmo ao qual não estávamos mais acostumados no século 21.
O desastre ocorreu em Tonga. O país polinésio, naturalmente isolado por ser uma das nações-arquipélagos da Oceania, ficou ainda mais distante do resto do planeta, porque ficou sem linhas de internet e de telefone.
A erupção começou até que discreta. Mas, em meados de janeiro, as colunas de fumaça ganharam o céu, que foi riscado por incontáveis relâmpagos.
“Incontáveis” é descrição de preguiçoso. Chris Vagasky, meteorologista especializado no assunto, disse à National Geographic que chegou a contabilizar 6 mil raios por minuto. Ou cem por segundo.
Depois veio a explosão titânica, ouvida até na Nova Zelândia, a absurdos 2 mil quilômetros de distância. Observatórios no Reino Unido, literalmente do outro lado do mundo, captaram as ondas de choque.
Em seguida, o tsunami.
Zoom Earth@zoom_earth
Incredible shockwaves from the #HungaTongaHungaHaapai eruption 🌋

8:02 AM · Jan 15, 2022
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Ele atingiu com força Tongatapu, a principal ilha do país e onde fica a capital, Nukualofa. Depois, chegou à América. As ondas arrebentaram ao longo de toda a costa, do Alasca ao Chile.
Só então as informações foram chegando, aos poucos. Desabamentos e matas cobertas de cinzas em Tongatapu, destruição de todas as casas da ilha de Mango, aeroporto inacessível e, dias depois, o primeiro registro de mortes ocorridas no país.
Houve também notícias de pescadores mortos no Peru. O país teria demorado para emitir alerta de maremoto.
A queda da internet em um país inteiro não é uma questão simples de ligar para a operadora, ser atendido por um robô, tirar o modem da tomada e xingar o serviço. Tonga, assim como outros países insulares do Pacífico, se conecta por um único cabo submarino de fibra óptica — e ele foi danificado pela erupção.
Em janeiro, o “técnico” foi chamado para resolver a internet. No caso, era um navio que saiu de Papua Nova Guiné, a oito dias de distância, com a árdua missão de recuperar as seções rompidas do cabo no fundo do oceano e fazer as emendas necessárias, segundo o New York Times.
Tudo isso sob a pressão nada discreta de um vulcão baforando cinzas e lava nas suas costas. É basicamente uma versão “guerreiros do cotidiano” do filme Guerra ao Terror.
Planet@planet
A Planet SkySat captured an image of Hunga-Tonga Hunga-Ha’apai today at 2:25 UTC, just two hours before its violent eruption that triggered a tsunami. Read @tanyaofmars' latest blog for more details on our monitoring of the volcano: planet.com/pulse/expandin…

6:13 PM · Jan 15, 2022
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No marco zero da catástrofe, imagens aéreas da ilha vulcânica que entrou em erupção mostraram que boa parte dela foi destruída, possivelmente dividindo-se em porções menores. O governo declarou que o desastre foi “sem precedentes”.
Mas há precedentes históricos. Tonga está familiarizado com a fúria vulcânica, especialmente no local da explosão. Quem nos ensina é a mitologia polinésia.
O REINO DE TONGA
Tonga hoje é um arquipélago de 170 ilhas, sendo que seus 105 mil habitantes ocupam 40 delas (e um quarto deles concentra-se na capital). Trata-se de uma nação muito antiga, que surgiu há 3 mil anos com os lapita, povo que ocupou uma série de arquipélagos no Pacífico.
A partir do século 10º, uma linhagem de reis e rainhas, os Tu’i Tonga, governou o país. O contato com os europeus começou no século 17, especialmente após a chegada de James Cook, em 1773, iniciando uma longa relação com os britânicos. Como é de se imaginar, Tonga acabou virando protetorado do Reino Unido, em 1905. A independência foi recuperada em 1970.
Essas ilhas têm origem nobre, segundo a mitologia. Tongatapu, por exemplo, foi uma das primeiras a ser elevadas do fundo do mar até a superfície por Maui, o grande herói das narrativas polinésias.
Já Hunga Tonga e Hunga Ha’apai foram atiradas do céu. Os tonganeses se referiam a elas como “as ilhas que pulam para frente e para trás”. Um jeito poético de dizer que lá tem terremoto aos montes.
Acredita-se que a última grande erupção ocorreu quase mil anos atrás. Muitas outras menores se seguiram.
Ou seja, a natureza dessas ilhas gêmeas e desabitadas já era tão conhecida que a mitologia lhes reservou um papel específico. Isso porque Tonga fica em um braço do chamado Anel de Fogo do Pacífico, uma das regiões mais propensas a erupções vulcânicas e terremotos do planeta.
NOVAS ILHAS
Hunga Tonga e Hunga Ha’apai chamaram atenção da comunidade científica em dezembro de 2014, quando outra erupção acabou unindo as duas porções de terra. Na falta de um novo nome, passou a ser Hunga Tonga-Hunga Ha’apai. Os locais preferiram encurtar, aí ficou só Hunga Tonga, como se a primeira tivesse absorvido a segunda.
Poderia ser mais uma de tantas ilhas que surgem de erupções só para morrerem pouco depois. Mas foi um dos poucos casos recentes em que a nova ilha vingou (o exemplo mais famoso é Surtsey, na Islândia).
“Em sua fase inicial, ilhas vulcânicas não apenas emergem”, explica o geógrafo britânico Alastair Bonnett no livro The Age of Islands (“A era das ilhas”, sem edição brasileira). “Elas se contorcem. Costas e encostas se contraem e se flexionam a cada semana que passa. Existe uma luta terrível para nascer que é acompanhada por berros e estrondos subterrâneos.”
Bonnett visitou Hunga Tonga logo após o evento que a fez aglutinar a irmã Hunga Ha’apai. Em pouco tempo a flora e a fauna já ocupavam seus espaços. Árvores, gramíneas, milhares de aves. Um milagre desabrochando diante de seus olhos. Relva e ninhos no chão, gaivotas no céu azul.
Sem julgar, o geógrafo conta que não havia aquele cuidado reservado a Surtsey, onde não se podia plantar nada, dejetos humanos deveriam ser removidos e o acesso é permitido somente a cientistas. “Fezes humanas ou a plantação de coqueiros do Branko [guia que acompanhou Bonnett] são o menor dos problemas. Tonga fica em uma rota transpacífica de drogas, e me falaram que pacotes de cocaína e outros narcóticos regularmente sujam as praias dessas numerosas ilhas remotas.”
Segundo o autor, o espetáculo da erupção de 2014-15 era visível tranquilamente da capital. “O jornal tonganês Matangi noticiou uma série de maravilhas naturais: o mar ficou ‘branco espumoso, chocolate e vermelho enquanto o sol brilhava através de um céu de champanhe’.”
Um morador contou à publicação que a praia se cobriu com uma névoa marrom e a nuvem de cinzas formou anéis ao redor do sol. “Isso do mar ter ficado vermelho foi relatado por múltiplas fontes. Mas permanece um enigma, embora se pense que foi causado por algas reagindo à maré alta”, explica.
Meses após a visita de Bonnett, foi a vez da Nasa chegar a Hunga Tonga. A evolução da ilha serviu de modelo de estudo para a agência espacial estudar a atividade vulcânica em outros planetas.
A ampliação da superfície da ilha começou em 2009 (sim, com outra erupção). Hunga Tonga ganhou uns metros quadrados, mas ainda longe de chegar a Hunga Ha’apai. A junção ocorreu em 2015, até que boa parte disso foi destruída em 2022.
Talvez Hunga Tonga não repita a longevidade de Surtsey. Muito menos a de Anak Krakatoa, ilha-vulcão que surgiu em 1927 e que causou um tsunami em 2018, matando cerca de 500 pessoas na Indonésia. As notícias ainda vão rolar.
As ilhas seguirão pulando para frente e para trás. Os antigos já sabiam.
Já que o assunto hoje está meio meteorológico, minha quinta série despertou ao descobrir que nuvens associadas a grandes queimadas ou a erupções vulcânicas se chamam pirocúmulos. A França, que tem sofrido com as ondas de calor neste verão europeu, registrou pela primeira vez a ocorrência dessas nuvens de fogo. Em outros locais, elas são velhas conhecidas.
A nuvem sobre Hiroshima? Um grande, infame e asqueroso pirocúmulo.

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