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Conta Outra · Aug 14, 2026

Cuba libre: drinque é mistura de exploração sexual com apropriação cultural

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Felipe van Deursen · Conta Outra

Bandeira dos Estados Unidos hasteada em solo cubano, 11 de junho de 1898. Museu Nacional da Marinha Americana

Ah, o cuba libre. Aquela mistura fácil e adocicada de rum com refrigerante de cola que marcou a iniciação alcoólica de gerações – às vezes motivada pela curiosidade que brotou na aula de História da véspera.

Segundo a versão mais difundida, o drinque surgiu, como o nome antecipa, em Cuba, em 1900. Uma época turbulenta.

Cinco anos antes, em 1895, o poeta José Martí e os generais Máximo Gómez e Antonio Maceo deram início à guerra de independência, a fim de livrar a ilha do domínio da Espanha. Martí foi morto em uma emboscada e virou o maior herói nacional do país. Em 1898, os Estados Unidos entraram no conflito, derrotaram os espanhóis e governaram Cuba até 1902, quando, enfim, a ilha conquistou a independência.

Uma independência que veio com uma polêmica nota de rodapé: os EUA teriam direito de intervir na política interna cubana até 1934 e ainda abocanharam uma base naval e a prisão de Guantánamo. Mas essa é outra história.

Então, lá estamos em 1900, na ensolarada Havana, celebrando a derrota dos espanhóis colonialistas. Em um bar da capital, um oficial americano, um certo capitão Russell, pediu uma dose de rum misturada com suco de limão e Coca-Cola para celebrar a união dos dois países americanos com suas bebidas típicas. Brindou aos convivas:

— Por uma Cuba livre!

Todos brindaram e o drinque caiu nas graças do povo.

Em 1965, um cubano chamado Fausto Rodríguez corroborou a história. Afirmou, sob juramento, que ele era o próprio menino de 14 anos que trabalhava com o capitão Russell.

É uma anedota que se encaixa muito bem para explicar a história agridoce da independência de Cuba, que se livrou de uma potência decadente para cair nas mãos de outra, emergente. Mas, se olharmos com um pouquinho de atenção, o episódio é redondinho demais, uma historinha que parece ter sido gerada por IA.

“Por uma Cuba livre”? Todos brindando? Daqui a pouco aparecem os Três Amigos, o Zé Carioca abraça o capitão Russell e as pessoas dançam enquanto sobem os créditos da Disney.

É possível que seja verdade, não sejamos tão cínicos. Mas é difícil.

Para começo de conversa, o depoimento de Rodríguez foi divulgado em um espaço publicitário na revista Life. Quem pagou o anúncio foi a fabricante do rum Bacardí. E o próprio Rodríguez era diretor de publicidade da empresa.

Ele pode ter sido um destemido adolescente que presenciou o nascimento de um drinque superpopular e depois fez carreira justamente na empresa que produz o principal ingrediente dessa receita? Pode. “Mas esses fatos tornam o documento apenas um pouco mais crível do que um homem vestido de Papai Noel dizer a você que ele é, de fato, Papai Noel”, resume o jornalista Wayne Curtis no livro And a Bottle of Rum (“E uma garrafa de rum”, sem edição brasileira).

Além disso, tem a posição única da Bacardí nessa história. Trata-se de uma empresa familiar, fundada em Santiago de Cuba em 1862, que deixou o país em 1960, depois da Revolução Cubana.

O grupo, hoje sediado em Bermuda, apoiou os revolucionários no início. Mas rompeu com Fidel Castro quando o novo regime confiscou empresas e propriedades, segundo o jornalista Tom Gjelten no livro Bacardí and the Long Fight for Cuba” (“Bacardí e a longa luta por Cuba”, também sem versão brasileira).

Apenas cinco anos depois, ela lançou a narrativa da Cuba livre com a suposta origem do drinque. Em uma propaganda na revista Life, lembremos.

A “versão oficial” que a Bacardí defende atualmente, segundo sua assessoria de imprensa no Brasil, diz que o coquetel surgiu sem autores específicos, apenas com cubanos e americanos misturando Bacardí, Coca-Cola e limão e celebrando alegremente o fim da guerra. Mas, em 2020, a companhia bancou a história do Capitão Russell com matérias patrocinadas em sites especializados, como Liquor.com (os links não estão mais disponíveis).

Não há nada de ilegal nem de antiético nisso. Mas não quer dizer que qualquer uma das duas seja a versão mais aceita pelos estudiosos do assunto.

ENTÃO, QUAL É A ORIGEM DO CUBA LIBRE?

O belo Edifício Bacardí, em Havana: ícone art déco da cidade, abandonado pela empresa após a Revolução Cubana (Sandra Cohen-Rose e Colin Rose, wikimedia commons)


Símbolo máximo americano, a Coca-Cola foi criada pelo farmacêutico John Pemberton em Atlanta, em 1886. Já era conhecida em Cuba no início do século 20, então é provável que a mistura com rum, o destilado nacional cubano, tenha surgido nessa época, mas sem que a guerra de independência tenha servido, necessariamente, de pano de fundo.

Já a popularização e o nome, “cuba libre” ou simplesmente “rum e Coca”, vieram mais tarde. É aí que a história fica mais interessante.

Na década de 1930, submarinos alemães assediavam navios transportando petróleo e bauxita na América do Sul e no Caribe, o que americanos e britânicos encaravam como uma ameaça à sua soberania. Em 1940, o Reino Unido e a Alemanha eram inimigos na Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos ainda não haviam entrado no conflito, mas colaboraram com os aliados ingleses enviando 50 navios e 1 milhão de rifles. Em troca, ganharam uma licença para criar uma linha de defesa ao longo das colônias britânicas no Caribe.

O impacto nessas ilhas foi tremendo. Praticamente da noite para o dia, lugares como Trinidad, que tinha 400 mil habitantes, receberam um fluxo de 130 mil soldados, oficiais, marinheiros etc. As mudanças no cotidiano e as trocas culturais eram inevitáveis. Entre tantas novidades, os americanos descobriram o rum de Trinidad e Tobago, cuja dose custava 25 cents (contra 30 cents por um copo de cerveja).

Bebidas fortes a preços muito baratos são uma receita histórica para a desordem. O rum é um destilado com pelo menos 35% de graduação alcoólica, então a quantidade de bêbados na rua virou um problema para Trinidad e para as Forças Armadas. Bares precisaram ser fechados à tarde, um toque de recolher foi instaurado a partir de 23h e o preço da cerveja caiu para 10 cents na base aérea. Tudo para diminuir a sede de rum entre os americanos.

Quando os EUA entraram na guerra, em 1941, a Coca-Cola foi junto, de cabeça, em um enorme esforço de patriotismo e marketing. A companhia se empenhou em estar presente na vida dos soldados: onde quer que estivessem, eles poderiam comprar uma garrafa pelo mesmo preço que ela custava na Primeira Guerra Mundial, mais de 20 anos antes. Foi um sucesso: a empresa vendeu cerca de 10 bilhões de refrigerantes dessa forma ao longo da guerra.

O estouro de popularidade da Coca encontrou no rum a companhia ideal no calor caribenho. A combinação estava feita, sacramentada no paladar e difundida entre companheiros longe de casa.

Faltava só algo para colar de vez essa figurinha no álbum da cultura popular. Como uma música.

Em 1906, o famoso músico trinitário Lionel Belasco compôs um calipso chamado “L’Année Passée”, que falava de uma jovem do campo, de boa família, que se apaixonou por um sujeito meio canalha e acabou na prostituição. Décadas depois, durante a guerra, outro cantor da ilha, que tinha o sugestivo nome Lord Invader, adaptou a música para narrar as aventuras dos americanos. Parte da letra, em inglês, dizia o seguinte:

“Eles compram rum e Coca-Cola,
Vão lá em Point Koomhana
Tanto a mãe quanto a filha
Trabalham para os dólares dos ianques.”

Ignorando a crítica social, os americanos gostavam da música, assim como os trinitários. Em uma turnê em Trinidad e Tobago, o artista Morey Amsterdam escutou a versão de Lord Invader, que se chamava “Rum and Coca-Cola”, gostou e decidiu levá-la aos EUA. Deu aquela suavizada na letra e tirou referências a prostituição.

A nova canção, que falava do romance entre um soldado gringo e uma nativa, foi um sucesso assombroso nas vozes do grupo The Andrews Sisters. Com um sotaque caribenho falso, as cantoras levaram “Rum and Coca-Cola” ao topo da Billboard por dois meses, em 1945.

Elevada ao status de megahit internacional, a música virou caso de Justiça, porque Amsterdam achou que tudo bem adaptar a composição sem pagar direitos autorais. Ele acreditava que, por se tratar de um calipso, “L’Année Passée” era uma canção folclórica, de domínio público. Em 1947, um juiz determinou que Amsterdam roubou a música e que todos os direitos deveriam ser pagos a Belasco, então com 66 anos.

A história do cuba libre não fala tanto de harmonia e paz entre povos amigos. Em vez disso, é uma saga de colonialismo, misoginia, exploração sexual e apropriação cultural.

Mas que terminou bem para Belasco. Um brinde a seu calipso, então, porque o drinque combina bem mais com música do que com guerra.

Ceuta, território espanhol encravado no Marrocos, ganhou o noticiário recentemente por causa da mais nova crise migratória na Europa. Apesar de simbolizar a rixa hispano-marroquina, há uma conexão muito forte com Portugal, que dominou a cidade por 165 anos: a bandeira de Ceuta tem um padrão idêntico à de Lisboa e seu brasão é inspirado no português.

Além disso, o lugar marcou, literalmente, Luiz de Camões. O maior poeta da língua portuguesa teve também uma vida imensa. Morou na Índia, trabalhou na África Oriental e na China, visitou o Sudeste Asiático e serviu no Norte da África — onde, em Ceuta, perdeu um olho e ganhou o semblante que entrou para a história.

  • Conteúdo fechado exclusivo para assinantes pagos: uma seleção de propagandas da Coca-Cola durante a Segunda Guerra

ps.: Se você respondeu por e-mail a alguma newsletter nas últimas semanas, provavelmente ficou no vácuo. Peço perdão pelo vacilo, eu não estava recebendo essas mensagens. Não se repetirá (assim espero, Substack).

Read the original on felipevandeursen.substack.com

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