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Felipe B. Cruz · Jan 15, 2026

Resolvi ler a Bíblia

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Felipe B. Cruz · Felipe B. Cruz

Jesus, um cara muito legal

Há alguns anos, ganhei uma Bíblia de presente. Quem me deu fez um certo mistério antes da entrega: “Vou te dar o presente mais importante que alguém poderia querer”, disse ele. Imaginei de tudo, menos uma Bíblia. Era uma edição bonita, de capa emborrachada. Lembrei dessa história porque, recentemente, tomei a decisão de ler a Bíblia.

Por ironia, não encontrei na estante aquele exemplar do “presente mais importante”, mas ainda estavam lá outras duas edições, guardadas há mais de 30 anos, que recebi quando criança.

Nas três décadas seguintes, e após várias mudanças de casa, sempre fiz questão de manter essas edições comigo, muito mais pelo apego emocional do que pelo interesse na leitura.

A mais antiga ganhei em 1994, dos meus padrinhos, no dia em que comecei o catecismo. A outra veio no ano seguinte, presente do meu avô na minha primeira comunhão; uma edição de capa de couro com zíper. Ambas trazem belas dedicatórias sobre a importância da palavra de Deus, mas, nos anos que se seguiram, se as abri meia dúzia de vezes, foi muito.

As Bíblias aqui de casa

Não sou uma pessoa religiosa. Considero-me católico e acredito em Deus, mas não frequento a missa, exceto em celebrações especiais como batizados ou casamentos.

Por outro lado, sempre gostei muito de história. Minha primeira viagem internacional, há 16 anos, foi justamente para Israel (2010). Visitei todos os marcos bíblicos: Nazaré, Cafarnaum, o Rio Jordão, Jerusalém, Belém e Tiberíades. Conheci também pontos históricos como Masada, Haifa, Cesareia, Acre, Telavive, o Mar Morto, o Timna Park e Eilat. Atravessei até a fronteira para ver Petra, na Jordânia. Foi uma viagem incrível. Anos depois, estive também em Roma e no Vaticano.

Ainda assim, nunca tive interesse real em ler a Bíblia. Como gosto de épicos e livros de história, um dia me deu o estalo: eis um épico que está aí há 2026 anos e continua fascinando muita gente. Por que não ler apenas pelo prazer? Não com os olhos da fé, mas como se fosse um livro de história, um grande romance. Talvez o maior já escrito?

As pesquisas confirmam isso: a Bíblia é sempre apontada como livro mais lido de todos os tempos. Um levantamento da Sociedade Bíblica Americana mostrou que, pela primeira vez desde 2021, o número de leitores da Bíblia aumentou no país. Outra pesquisa, de 2024, indicou que, embora o Brasil tenha perdido 6,7 milhões de leitores (cerca de 53% da população não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores), a leitura da Bíblia se manteve estável. Quando perguntados sobre “qual foi o livro mais marcante que você leu” ou “qual o livro ou gênero que mais gosta”, a Bíblia aparece em primeiro lugar.

O problema é que a Bíblia raramente é vista como literatura ou romance. Quem a lê, geralmente o faz para estudo ou como ferramenta de fé. Não foi o meu caso.

Fiquei extremamente entretido com o Novo Testamento, especialmente com os quatro Evangelhos. Gostei muito de Atos, que narra a saga dos Apóstolos e de São Paulo. Achei as cartas um pouco cansativas, mas devorei o Apocalipse.

Aqui na nossa bolha de leitores, sei que muitos já leram centenas de livros, mas tenho certeza de que vários nunca pegaram a Bíblia. Essas pessoas podem ter a noção equivocada de que o texto serve apenas para evangelização, mas não. Muitas partes são, de fato, histórias divertidas de ler.

Jesus era um cara muito legal com os "parças" dele. A trama tem drama, ação e humor. Como pode não parecer fácil ou cativante encarar esse desafio, sugiro começar pelo Novo Testamento. É curto, as histórias são fluidas e é perfeitamente possível terminar em um mês. Deixe o Velho Testamento para depois.

É fascinante notar como muitos ditados, parábolas e ensinamentos que citamos no cotidiano saíram dessas páginas. É impossível entender a arte ocidental, a literatura clássica (de Dostoievski a Saramago) e até expressões populares (“lavo minhas mãos”, “o bom samaritano”, “atirar a primeira pedra”) sem conhecer a Bíblia.

Outra dica fundamental é procurar uma tradução moderna, que atualize o texto para a linguagem de hoje. Do contrário, fica difícil navegar por narrativas repletas de pronomes na segunda pessoa.

E tem mais: a Bíblia talvez seja a obra mais adaptada da história para o cinema e a TV. A empreitada mais recente é a série The Chosen, disponível na Netflix e no Prime Video. Devorei as cinco temporadas. É uma produção muito bem feita, com uma leitura verossímil de Jesus e seus Apóstolos. Vale dar uma chance.

Jesus e seus parças em “The Chosen”

Read the original on felipebcruz.substack.com

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