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Felipe B. Cruz · Feb 20, 2026

O 'Bar de Estimação' e outros lugares em extinção

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Felipe B. Cruz · Felipe B. Cruz

Em algum lugar do passado no nosso “bar de estimação”

Quando eu morava em Barra Mansa, no Sul Fluminense (e lá se vão quase duas décadas desde a minha mudança para São Paulo), um ritual sempre se repetia ao final das tardes: eu me sentava em um dos bancos da praça da Igreja Matriz de São Sebastião, no Centro, só para observar o movimento.

Bastavam alguns minutos ali para surgir o Gladson — meu melhor amigo, cuja falta é uma dessas lacunas que a vida não preenche. Conversávamos sobre tudo e sobre nada. Logo, o Bruno, da ótica, aparecia. Depois o Rodrigo, o enfermeiro. Talvez o outro Bruno, o PM, estacionasse a viatura entre uma ronda e outra apenas para um “alô” rápido. Meus irmãos também estavam sempre por ali. Além de muitos outros amigos que também só apareciam de passagem.

Nenhum de nós tinha um convite formal. Nenhum de nós tinha uma “pauta” para o encontro. A vida, em sua forma mais pura e despretensiosa, simplesmente acontecia ali, ao cair da tarde. O encontro era uma questão de presença, não de logística. Havia uma afinidade inata, que só quem cresceu junto tem, mesmo que cada um de nós tivesse ocupações diferentes.

Algum tempo depois, o cenário mudou para o Buraco Quente, o prosaico apelido de uma rua que fica num buraco íngreme cheio de bares, bem pertinho da entrada da faculdade. Lá dentro, ficavam o Fabinho Beer, o Colarinho Branco e o Gole.

Mas o costume de nos encontrarmos sem hora marcada se manteve — com um upgrade. Transformamos aqueles lugares no Buraco Quente nos nossos "Bares de Estimação". Não se marcava horário. Bastava chegar na rua, pedir uma cerveja e aguardar. Se você não encontrasse alguém, alguém certamente te encontraria.

Falávamos como especialistas e flertávamos com o perigo em debates acalorados sobre futebol, política e religião. Felizmente, as discussões nunca passaram de um bom bate-papo. Mas o que mais gostávamos de falar era sobre alguma bobagem efêmera que o tempo já tratou de apagar. O conteúdo das conversas era o que menos importava; o que ficava — e o que ainda ressoa em mim — era a alegria de estar junto. Uma ou duas cervejas (ou mais) depois, cada um seguia seu rumo, com a alma devidamente arejada.

Vinte anos se passaram desde que troquei o interior pela correria de São Paulo. Foi caminhando com meus cachorros, dias atrás, que a nostalgia me pegou pelo colarinho (e não foi o do chope). Vi um grupo sentado em cadeiras de plástico na calçada, bebendo, conversando e ouvindo uma curiosa playlist que misturava Elvis Presley com sertanejo raiz. Uma aleatoriedade deliciosa que me transportou instantaneamente para Barra Mansa, quando ouvíamos pagode com punk rock. E ali, no meio do asfalto paulistano, percebi: eu ainda não havia encontrado meu bar de estimação nesta metrópole.

São Paulo é a cidade dos eventos, não dos momentos. Aqui, para ver um amigo, é preciso uma logística complicada. Agendamos com uma semana de antecedência, consultamos calendários compartilhados, mandamos invite no Gmail, definimos hora para começar e — o mais triste — hora para acabar. O encontro deixou de ser um hábito para se tornar um “acontecimento”.

Croqui de cosplay de bar em São Paulo

Antes de escolhermos o lugar, nos informamos sobre críticas gastronômicas, buscamos o “bar descolado da vez”, o vinho premiado, a comida que a curadoria do jornal elogiou. E, ao fim e ao cabo, invariavelmente, caímos na armadilha do que li recentemente e achei brilhante: o cosplay de bar. São lugares que se fantasiam de boteco, mas carregam um storytelling tão pesado que sufoca a espontaneidade. Percebi ser preciso uma justificativa narrativa para sair de casa. O boteco raiz, aquele onde o chão não é perfeitamente nivelado e a conversa não tem roteiro, tornou-se um refúgio para poucos sortudos.

Não culpo a cidade. São Paulo é vasta e generosa à sua maneira. E tenho certeza de que alguns privilegiados têm seus bares de estimação por aqui. A culpa, se é que existe uma, é da vida que insiste em crescer e nos dispersar. O Gladson, infelizmente, partiu cedo demais. E os amigos que fiz aqui em SP moram em bairros tão distantes que uma “cervejinha rápida” exige o planejamento de uma viagem intermunicipal equivalente à distância entre Barra Mansa e Resende.

Não reclamo da sofisticação, mas sinto saudade da simplicidade. Sinto falta daquele ócio compartilhado, do prazer de sentar em um banco ou em uma cadeira de plástico sem precisar de um motivo além da própria companhia. No fundo, busco um lugar onde não seja preciso performar uma persona descolada, que não tenha pauta e não tenha filtros.

Talvez a busca pelo bar de estimação em São Paulo seja outra coisa. Ele nunca foi propriamente um endereço ou uma marca de cerveja. Ele era, acima de tudo, as amizades. Percebo que não se trata de um lugar físico, mas de um estado de espírito compartilhado: é o rosto de quem nos faz companhia sem exigir nada em troca além da nossa presença. Sem essas pessoas, qualquer boteco, por mais autêntico que seja, não tem graça. Minha verdadeira nostalgia não é do copo cheio, mas da alma preenchida por aqueles que sabiam que, para ser feliz, bastava apenas estar.

Read the original on felipebcruz.substack.com

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