Quadrinhos, enquanto profissão, e como qualquer profissão, envolve fazer uma quantidade enorme de escolhas. Em cada quadro, você escolhe o que desenhar, o que deixar de fora, se o desenho vai ser mais detalhado, mais realista, ou mais caricato ou expressionista, qual o ângulo da “câmera”, o que determina posteriores escolhas em relação ao enquadramento e a perspectiva. No quadro seguinte, todas as escolhas se repetem, e você ainda precisa fazer escolhas em relação a como os dois quadros funcionam na mesma página entre si e com os outros quadros. Da mesma maneira, a página precisa funcionar com a anterior e com a seguinte e você precisa escolher como terminar as páginas ímpares para que o leitor tenha vontade de virar a página e descobrir como a história continua.
Todas essas escolhas podem oferecer limites, mas não devem ser aprisionadoras. Elas fazem parte de uma camada invisível da criação artística, muitas vezes intuitiva, onde as escolhas que você faz colocam um pouco de você no seu trabalho. Seu estilo pessoal, sua voz autoral, está tanto no que você põe quanto no que você tira.
Essa semana, eu estava desenhando uma capa do Archie, e as maiores escolhas se concentraram na hora de colorir a imagem. Por mais que eu goste de usar uma paleta limitada de cores, eu já entendi que os personagens do Archie tem suas cores particulares e, nesse sentido, são como os super-heróis da Marvel e da DC: a capa do Superman é vermelha, faça chuva ou faça Sol.
Acabei fazendo duas versões da capa, e deixei para minha editora e pro pessoal do Archie decidirem qual versão eles preferem. Era tarde da noite e eu ainda tinha outras decisões pra tomar: o DJ pediu pra eu mandar quais músicas não podiam faltar na festa da noite seguinte pra comemorar nossos 100 anos (cinquenta meus, cinquenta do Bá). Durante a FLIP, no final de Julho, eu e meus amigos vimos nas diversas festas como escolher a música certa da festa crucial (o que torna importantíssimo escolher um bom DJ), com exemplos que ainda vivem na minha memória de ótimas pistas de dança e de festas que não empolgaram ninguém.
O bom DJ é como o bom Quadrinista, fazendo as escolhas certas, na sequência certa, pra ir construindo uma narrativa durante a noite toda que faz com que as pessoas não queiram sair da pistas, curiosas com qual música vai tocar em seguida.
A editora me escreveu, perguntando se eu tinha o arquivo em preto e branco da capa, que poderia ser mais uma opção de capa variante.
Às vezes, nós damos várias opções e quem escolhe é o leitor.
Cuidem uns dos outros, com gentileza e curiosidade.
Pa-ZOW!
Fábio Moon
Base Lunar, São Paulo
7 de Agosto de 2026
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