Para cada evento que consigo ir, são pelo menos dois que acabo faltando. Não dá pra fazer tudo, eu sei, e a vida é feita de escolhas e todo o resto dos ditados da sabedoria de botequim. Ainda assim, há momentos em que pareço ser submerso por tanta coisa que nem aproveito direito o que consigo fazer. Meu respiro tende a ser o trabalho e, como estou correndo com a produção das edições do Archie, passo a maior parte dos dias sentado na prancheta pensando nessa história. Queria ter ido à Escola de Teatro no começo da semana para ouvir duas conversas com a Pajé Mapulu Kamayurá, primeira mulher pajé do alto Xingú (Terra Preta: da Literatura ao teatro, com Rita Carelli e Helena Cerello; Aysu -Amor pela Natureza: Alianças entre Povos Indígenas e Não Indígenas na Proteção da Vida, com a Pajé Mapulu Kamayurá, o documentarista Caue Angeli e a atriz Helena Cerello), mas fiquei desenhando e só lembrei de escutar a segunda conversa pelo YouTube porque a Helena me lembrou. Queria ter ido ao lançamento de Eldorado, novo livro do Marcello Quintanilha, na Loja Monstra na última quarta, mas fiquei desenhando até tarde, esqueci até ver imagens no Instagram no dia seguinte e perdi a chance de colocar o papo em dia com o Quintanilha, que mora em Barcelona e eu nunca vejo. Queria ter ido ao lançamento do Benson também na Loja Monstra no sábado passado, mas era ao mesmo tempo que o lançamento do Joca, e enquanto eu estava desenhando e o tempo passava no sábado passado, eu cheguei a pensar que não ia conseguir ir em nenhum dos dois.
Enquanto refletia sobre minhas escolhas recentes e sobre qual vida estas escolhas me proporcionaram, o Uber faz a curva embaixo da Nove de Julho e sobe a rua Rocha em direção ao lançamento de "Curva do rio sujo” do Joca Reiners Terron.
Cheguei atrasado, quase no fim do bate-papo do Joca com a Paulinny Tort. O bar estava cheio, assim como os dois botecos que o cercavam, a calçada e boa parte da rua. Logo começou a sessão de autógrafos e, com ela, a já habitual cerimônia do Joca de carimbar os livros autografados. Eu, que faço Histórias em Quadrinhos, costumo desenhar em cada livro que autografo, e acho que a vontade do Joca é essa (será que o sonho secreto dele é ser quadrinista?), mas desenhar em todos os livros demora muito e o carimbo, além de charmoso em si, é rápido e ágil.
Desenhar é escolher o que de tudo o que você vê você vai transformar em traço, em pincelada, em rabisco. O desenho do Joca já foi feito no meu caderno de bolso, desses que eu carrego no bolso de trás da casa jeans, então um detalhe interessante que eu vi não foi para o papel: a tatuagem do Joca.
O Joca tem uma tatuagem de máquina de escrever tatuada no braço direito.
Apesar do charmoso carimbo, sempre faço aquela chantagem emocional com o Joca pra conseguir um desenhinho.
“Eu desenho nos seus livros, você desenha nos meus”.
A grande correria recomeça. Tenho 17 páginas pra terminar em 20 dias. Espero que não tenha mais eventos nesse período, ou vou acabar faltando.
Cuidem uns dos outros, com gentileza e curiosidade.
Pa-ZOW!
Fábio Moon
Base Lunar, São Paulo
21 de Agosto de 2026
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