Há algumas semanas publiquei um vídeo – agora sou uma pessoa que faz vídeos – no qual revelo que um dos meus medos como escritora é escrever uma coisa da qual não gosto, por pressões financeiras, e acabar fazendo muito sucesso e ganhar muito dinheiro. Foi um item polêmico, algumas pessoas declararam que não se importariam, também me permiti refletir um pouco mais sobre o assunto porque, afinal, tenho muitas dívidas e duas filhas chegando à idade escolar. No fim, contudo, cheguei à mesma conclusão. Dinheiro é ótimo, eu adoraria ganhar rios dele, mas acho que escrever algo com o qual não me identifico só para surfar em algo e “monetizar” (esse verbo horroroso) me deixaria tão infeliz quanto um trabalho em uma repartição pública. Se pudesse usar um pseudônimo, com certeza, eu escreveria qualquer coisa, como já faço por aí. Mas o trabalho que venho construindo, o trabalho literário com meu nominho comprido, obedece a uma outra lógica. Eu não quero apenas vender. Quero vender escrevendo aquilo que senti ser verdadeiro. Será que faz sentido?
Meus três livros carregam a marca daquilo que fui. Do meu gosto estético, das minhas referências do momento. Acima de tudo, entretanto, são livros que trazem inquietações particulares e obsessões específicas. Apague a luz se for chorar, por exemplo, foi escrito lá pelos meus 20 e tantos anos, quando eu sofria de arroubos poéticos e lidava com a perda de alguns amigos e de pessoas da família, um luto estranho e desorientador. Como se fosse um monstro é o livro que antecedeu minhas filhas, foi concebido enquanto eu passava por um doloroso tratamento de fertilidade, embora muita gente veja um livro sobre mães, eu vejo um romance sobre escolhas. A linguagem dos desastres, por sua vez, é meu livro mais “espiritual”, um romance pós-pandêmico em que eu começo a abandonar o realismo, piso forte nas minhas obsessões com o tarô e abraço meu lado mais imaginativo. Eu tenho muito orgulho dos meus livros, eles carregam meu DNA, e não os trocaria por sucessos maiores, arrebatadores, ou livros mais experimentais.
Escrever, para mim, só faz sentido se for assim, nessa perspectiva existencial. Por isso é tão doloroso colocar a cabeça para fora do buraco, às vezes, e ver que nem sempre aquilo que você escreveu com sinceridade vai conquistar os leitores ou os editores, nem sempre as pessoas vão absorver ou entender o seu livro. Não importa. O sucesso deve ser uma consequência, nunca o alvo final, e os romances têm um prazo de vida longo, talvez estejam falando com gerações futuras, talvez falem de um mundo que ainda não existiu. Ser artista, para mim, é seguir a própria verdade, seja ela qual for. Então, se você quer escrever sobre pássaros migrantes e gente doida, faça isso. Obedeça à voz interior, nunca à exterior.
Há alguns anos eu decidi que não quero e não sei fazer outra coisa da minha vida, então não tenho plano B para o caso de a literatura falhar. Segundo meus cálculos, preciso de uns dez ou doze livros para conseguir manter uma renda mensal razoável. Não tem problema. Sei que vou encontrar uma maneira de fazer isso dar certo. Há dias em que eu me sinto triste e desmotivada, sim, por sorte esses dias sempre passam. Quando abro uma página de Word e escrevo algo muito bom – muito bom para os meus parâmetros, não os de outra pessoa – eu me lembro porque fiz essa escolha. Não foi pela ideia do sucesso, tampouco o dinheiro. Não sei fazer outra coisa, nem quero fazer outra coisa.
Acabei de voltar da viagem à Portugal, onde participei da minha primeira grande feira de livro e falei sobre o Linguagem. Quando cheguei ao país, enfrentei uma longa fila na imigração. Foram quase duas horas de espera. Um casal de velhinhos britânicos atrás de mim acabou puxando assunto, os dois muito cansados, mas bem-humorados e dispostos, contaram que estavam ali para visitar a filha. Eles me perguntaram, então, o que eu tinha vindo fazer. Quando disse que era escritora e estava lançando um livro, juro, até os meus ossos guincharam de orgulho. Eu consegui, sabe. Eu consegui!
Sinto algumas dificuldades, claro, em atravessar a outra parte desse processo para continuar conseguindo. O mundo literário, com suas picuinhas e expectativas, às vezes me desanima. Estar longe de onde tudo parece acontecer me desanima. São escolhas e renúncias, estou convivendo com elas. Alguns dias antes de ir a Portugal, por exemplo, bati o martelo e decidi que não irei à Flip neste ano. Era algo que eu queria muito, acho que seria muito necessário para levar a palavra do Linguagem adiante, mas as condições são complexas. Não houve convites com aporte financeiro, claro, essa é uma das questões, mas nem é das principais, porque de qualquer forma eu já sou o terror do Serasa. A grande questão é que não temos uma rede de apoio muito grande e meu marido teria que ficar com as meninas (levar as duas para Paraty é um rolê que, admiro quem faz, eu não tenho coragem). A ideia de ir sozinha e por conta própria, sem minha família, é desestimulante. Eu sofri muito de saudade das meninas quando estava em Lisboa, talvez um dia me acostume à distância, mas hoje elas são muito pequenas ainda. Não, não terá Flip para mim neste ano. Mas está tudo bem. Já aprendi a conviver com essa ansiedade de estar perdendo coisas importantes, mas ela nunca será maior do que a minha satisfação em saber que estou sendo uma mãe incrível e seguindo meus instintos mais basilares.
Sigo divulgando meu livro nos espaços que posso e consigo, inclusive este aqui (leiam A linguagem dos desastres, está em todas as livrarias e também aqui nessa lojinha perniciosa do Bezos, você encontra exemplares autografados na Livraria da Vila do Fradique e na Travessa, se estiver em São Paulo, e na Platô e Circulares, se estiver em Brasília). Sigo presente nas redes sociais (procurem por @fabicguimaraes no Instagram e no Tiktok). Cada coisa ao seu tempo, ao seu ritmo. No fim, eu não me arrependo de nada, e vocês não sabem o prazer gigantesco que é poder dizer para o mundo inteiro que eu sou escritora e mais nada.
O curso segue com desconto
As pessoas que compraram o meu curso online de escrita, Jornada Literária, me ajudaram imensamente na viagem a Portugal, não sei como agradecer. Decidi manter o desconto de 50% por um tempinho, então, se você tem interesse em adquirir o curso pela metade do preço, ainda está valendo! É só clicar aqui e usar o cupom FABIEMPORTUGAL.
Assinaturas pagas
Eu tinha dado uma pausa nas assinaturas pagas aqui do Substack porque estava de recesso/burnout/férias, mas agora reativei. Se você ainda tem interesse em manter a assinatura e apoiar meu trabalho, não precisa fazer nada. Se você quer cancelar, pode ir direto ali no aplicativo, na parte de subscrições. Sei que algumas pessoas estão sentindo falta do Prompt Humano, pretendo reativar o site, só preciso lidar com algumas questões envolvendo a hospedagem e administração via Lovable (estava muito caro e precisei cancelar). De qualquer forma, estou trabalhando em mais benefícios para os apoiadores, devo trazer novidades sobre isso em breve.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.