RSS Amplifier

Tristezas de estimação · Aug 19, 2026

Como dobrar o tempo

0
Sign in to vote or save

Fabiane Guimarães · Tristezas de estimação

Brasília queima. A linguagem dos desastres, 2026

Na semana passada fui reencontrar uma amiga querida, grande escritora, que está se engalfinhando com seu novo livro. É ótimo enviar mensagens a amigas escritoras porque você pergunta “como está o romance?” e a resposta nunca é sobre uma pessoa. Essa minha amiga tem dificuldades em gerenciar o tempo. Não sei como você consegue fazer tanta coisa, disse, fumando seu cigarro. Eu aprendi a dobrar o tempo, respondi. Escrever, ser mãe e ter vários empregos exige uma acrobacia de ordem relativística. Nunca espremi minhas atividades em tão poucas horas. Faço como dá e tem dado certo.

A maioria de nós não tem tempo para nada. Acordar, se alimentar, pegar a condução ou ligar o computador, passar o dia inteiro produzindo o trabalho que pagará as contas – esse é o destino. A fadiga do fim do dia impede muita gente de chegar em casa e conseguir se dedicar aos projetos criativos. Eu pessoalmente acredito que o direito à arte deveria ser um direito social, porque é inegável como a desigualdade também afeta a liberdade de criação. Para escrever você precisa sacrificar muita coisa e às vezes modificar radicalmente sua vida.

Eu fiz essas modificações há cinco anos. Para começar, larguei meu antigo trabalho na comunicação. Eu trabalhava em uma agência da ONU, tinha um contrato estável e um futuro cheio de possibilidades. Fui viver como freelance e trabalhar de casa. Eu me arrependi? Não. Pior que não. Nunca me faltou trabalho, só ameacei me arrepender quando tive medo.

Trabalhar de casa era importante porque eu moro longe do Plano Piloto, o “centro” de Brasília, e mesmo de carro o deslocamento de ida e volta me custaria muito tempo. Ao fazer a conta do tempo, foi fundamental pensar em uma forma de permanecer dentro de um perímetro onde meus deslocamentos sejam apenas mentais. Assim consigo navegar melhor entre os espaços profissionais, cavando formas de escrever entre um e outro. Ultimamente não tenho conseguido muito. Além de ter pelo menos dois trabalhos freelancers, também tenho duas filhas – conto com o privilégio de ter um babá oito horas por dia, espaço que aproveito ao máximo para fazer tudo que é preciso e eu quero fazer –, tem as questões de escritora que também exigem muito tempo, como produzir coisas para as redes sociais, participar de eventos e atividades de divulgação do livro novo, escrever essa newsletter. E, claro, os afazeres domésticos e a minha vida conjugal. É realmente coisa para caramba, ainda mais agora que resolvi melhorar a saúde e abrir mais um campo livre para cuidar de mim e ir à academia. É então que entra o verdadeiro segredo de como dobrar o tempo em direção à escrita: você precisa querer.

Pegue por exemplo o sábado. Por aqui, é um dos dias mais cansativos da semana. Eu e meu marido acordamos bem cedo, damos café para as meninas, às vezes vamos à padaria ou à feira, tem que lavar roupa e a louça, passar um pano na casa, depois já é hora de cuidar do almoço – elas almoçam cedo –, dar banho e então as duas dormem. O cochilo da tarde, providencial, dura em torno de uma hora. É a única hora que eu tenho livre (o próximo lote será só mais tarde, depois das dez). Às vezes eu e meu marido nem almoçamos. Ele normalmente se joga no sofá para descansar e assistir a algum vídeo no Youtube. No último sábado, eu estava acabada e me juntei a ele. Então me veio aquela comichão. A atração gravitacional de um arquivo meio morto me chamava. Estava em estado de encantamento. Por alguns minutos tentei resistir, negociar com a vontade, quem sabe não seria melhor ficar ali mesmo, vendo aquele vídeo tão interessante, mas estou escrevendo uma coisa nova, e quando tenho um projeto novo tudo faz sentido. Fui ao escritório imediatamente. Escrevi duas páginas da mais pura e alucinante ficção.

Parece masoquismo, mas é a única forma que eu consigo ser escritora: sem descansar. Usando todo o tempo livre disponível e fazendo dele o meu lugar sagrado. Isso significa que eu faço muito menos coisas divertidas. Não tenho tanto lazer. Às vezes escrever me tira até mesmo dinheiro, eu pago para isso, já que ganho por hora e quando estou muito focada e prefiro escrever ficção a minha hora não será remunerada. Escrevo à noite, quando estou com sono. Escrevo quando podia estar dormindo, transando, comendo ou vendo séries. É um prazer, um lazer e eu preciso abrir espaço para isso, mesmo que custe muito e a retribuição nunca venha. Isso é um sacerdócio, uma vida ingrata, não vou aqui dizer que é lindo, inclusive não recomendo. Não dá para romantizar. Você dobra o tempo, dobra a si mesma, em troca de algo que não é tangível, por isso eu vejo como é, como tem sido, uma questão de propósito. Coisa de alma e de gente doida.

Agenda de eventos

Apesar de todas as dificuldades endereçadas no texto acima, estou muito feliz com alguns dos frutos colhidos pelo meu trabalho neste ano e tenho alguns eventos importantes nos próximos meses.

Se você está em Brasília: estarei na Bienal do Livro no próximo domingo, dia 23, às 16h, falando sobre A linguagem dos desastres em conversa mediada por Priscilla Calado. O evento é gratuito, só chegar, e eu vou amar ver alguém do Substack lá!

Se você está em São Paulo: estarei na Bienal do Livro dia 12 de setembro, em um painel maravilhoso com Miriam Leitão e Marina Rossi, mediado por Cleicí Patauá. Será às 16h. Mais informações aqui. Depois, às 17h, haverá autógrafos no estande da Companhia das Letras.

A linguagem dos desastres segue disponível para compra, compartilhamento, empréstimos e tudo mais. Se você compra na Amazon, pode comprar aqui.

Apoie essa newsletter

Pelos motivos também endereçados acima, a newsletter voltará a sair de 15 a 20 dias. Apoiadores pagos, contudo, receberão um texto extra, a coluna Confissões Literárias, na qual falarei abertamente sobre alguns assuntos envolvendo escrita e mercado editorial. No último texto, falei sobre o caso da Tamara, como enxergo questões editoriais e ter uma “carreira literária”. Se quiser apoiar, eu agradeço, aqui tem um cupom de 10%.

Curso online: ÚLTIMA OPORTUNIDADE

O cupom de 50% de desconto no meu curso Jornada Literária ficará disponível só até 31 de agosto. Se você tem interesse em comprar o material com o desconto, vá aqui no checkout e digite FABIEMPORTUGAL para levar tudo pela metade do preço. O curso é vitalício: dá para assistir quando quiser. É uma aula rápida, de 2h20, com dicas preciosas e práticas. Garantia de 7 dias. Depois de 31 de agosto, volta o preço cheio.

No posts

Read the original on fabianeguimaraes.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.