RSS Amplifier

expiration date · Mar 27, 2026

Tiros no escuro

0
Sign in to vote or save

sara v · expiration date

Palaçoulo, 2017

A sala de preparação para a cirurgia estava gelada, e alguém me tapou com um cobertor aquecido. Toda eu tremia, não sei se do frio, se dos nervos.

Elogiei a touca colorida da anestesista como se, ao meter conversa, me tornasse mais real debaixo do cobertor. Foquei a minha atenção na respiração, tentando acalmar o coração. Talvez o meu corpo parasse de tremer se fingisse que estava tranquila.

O cirurgião entrou na sala, chegou-se ao pé de mim, e perguntou «Hoje tiramos só o útero e as trompas? Tem a certeza?». «Tenho», balbuciei.

Pouco tempo antes tinha-me sido diagnosticado um cancro microinvasor no colo do útero. Fiz uma conização, um procedimento doloroso em que removeram uma parte do colo do útero ali mesmo na sala da ginecologista, com anestesia local. A biópsia revelou que as margens não estavam limpas e, dado o meu diagnóstico de cancro da mama, dois anos antes, e sabendo que eu não queria ter filhos, a médica sugeriu a remoção do útero. Pareceu-me sensato.

Perante a cirurgia, surgiu a dúvida se se aproveitava a cirurgia para tirar também as trompas e os ovários. A maior vantagem era a redução drástica do risco de cancro no ovário. A desvantagem era que a cirurgia iria induzir a menopausa dez anos antes do seu tempo normal, com tudo o que isso implica normalmente, mas numa versão abrupta, aumentando o risco de outros problemas, como osteoporose.

O cirurgião disse que a decisão era minha, e eu decidi não tirar os ovários. A menopausa induzida parecia-me o fim de uma era, a morte de algo em mim, e eu não estava preparada. Decidi tirar as trompas, porque percebi que era uma forma de reduzir bastante o risco de cancro do ovário (muitos cancros têm origem nas trompas) sem induzir a menopausa.

Passados cinco anos, recebi o diagnóstico das metástases do cancro da mama. Ironicamente, o meu tratamento inclui goserrelina, que faz o que eu temia: inibe a função dos ovários e lançou-me abruptamente no pós-menopausa.

Não sei.

Antes da cirurgia, os médicos dedicaram tempo a explicar-me tudo e a responder às minhas perguntas (o que, hoje em dia, é um privilégio). A minha formação científica e o meu trabalho na área da avaliação de risco ajudaram-me a compreender o que se passava.

Eu conhecia os factos, mas a minha decisão não se baseou só neles. É difícil de mapear uma decisão destas: é parte emoção, parte sensação e parte intuição e é vulnerável a crenças e convicções que só se revelam mais tarde.

Olhando para trás, pergunto-me porque é que foquei a minha atenção no risco de cancro no ovário, e não ponderei tanto o facto de que eliminar a produção de estrogénio poderia ser um factor importante para prevenir uma recidiva do meu cancro da mama, que é positivo para os recetores de estrogénio e progesterona (ER+PR+).

A verdade é que a Sara de então não conseguia imaginar uma recidiva do cancro da mama. O tumor tinha sido apanhado cedo, era de crescimento lento, não tinha complicações. Nem sequer foi preciso fazer quimioterapia. Fiz a tumorectomia, radioterapia e continuava a fazer terapia hormonal (tamoxifeno, que bloqueia a ação do estrogénio nas células do cancro da mama). A vida tinha continuado e esse capítulo ficara para trás.

Cinco anos depois, quando a recidiva se tornou real, a dúvida avolumou-se: será que a remoção dos ovários poderia ter prevenido o aparecimento de metástases?

Nunca saberei.

A dúvida transporta-me para a sala de preparação gelada, e para as palavras do cirurgião. «Tem a certeza?». O que é que ele esperava? Que eu mudasse de ideias na maca a caminho do bloco operatório? Na altura a pergunta irritou-me, e fez-me sentir muito sozinha na minha decisão.

Sei que foi a melhor decisão que eu podia ter feito na altura e isso deixa-me tranquila. Questionar-me com curiosidade, em vez de arrependimento, revela os meandros do meu próprio processo de tomada de decisão.

A expressão shared medical decision making (decisão médica partilhada) ganhou popularidade na década de 1990, segundo o Google Ngram. «Verificou-se uma transição do modelo paternalista de tomada de decisão, em que o médico sabe o que é melhor, para o modelo de tomada de decisão partilhada»1, em que o doente tem o direito de compreender e participar nas decisões relativas aos seus cuidados de saúde.

Na decisão partilhada revela-se uma verdade inconveniente: os médicos não lidam com certezas absolutas e há decisões que são exercícios de avaliação de risco baseados em dados limitados. Há decisões que são como tiros num quarto muito escuro, e este é um convite para entrar nesse quarto.

Aquele momento na sala de preparação, deitada na maca, parece ser uma versão extrema deste ideal.

Foram muito poucas as vezes em que um médico me disse «a decisão é sua». Foram casos em que a informação era insuficiente ou não havia uma preferência clínica óbvia, e as opções tinham impactos distintos na minha qualidade de vida.

Mesmo nesta versão extrema, mesmo sabendo que a autonomia pode isolar-me, e que a incerteza gera ansiedade, a partilha da decisão médica faz com que os meus valores sejam considerados. Nunca saberei mais sobre medicina do que um médico, mas sei certamente mais sobre mim mesma e, no fim de contas, sou eu quem tem de viver com as decisões.

No posts

Read the original on expirationdate.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.

    Reading · expiration date · RSS Amplifier